01 nov
A Constância do Impossível
- 01 de novembro de 2010, as 8h08
Sábado à noite o Machadão recebeu mais de dezesseis mil americanos.
Eu, meu filho Uriel, meu amigo Alex de Souza e sua filha Helena participamos daquela massa de gente que se apertou nas catracas do estádio, em busca de futebol.
Explicar como um time que está à beira do rebaixamento consegue lotar o Machadão, fechando completamente os anéis superiores do estádio em uma maré vermelha, é uma tarefa difícil.
É possível que você, amigo leitor, descrente do estranho poder narcótico do futebol, argumente que o ingresso estava metade do preço e que a diretoria, ciente da condição desfavorável do time, deixou que as mulheres entrassem sem pagar e de quebra ainda abriu os portões do estádio aos 22 do primeiro tempo.
Mas tudo isso é periférico.
Não basta apenas apelar para as facilidades financeiras.
Também não podemos nos fiar apenas na rivalidade contra o ABC (que fez sua festa de ascensão à segunda divisão uma semana antes) ou na virada heróica do América no jogo contra a Portuguesa, em São Paulo.
Existe uma força estranha, irracional e atávica que atua no inconsciente do torcedor e o move, mesmo em condições tão desfavoráveis, a peregrinar ao estádio para ver seu time jogar.
Mas vamos a dura pedagogia dos fatos (se é que existem fatos nesse mundo de interpretações)… nosso elenco esse ano é um dos piores que eu vi jogar no Machadão.
Não é preciso voltar aos primórdios do América Futebol Clube (tempo em que meu bisavô, João Capistrano vestia a camisa do mecão), para confirmar a falência do nosso elenco. Basta comparar esse elenco com o time que começou o campeonato brasileiro no ano passado. Não é preciso ir muito longe no tempo, lembremos de Somália, Sandro Hiroshi, Júlio Terceiro, Lúcio e, como não poderia deixar de ser, Souza.
Temos um elenco de série C. Um time sem nenhuma técnica, com um arremedo de tática e com um resto de raça nos momentos difíceis.
Por isso, não é difícil explicar um resultado como o do Sábado (Ipatinga 1 x 0 América).
O complexo, o inefável, o misterioso é entender esse amor. Compreender essa loucura, esse delírio que faz com que milhares de pessoas lotem um estádio para sofrer com seu time.
O América tem um débito para com seus torcedores. Há três anos nós esperamos um sinal, um indício de que o América pode voltar a tradição dos últimos anos e dar a torcida potiguar motivo para se orgulhar.
Mas a falta de títulos e a luta nos últimos campeonatos contra o rebaixamento para a série C esgota as forças da torcida e desconstrói nossa paciência, tão humana, demasiadamente humana.
Só sobrou para nós, pobres torcedores, essa inexpugnável confiança na constância do impossível. Essa estranha esperança na manutenção dos milagres. Essa inexplicável fé cega na predestinação divina da camisa alvirrubra.
Sobra-nos, no crepúsculo desse campeonato, a frase de Tertuliano que nos primórdios do cristianismo nos ensinava, lá da velha Cartago:
“creio, porque é absurdo”.
