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  • Pablo Capistrano
  • 31 de agosto de 2010, as 12h12

Em 1988 eu li, na primeira edição de Watchman em português, uma frase de Nietzsche que me deixou assombrado: “se você olhar para dentro do abismo, o abismo olhará para dentro de você”.

Achei essa frase “pau”, como dizem os amigos de Uriel (meu filho de quatorze anos). Durante muito tempo procurei uma aplicação para essa sabedoria nietzcheana na minha própria experiência pessoal. Flertei com o abismo aqui e acolá, de várias formas possíveis. Procurei encará-lo na literatura, na música, nas artes visuais, nas experiências religiosas. Cheguei mesmo a sorver o abismo no esforço especulativo da minha velha metafísica e dediquei alguns anos em um esforço sincero de equacioná-lo intelectualmente antes de ser tragado por ele.

Depois de tanto tempo, vou confessar a você, nunca imaginei que um dia eu fosse aplicar essa frase de Nietzsche ao futebol.

Ano passado, mas ou menos da altura do mês de Julho, o Fluminense do mestre Moacy Cirne era um time virtualmente rebaixado. Parecia mais um capítulo da história de horror a qual o time das laranjeiras havia sido submetido no final do século passado quando chegou ao limite do nada, na série C (flertando com o limbo do futebol – lugar já freqüentado recentemente pelo ABC ou pelo Santa Cruz, por exemplo, mas que não parecia combinar com a história de glamour e com as tradições futebolísticas do time de Chico Buarque e Nelson Rodrigues).

Lembro, naqueles tempos de melancolia tricolor, ter visto uma reportagem que me comoveu. Mário Lago, um dos mais atuantes intelectuais brasileiros, chorando no Globo Esporte, não pela queda do Fluminense para a série C, mas pela possibilidade de uma “virada de mesa” que salvaria o time das laranjeiras do vexame de descer até a última fronteira do futebol nacional. Mario Lago representava uma dignidade tricolor inviolável, uma compreensão dolorosa e lúcida da intensa e significativa pedagogia que o abismo pode proporcionar em nossas vidas e na história das instituições que amamos.

Ano passado, o Fluminense parecia estar fadado a repetir sua trágica experiência de submersão daqueles anos sombrios. Mas algo aconteceu. Uma força que se levanta de alguns dos pontos mais obscuros e pouco estudados do futebol, uma matéria escura, quase cosmológica, sem descrição exata, sem definição correta, sem medida certa empurrou o time de Fred e Conca em direção à superfície nos últimos momentos do campeonato de 2009.

No campeonato em que o Flamengo foi Hexacampeão, o Fluminense ganhou mais do que um título. A pedagogia do abismo parece surtir um efeito poderoso em alguns times de futebol. A possibilidade do rodopio descendente rumo ao limbo da bola fez o Fluminense ressurgir como um time competitivo no campeonato brasileiro.

Contratou Murici Ramalho (um especialista em pontos corridos) e apostou alto em jogadores como Deco, Belletti (que parece que ainda não disse ao que veio) e Fred. Hoje, para a alegria do mestre Moacy Cirne, o Fluminense mostrou como, no mundo do futebol, os ciclos são a medida das coisas e que o abismo pode ter uma poderosa função pedagógica.


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2007 ® Pablo Capistrano

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