08 set
Hay que endurecer, pero…
- 08 de setembro de 2010, as 16h16
A frase de Ernesto Chê Guevara foi uma das top ten dos anos 80. Quatro em cada cinco quartos de estudantes universitários daquela época (especialmente no setor de humanidades) tinham um pôster do Chê com essa frase pendurado atrás da porta.
Virou também motivo de risos a assertiva atribuída ao guerrilheiro. Lembro da “boyzada” lá na rua Bilac de Farias, entre 1984 e 1985 espalhando uma piada com alusões ao órgão sexual masculino e a supostas aventuras eróticas do herói comunista em prostíbulos cubanos (não me ocorre o inteiro teor da sacanagem, mas acho que tinha relações também com o charuto de Fidel).
O fato é que olhando a Argentina jogar com a Espanha no amistoso de hoje (sete de setembro) lembrei da frase de Chê e vi que os argentinos parecem ter aprendido bem a lição.
Depois da aventura tragicômica com Maradona os hermanos estão começando a acordar de seu sono dogmático e tentam usar a cabeça para montar um time competitivo como era o de Peckerman em 2006 (aquele time, mesmo sem o Messi foi a melhor Argentina que eu vi jogar nos últimos anos e só não seguiu mais longe no mundial por causa de uma dessas fatalidades de copa do mundo).
Batista (atual técnico e campeão mundial em 1986) não está com o time pronto. Zanetti, Gabriel Milito (que entraram na zaga e deram solidez e dureza na marcação portenha) estão com o prazo de validade futebolística vencendo, mesmo assim, a arrumação da seleção argentina com quatro homens atrás (com Renzi e de Michelis) e com um meio de campo que tem a pegada da marcação (Mascherano e Cambiasso) e da armação (Tevis foi deslocado para jogar perto dos volantes e fazer a ligação com um Messi mais próximo do gol) pode dar à seleção Argentina aquilo que o Chê aconselhava aos militantes comunistas nos tempos românticos da Sierra Maestra.
Endurecer, sem perder a ternura.
Se a Argentina aprendeu a lição guevarista, a Espanha, por sua vez, parece que desaprendeu.
Eu sei, eu sei… a turma ainda está de ressaca, chapada com a festa da vitória. Mas já está na hora da Espanha voltar a jogar seu jogo de sempre.
È curioso o que acontece com a Espanha. Não há mistério no jogo espanhol. Eles jogam um futebol transparente, absolutamente claro e qualquer garotinho sabe o que fazer para ganhar da Espanha: tomar a bola deles.
Ai é que está a dificuldade.
O que se sabe de cor e salteado em teoria é uma tarefa que beira a mais radical impossibilidade no mundo das quatro linhas: tomar a bola deles.
Os argentinos fizeram isso nos vinte primeiros minutos do jogo. A Espanha rodou atrás da bola e Messi, (jogando como o Messi da seleção Argentina e não como o do Barcelona) fez uma pintura de gol. Tevis deu o retoque em uma jogada individual do companheiro, com um passe milimétrico, que iria se repetir no gol de Higuaín.
Resultado: 2 x0 antes dos vinte minutos.
Para completar, aos 34 ainda do primeiro tempo, Pepe Reina resolve escorregar no gramado e deixa a bola no pé de Tevis para o terceiro gol.
Só aos 15 do segundo tempo é que o técnico espanhol resolve colocar Xavi no time (o mestre da estilística neobarroca da Espanha campeã) para chegar junto a Jesus Navas que massacrava um Renzi esgotado na linha de fundo.
Os argentinos não podem ser acusados de amolecer o jogo no segundo tempo, afinal era um amistoso, o mais importante dos jogos sem importância alguma. Um jogo para os analíticos e os obcecados pela estética do futebol, não para quem quer emoções fortes.
À Espanha coube chutar três bolas na trave e acertar uma aos 38 do segundo tempo, quando já não se esperava mais nada a não ser uma derrota honrosa para se lamentar. Foram poucos os momentos em que a Espanha conseguiu repetir sua fórmula mágica do mundial (a troca de passes certeiros em espaço reduzido).
Aos 45 do segundo tempo, para castigar os campeões do mundo com o placar mais clássico das goleadas (4 x1) Agueiro completando uma jogada que contou com a participação do D´Alessandro (um provável e infeliz reserva de Messi – a julgar pela substituição) fechou o jogo.
A Argentina de Batista está encontrando um lugar para Messi jogar, com alguns ajustes na retaguarda podemos estar vendo a gênese de um time com shape de campeão. Um time que tem as peças certas e que só precisa aprender a ajustar a engrenagem para encantar o mundo.
A lição básica Ernesto Chê Guevara já deu: tem que endurecer, sem perder a ternura com a bola.
