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  • Pablo Capistrano
  • 23 de agosto de 2010, as 7h07

 

LIVRO: Schiller & a cultura estética.

AUTOR: Ricardo Barbosa.

EDITORA: Jorge Zahar.

ANO: 2004

 

 

Minha experiência como professor não é muito larga. São apenas onze anos de sala de aula, mas, nesse tempo aprendi algumas coisas sobre o modo como nossos conterrâneos entendem o papel da educação.

No Brasil há uma vinculação forte entre educação e ascensão social de modo que, na maioria das vezes o sentido de se educar alguém parece ser de simplesmente fornecer ferramentas para que o aluno arrume um bom emprego e ganhe algum dinheiro para realizar seus sonhos de consumo.

Nessa perspectiva, disciplinas como filosofia, artes ou literatura são vistas muitas vezes como incômodas intrusas em um projeto pessoal de sucesso financeiro que passa pelo domínio das disciplinas cientificas e tecnológicas e, quando muito, pelas humanidades “nobres” como história e geografia (suportes essenciais para o curso de Direito, curso obrigatório para quatro em cada cinco concurseiros de plantão).

Sinceramente eu enchi o saco de responder a pergunta: “professor, para que serve a filosofia?”. Acho que esse é um sentimento partilhado também pelos colegas de artes e de literatura. Agora, quando alguém me pergunta isso eu conto até dez e respondo com outra pergunta: “para que você acha que serve a educação?”.

Existe uma resposta a essa questão que pode ser encontrada em um conjunto de cartas escritas por Friedrich Schiller e endereçadas em fins do século XVIII ao príncipe de Augustenburg. As copias que o príncipe recebeu infelizmente foram destruídas em um incêndio no dia 26 de Fevereiro de 1794, mas felizmente, Schiller guardou cópias dos manuscritos e publicou entre 1794 e 1797 um conjunto de 27 cartas que hoje está à disposição dos leitores brasileiros com o título A educação estética do homem.  

Tive sorte de ter contato com esse texto ainda na graduação, em uma disciplina ministrada pelo professor Glenn W. Erickson. Lemos e discutimos algumas das cartas escritas dois séculos antes de entramos no curso de filosofia. Mas, se você não está disposto em enfrentar o texto de Schiller através da tradução do Roberto Schwarz ou do Márcio Suzuki, pode procurar a leitura rápida do livro de Ricardo Barbosa Schiller& A cultura estética.

A busca de Schiller em discutir o papel que a arte e o gosto exercem na formação do homem é expressa de modo sintético no livro de Barbosa, com a vantagem de se ter também uma coletânea de textos do próprio Schiller no final do livro.

Schiller buscou materializar uma crítica à Aufklãrung (forma alemã de fazer referência ao que os franceses chamavam de iluminismo), não em busca de um abandono de seu sentido, mas sim, em busca de uma forma de radicalizar seus pressupostos, de intensificar sua penetração. O que Schiller percebe é que a materialização do projeto iluminista de “libertar o homem pelo esclarecimento e pela razão” não seria eficaz se não estivesse acompanhado de uma proposta pedagógica de formação humana a partir de uma educação estética do homem.

A partir desse ponto Schiller constrói, não apenas uma proposta pedagógica, mas também uma teórica estética ligada a uma filosofia política própria. O estético não se baseia, dessa forma, apenas em aspectos sensoriais e o gosto não pode ser tomado como um simples dado natural. È preciso educar o homem no exercício do gosto para que o espírito humano possa se libertar da obscuridade mental, da miséria moral e da escravidão política.

O cultivo da sensibilidade estética na infância e na adolescência reproduz, no campo psicológico dos indivíduos, o caminho de toda humanidade, que teria emergido do mundo natural a partir da construção simbólica do mundo. A arte, nesse sentido, é uma das marcas da humanidade. Se coletivamente vamos nos tornando humanos na medida em que cultivamos o olhar estético, individualmente o efeito da educação estética não é menos notável na vida de nossos alunos.

Não se trata apenas de cultivar os valores estéticos do nosso tempo. Schiller com certeza vomitaria se imaginasse que uma educação estética dos alunos brasileiros passasse pela audição sistemática das bandas de forró eletrônico que empesteiam nossos ouvidos nesses tempos de decomposição. Não é apenas porque um estilo representa o “espírito de uma época” que deve ser estimulado, especialmente em sala de aula.

A questão de Schiller é menos cultural e mais filosófica. Isso acontece porque o efeito estético pode domar o ímpeto da natureza e suscitar a atividade da razão, através de um refinamento sistemático do gosto. Um refinamento desse tipo faz com que os indivíduos saltem de nível no vídeo game da evolução e deixem de desejar porque sentem e passem a sentir porque agem.

Você deve estar pensando que esse tal de Schiller é um elitista safado e talvez seja isso mesmo. Mas sua filosofia mostra que a educação é muito mais do que um treinamento para o mercado de trabalho ou uma absorção de valores culturais. Quando alguém entra em uma sala de aula e consegue fazer com que uma turma possa ouvir Body and Soul gravada por Coleman Halkins, se entender a sutileza de um poema de Jorge Fernandes ou com se encantar com um quadro de Navarro algo de substancial acontece no horizonte daquelas almas. As fronteiras de seu entendimento e de seu mundo se ampliam e elas se tornam pessoas mais capazes de exercer sua própria liberdade. Essa alquimia é o que dá sentido a educação, sem ela nossas salas de aula se tornam casulos estéreis, secos de vida e de esperança.


Um Comentário para “Schiller & a cultura estética”


  1. ola professor o site do senhor esta muito bom!

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2007 ® Pablo Capistrano

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