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  • Pablo Capistrano
  • 21 de setembro de 2010, as 12h12

LIVRO: Contra os chefes, contra as oligarquias – à Derek Nystrom e Kent Puckett.

AUTOR: (Entrevista com Richard Rorty)

EDITORA: DPeA

TRADUÇÃO: João Abreu.

 

Se você olhar para a segunda metade do século XX, especialmente os últimos anos, vai conseguir identificar alguns bons candidatos ao cânone do pensamento nesta banda ocidental da civilização. Um desses candidatos é Richard Rorty – autor de ao menos um livro essencial para a formação de qualquer filósofo: “A Filosofia e o Espelho da Natureza” (1979) – é um desses fortes candidatos.

Ele nasceu em Outubro de 1931 em uma Nova York em crise e cresceu na mesma época em que a geração beatnik fumava maconha e tocava bongô pelas ruas do Greenwitch Village, enquanto nos clubes de Jazz Charlie Parker e Dizzy Gillespie faziam sua revolução musical. Rorty, mantendo a fidelidade a postura insubordinada de seus companheiros de geração, protagonizou uma das viradas mais espetaculares da filosofia contemporânea.

Ele, que havia começado a carreira filosófica seguindo a cartilha dos analíticos anglo-americanos, acabou mudando de lado e partindo para o pragmatismo e, mais adiante, trazendo Heidegger para o campo de ação da filosofia norte americana. O preço pago foi seu deslocamento dos departamentos de filosofia. Ao ser perguntado sobre o cargo na universidade de Stanford, ele costumava a responder: “Professor de literatura comparada. Quando chega a hora de procurar emprego, sempre fico no obséquio dos professores de literatura”.

Bem… deixar o universo da filosofia analítica e migrar para o mundo de Heidegger é como vestir a camisa na Gang Alvinegra (Torcida organizada do ABC) no Youtube e depois ser flagrado em uma festa da Máfia (Torcida do América de Natal).

A disputa entre analíticos e continentais, protagonizada pelos devotos de Wittgenstein e de Heidegger (respectivamente) agitou o mundo filosófico por décadas. Rorty não se prestou a esse tipo de redução e transitou perfeitamente entre os dois mundos, vestindo a camisa das duas torcidas.

O livro publicado pela DPeA traz uma entrevista concedida a Derek Nystrom e Kent Puckett na qual Rorty fala, entre outras coisas sobre suas opções políticas. Às vezes a entrevista ganha um tom quase de confronto (não sei se por causa da tradução) como se estivéssemos, não diante de uma simples coleção de perguntas e respostas em tom jornalístico, mas sim um debate quase inquisitivo sobre as posições filosóficas de Rorty.

O objeto inicial da peleja são as críticas de Rorty em relação a Nova Esquerda. Para o pensador novayorquino, ao afastar-se da velha guarda marxista a esquerda norte americana acabou por voltar-se contra a América. Rorty sempre admirou posições de gente como Sidney Hook, Lionel Trilling e Irving Howe que publicavam na Partisan Review e que conseguiam, ao mesmo tempo, ser fervorosamente anti-comunistas sem perder sua filiação a um ideário de esquerda. É difícil pensar nisso a partir de nossa própria contingência brasileira.

Aqui, costumou-se a vincular de modo tão intenso em uma mesma feijoada teórica marxismo, anti-americanismo e esquerdismo que nossos intelectuais tem dificuldade em compreender como é possível manter um ideário de esquerda e ainda sim  não odiar nos norte americanos e tudo aquilo que a América representa.

Mas não é apenas essa a discordância de Rorty com os gurus da nova esquerda. Seu combate também tem a ver com as tendências multiculturalistas dos anos de 1960. Para resolver esse distúrbio, Rorty propõe um remédio nietzsheano. O foco não estaria na diferença de grupo. Não seria a “afrodescendência”, “ítalo-americanidade” ou mesmo a cultura “wasp (Withe Anglo-Saxon Protestant) a construir uma política da diferença cultural. Não seriamos mais livres por nos identificarmos como Judeus, Evangélicos, Mulçumanos, negros, índios ou o que quer que seja. A diferença radical se dá na liberdade particular de inventar a própria vida.

A identidade de grupo é uma mitologia familiar que pode ser trocada por uma mitologia pessoal. Ele diz na entrevista:

“A opressão de grupos é somente uma questão de selecionar um grupo de acordo com a posse de algum estigma inextirpável e, em seguida, humilhar, escravizar, etc., membros daquele grupo. O problema para os grupos estigmatizados não é conseguir que sua ‘cultura’ seja aceita, mas fazer com que os estigmatizadores parem de pensar que a falta de pênis, a pele negra e sei lá o que mais sejam coisas vergonhosas”.     

 Nesse ponto a leitura de Rorty bem que seria terapêutica para a esquerda brasileira a fim de que alguns de seus fantasmas conceituais pudessem ser exorcizados. A grande mensagem de uma leitura política do nosso tempo, nos moldes do que Rorty propaga pode ser sintetizada na sua palavra final sobre a atuação dos indivíduos no mundo político: “a esfera pública serve simplesmente para se assegurar a liberdade e a igualdade, enquanto a esfera privada é onde você realmente se diverte”.

Keep on the beat!


2 Comentários para “Contra os Chefes, Contra as oligarquias.”

  1. Substantivo Plural » Blog Archive » Contra os chefes, contra as oligarquias21/9/2010 às 14:29

    [...] aqui [...]


  2. Comprei esse livro do Rorty na SBPC, leitura ótima e fácil. Adorei o texto, é sempre um prazer passar por aqui! Sentimos falta de você na FARN.

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2007 ® Pablo Capistrano

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