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  • Pablo Capistrano
  • 17 de agosto de 2010, as 12h12

Em um jogo no estádio Giuzeppe Meaza, em um período em que a Internazionale de Milão estava vivendo uma de suas crises, um torcedor estendeu uma faixa aonde se lia: “Não sei mais como insultá-los!”.

No último Sábado, no Machadão não havia faixas de protesto estendias na derrota do América para o Vila Nova por dois a um, mas era como se houvesse uma mensagem dessas aberta no coração de cada torcedor.
Fora a tradicional vaia ao time, do lado da “cornetagem”, bem embaixo do túnel que leva ao vestiário, não se viu muita revolta por parte da torcida. Havia sim, um cansaço silencioso e melancólico de quem já não tem mais forças para suportar três anos de resultados medíocres.

A torcida do América é assim. Ao contrário dos fundamentalistas torcedores do ABC, apaixonados e eufóricos mesmo diante de resultados pífios de seu time, o americano típico abandona a equipe quando a barra pesa, em um tipo cruel e silencioso de reação que se ajusta a um modelo de torcedor acostumado a um nível alto de exigência.

Durante os últimos quinze anos o América deu ao Rio Grande do Norte motivos para sonhar. Seu futebol nos levou durante três temporadas a série A do Brasileiro e de quebra nos proporcionou um título da copa do Nordeste. Entretanto, paralelo a esses sucessos, houve um desmonte silencioso de partes substanciais do patrimônio do clube. Ao contrário do que aconteceu com o ABC que abriu mão de parte de seu patrimônio mais conseguiu agregar valor a sua marca com a construção do seu estádio, o América permanece ainda a mercê do poder público, sem um estádio, com um centro de treinamentos longe do centro e com sua sede social sendo fragmentada para atender o interesse de setores da construção civil.

Lembro, nos anos de 1980, que ir ao América, lá na Rodrigues Alves, nos Domingos, era um dos melhores programas familiares da cidade. Lembro ter treinado basquete ali e nadado um bocado na piscina do clube. Havia uma sensação, ao menos para mim, naquela época, que o América era mais do que um clube de futebol. Era um espaço de pertencimento, um estado de congregação, um local para sentir-se em casa.
Não é correto achar, agora, os culpados para a situação do clube. A atual diretoria não pode ser culpada por algo que já se configura há muito tempo, por um desmantelamento que parece ter sido camuflado por alguns bons resultados pontuais que o time conquistou nos últimos anos.

Eu não sei. Não sou especialista nos bastidores da bola. Sou apenas um torcedor e um apreciador de futebol. Aprendi a amar o América desde criança, com meu pai, que herdou do meu avô (Benjamim Capistrano) essa paixão e que por sua vez chegou-lhe transmitida pelo velho João Capistrano (meu bisavô), dono de um açougue no mercado público do centro da cidade e que, em 1915 foi um torcedor de primeira hora do América. Minha torcida, mesmo no tempo em que as aventuras da juventude me afastaram dos campos do Machadão, continuou ao pé do rádio, junto com minha avó Adélia (que não perdia um jogo do América e que morreu feliz, no último mês de 2006, quinze dias depois da partida contra o Atlético Mineiro que levou a equipe de volta a série A).

Por tudo isso dói ver o América na situação em que se encontra hoje, mas dói mais sentir que algo da alma americana anda meio perdida nesses tempos. Talvez, a reconstrução do América, antes de ser um esforço meramente futebolístico, comece pela recuperação desse sentimento, perdido em algum lugar dessa Natal moderna, ao mesmo tempo matuta e cosmopolita, que costuma a sepultar sem muita cerimônia sua própria história.


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2007 ® Pablo Capistrano

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