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  • Pablo Capistrano
  • 07 de novembro de 2010, as 14h14

Para alguns o grande papel da arte é o de produzir revoluções no espírito dos homens. Jogar os sentidos para além, buscar, nas encruzilhadas das impressões, o espaço de onde o novo possa escorrer. Um lugar para que a sensibilidade possa construir, sob velhas formas, a novidade dos caminhos pouco percorridos, a emoção selvagem da liberdade humana e o deleite de se experimentar aquilo que não conhecemos.

Meus camaradas de roquenrrol me perdoem, mas não há musica mais revolucionária no século XX do que o Jazz. Não há, na história do Jazz, uma linha evolutiva, um caminho tedioso de repetição de antigas formas em direção a um ponto culminante. A história do Jazz não é teleológica, não se propõe a um fim, a um objetivo.

O que existe são rupturas revolucionárias que se sucedem na medida em que os velhos mestres são relidos e desconstruidos pelo vigor criativo de novos músicos. Nesse sentido, o Jazz é uma música completamente contra-canônica. Uma construção onde qualquer respeito reverencial pelo passado se torna sintoma de fracasso estético.

Foi com esse espírito que, no começo dos anos de 1940, o mundo viu nascer uma revolução musical na rua 139, na esquina da avenida 7 perto do coração selvagem de Nova York.
Tudo começou quando um sujeito chamado Charlie Parker saiu do Kansas e foi trabalhar em um lugar chamado Dan Wall´s Chilli House lavando pratos. Pouca gente sabia que aquele cara tímido no meio oeste norte americano era um gênio. Parker demorou um bocado até ter uma chance de subir em um palco da cidade de Nova York. Ele esperava o momento em que os músicos, cansados de tocar, resolvessem abrir um espaço nas suas intermináveis jans sesions para a audiência.

Uma noite, Parker conseguiu uma brecha para mostrar suas habilidades com o saxofone. Enquanto tocava uma música de Ray Noble chamada Cherokee o garoto do Kansas fez uma descoberta desconcertante.

Ele podia tocar qualquer nota que quisesse e traze-la para dentro do acorde certo. Ele podia libertar a melodia das estruturas rígidas do cânone musical que havia sido demarcado por Bach, no século XVII e poderia transformar essa subversão em um tipo novo de música, complexa e popular ao mesmo tempo.

 

A música de Parker não se baseava na melodia, mas na construção dos acordes. Era esse seu grande solo, sua evocação particular de Freddy Keppard, sua busca pelo o espaço vazio no meio da melodia para expandir o eu em uma digressão sonora que fazia a audiência flutuar.

“Eu me senti vivo. Eu podia voar” – disse uma vez sobre a experiência daquela noite.

A novidade da música de Parker rapidamente atravessou as esquinas do Harlem e foi parar no Milton´s Playhouse, uma casa de Jazz que abria nas segundas feiras para que qualquer músico que quisesse aparecer, subir no palco e fazer seu próprio som, longe das exigências da audiência e do swing comercial. Nesse dia não havia cachê para os músicos, nem havia exigência de se tocar uma ou outra composição da moda. Gente como Thelonius Monk, Dizzy Gillesppie e Charlie Parker iam até o Milton´s Playhouse para tocar em troca de um prato de comida ou umas doses de Whisky.

Naquele espaço livre de pressões comerciais Dizzy Gillesppie mudou para sempre a função do trompete sincopado em uma orquestra de Jazz. Experimentando uma progressão de acordes invertidos que se misturavam, substituindo as notas das melodias de músicas já conhecidas, descaracteriazando-as, produzindo uma profusão de novas leituras sobre velhos sucessos do Jazz, Dizzy (que em inglês significa: tapado, abobalhado, abestado) era quase um professor de teoria musical do grupo e dominava como poucos a arte de escrever notas e manipular os sons.

O Milton´s Playhouse das noites de segunda era um laboratório de solos, um imenso liquidificador de sonoridades, uma dessas usinas de criatividade que esbanjavam novidades e avanços musicais. Resumindo, o melhor para se estar em uma segunda à noite na Nova York do começo dos anos quarenta.

Ao lado de um Charlie Parker intuitivo e visceral, o cerebral Dizzy construiu uma das mais importantes duplas da história do Jazz e da música contemporânea. Estava nascendo o Be Bop, uma revolução por segundo, uma desconstrução quântica do mundo bem no núcleo atômico da música do século XX.

Durante todos os anos de 1940 o Be Bop foi gestado no underground musical novaiorqino como um culto, uma irmandade, uma antiga religião de mistérios iniciáticos ou uma confraria secreta. Curiosamente foi no dia 26 de Dezembro de 1945, onze semanas depois da rendição do Japão e da entrada de uma civilização traumatizada na era nuclear que Charlie Parker, o garoto que havia viajado para Nova York em busca da seu próprio som, gravou suas primeiras músicas pelo Savoy Records. Com ele, entraram no estúdio o baterista Max Rouch, Gurly Russell (contra baixo), Dizzy Gillesppie e um garoto de 19 anos chamado Miles Davis no trompete.

Foi como uma explosão atômica. Ninguém havia ouvido falar de Charlie Parker fora do circuito alternativo de Nova York e subitamente o mundo do Jazz foi devastado pelas ondas de choque da sua música.

“Quando ouvimos Charlie Parker, sentimos que a música tinha que seguir sua direção” foi o declarou Dizzy Gillesppie anos depois.

O Be Bop se tornou rapidamente a música de um tempo como aquele. Fora de compasso, arbitrário, caótico.

O Jazz nunca mais seria o mesmo.


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2007 ® Pablo Capistrano

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