28 set
Por uma gota de sangue
- 28 de setembro de 2010, as 14h14
No dia 23 de Janeiro de 1943, Stalingrado estava destroçada. Cercada por tropas nazistas, a cidade russa conhecia os piores momentos da sua história.
Muito se escreveu sobre a heróica resistência dos soviéticos no front oriental, e na batalha das mídias da guerra fria, Stalingrado só tinha rival para o desembarque aliado na Normandia no dia D. Para os velhos militantes do partido comunista (que eu aprendi a ouvir quando era criança na cozinha da casa da minha avó Aline) Stalingrado foi o começo do fim do horror nazista.
Controvérsias ideológicas à parte Stalingrado seria apenas mais um capítulo (ao mesmo tempo trágico e épico) de uma época sombria, se na noite do dia 23 de Janeiro de 1943, Duke Ellington não tivesse subido ao palco do Carnegie Hall para tocar aquela que seria a sua composição mais ambiciosa.
Black, Brown & Beige não era como as outras músicas de Jazz. Se Ellington havia sido ousado quando compôs a erudita “Reminiscing in tempo” e levado por essa ousadia bordoada dos puristas do swing, agora a turba de críticos teria motivo para esquartejá-lo e espalhar seus pedaços pelo delta do Mississipi.
Enquanto os soldados russos morriam em Stalingrado para tentar livrar o mundo da miséria ideológica do nazismo, Ellington convidava a fina flor da burguesia de Nova York para um concerto que visava arrecadar fundos para as vítimas da guerra na frente oriental. Poucos imaginavam o que iria sair da mente daquele homem obcecado pela perfeição musical.
Black, Brown & Beige não era uma composição típica do mudo do Swing. Quem foi ao Carnegie Hall naquela noite esperando bater os pés provavelmente voltou para casa decepcionado. Quebrando a barreira psicológica dos três minutos, Ellington apresentou ao público (que incluía a primeira dama norte americana, Eleonor Rosevelt) uma composição em três movimentos.
O primeiro se chamava Work Song, um longo lamento em modo de Blues retratando o sentimento dos escravos que trabalhavam nas plantações de algodão. Work Song toca no coração da música negra norte americana, ela aponta para a origem, para o fundamento dos sentimentos mobilizados a partir da terrível experiência da escravidão negra na América.
A tristeza das canções de trabalho que deram origem ao sentimento genuíno do Blues norte americano muda no segundo movimento da música. Em Come Sunday a suavidade da melodia evoca a paz e o alívio que amanhece quando Domingo chega e a luta injusta do trabalho escravo cede lugar a epifania santa da religião. O desejo de liberdade explode na mistura de canto e oração que deu origem ao Gospel e a Soul Music. No intervalo da semana de esforços e labutas, o negro norte americano encontrava Deus junto com a música, um intervalo onde a liberdade poderia edificar sua morada.
Por fim, no terceiro movimento (The Blues), a vida urbana surge como uma promessa de futuro, como a materialização de um mundo no qual a escravidão do trabalho possa ser superada pelo movimento de trens e carros a cortar o horizonte das cidades iluminadas. Precisamos ser livres, precisamos ser livres… era isso que Ellingon gritava no Carnegie Hall, naquela noite.
Em um mundo fraturado pelo racismo e marcado pela tragédia de uma guerra movida por uma ideologia que cindia a humanidade em níveis e que autorizava o genocídio como medida profilática de saúde pública, o grito de Ellington ecoava de uma America profunda e real, marcada pela ideologia segregacionista de “uma gota de sangue” e pela política racista do Jim Crow.
Esse era o grande paradoxo da América naqueles anos sombrios.
Do outro lado do oceano um jovem soldado do swing iria vivenciar esse paradoxo de um modo bem marcante. Dave Brubeck era filho de uma família de músicos brancos da Califórnia. Um dia quando cavalgava com o filho pelas zonas áridas do sudeste, o senhor Brubeck (pai de Dave) encontrou um negro pela estrada e mandou que ele abrisse a camisa e mostrasse o tronco para o filho. Dave viu o corpo do pobre homem marcado com ferro quente.
Era como se aquele fosse um sinal de ódio pela cor da pele, uma escarificação forçada, uma marca distintiva na carne da humanidade. O pai de Dave disse apontando para as marcas no corpo daquele homem: “isso não pode acontecer! isso não pode acontecer!”.
Talvez tenha sido por isso que Dave Brubeck alistou no exército e foi lutar na Europa contra o nazismo. Dave desembarcou na França três dias depois do dia D e rumou para se juntar ao 3º Exercito de George Patton. Um dia enquanto os soldados descansavam em um curto intervalo entre uma ação e outra, apareceu um piano em cima de um caminhão. Dave, que já tocava swing na America antes da guerra, foi chamado para distrair os companheiros.
Estava formada a Dave Brubeck´s Wolf Band que agregava músicos negros em brancos em um combate estético contra o Reich de Mil anos e sua ideologia racista. Quando o grupo voltou para casa, entrou em um refeitório do exército no qual pessoas eram classificadas e separadas em função da sua cor. Uma gota de sangue separava brancos, negros, latinos, indígenas. Todos segregados em seu próprio lar, separados pela mesma ideologia contra qual morriam em combate. Um dos músicos negros da banda se recusou a comer na cozinha e disse quase chorando: “depois de tudo que eu passei, no primeiro dia nos EUA eu não posso comer junto com vocês. Eu me pergunto por que passei por tudo aquilo?”.
Muito sangue foi derramando nas lutas da humanidade. Dos portões mitológicos de Tróia até a hecatombe humana de Stalingrado as guerras vitimaram isonomicamene heróis e covardes, santos e canalhas, criminosos e inocentes. Naquele tempo, em que o Jazz era uma arma estética contra os fantasmas de uma civilização alucinada pela ideologia da superioridade de um povo sobre outro, a maior luta ainda haveria de ser travada, dentro da própria America, terra dos livres, lar dos justos, marcada pela mancha social de uma simples gota de sangue.

