24 nov
O Dever do Gênio
- 24 de novembro de 2010, as 13h13
No mundo do futebol os amistosos só se justificam em nome da arte, da ciência ou do dinheiro.
A arte da bola encanta quem tem sensibilidade para entender as dimensões estéticas e narrativas de uma partida. A ciência alimenta os que ganham a vida pensando o futebol, dentro ou fora de campo e o dinheiro… bem, o dinheiro…. deixa pra lá!
O fato é que no caso de um Brasil e Argentina, nem arte, nem ciência, nem só o dinheiro justificam um amistoso. Há uma certa mitologia que perpassa todo Brasil e Argentina.
No Sul-americano de 1936 – 1937 (primeiro torneio internacional a ser transmitido diretamente pelo rádio no país) Ary Barroso transmitia um Brasil e Argentina (nesse caso não era um amistoso) quando Jaú (jogador brasileiro) foi chutado pelo argentino Zozaya e deslocou a clavícula.
Como não havia médico na seleção naquele tempo, Ary Barroso emprestou sua gravata para que o jogador improvisasse uma tipóia e pudesse continuar o jogo. Como conseqüência desse insensato ato de paixão futebolística Barroso foi agredido pelos argentinos.
A transmissão radiofônica do quebra pau, junto com os gritos da torcida argentina que chamavam os jogadores brasileiros de “macaquitos” (fazendo referência a um apelido da época da guerra do Paraguai), segundo Marcos Guterman produziu uma onda de patriotismo no país típica das que antecipam as grandes conflagrações militares.
Os jogadores voltaram ao Rio e foram recebidos como se estivessem retornando de uma guerra.
Desde esse tempo Brasil e Argentina deixou de ser um simples amistoso, ao menos no imaginário dos brasileiros.
Hoje, quase um século depois dos acontecimentos daquele sul-americano, o mundo mudou e a relação dos jogadores também. A imagem de Messi e Ronaldinho Gaúcho depois da partida da semana passada, mostra que os tempos épicos e românticos do nacionalismo futebolístico deram uma trégua. O mundo cosmopolita do futebol contemporâneo torna as coisas mais tênues, mais sinuosas do que naqueles anos do entre guerras.
Mesmo assim um Brasil e Argentina tem seus méritos.
Se partimos para o lado da especulação pedagógica uma das lições que podemos extrair dessa derrota (para quem não sabe perdemos por um a zero depois de cinco anos sem derrotas para os “hermanos”) é que nunca podemos subestimar a genialidade de um sujeito como Messi.
Se no Barcelona, Messi é servido por um time exuberante que tem o luxo de contar com Iniesta, Xavi, Daniel Alves, na seleção argentina a coisa muda de figura.
Messi é o centro do time. È ele quem articula o time como um dia o velho Maradona articulou. No primeiro tempo do jogo Messi anunciou o motivo de estar ali e deu ao Brasil a senha para sua missão junto a seleção dos “hermanos”.
Aos 37 começou uma jogada, armou a continuidade do lance e concluiu com um chute que estourou no canto direito da trave de Victor. Ali estava a iniciativa do lance, a continuidade criativa do pensamento futebolístico e o desejo atávico do gol. Tudo resumido em um único jogador.
A falha de Douglas no final do jogo (não vamos crucificar o rapaz, afinal, falhar diante de Messi é quase um dever para aqueles que amam o bom futebol) deixou a mostra o que nós brasileiros tememos: Messi está entendendo o seu papel na seleção Argentina.
Se Batista lhe der a colher de chá de armar um time minimamente coerente (coisa que Maradona não conseguiu) podemos estar presenciando o nascimento de mais um mito do futebol. Uma ameaça real para a copa de 2014 e, de quebra, um augúrio sinistro para o futuro de nossa seleção. Se levarmos em conta os velhos fantasmas que assolam o Maracanã.
Messi nos ensinou algo sobre o dever do gênio nessa partida. Se você parar pra pensar vai ver que o dever do gênio não é apenas de encantar, porque o futebol não é só arte (apesar de dever ser, fundamentalmente, nada mais do que isso). O dever do gênio é o de entender, no jogo, o seu papel e de, na execução de sua tarefa, abrir o espaço para o inusitado, para o imprevisível, para o não ainda pensado.
Assim, depois de anos de mitologias patrióticas e romances épicos de velhas cavalarias nacionalistas, embalados pelo verbo de um Galvão Bueno, as razões de ser de um amistoso entre Brasil e Argentina giram em torno de alguma arte, muita ciência e… bem, o dinheiro… ah o bom e velho dinheiro…