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  • Pablo Capistrano
  • 30 de novembro de 2010, as 7h07

O crepúsculo tem uma inerência melancólica que não se encontra em outros cantos do dia.

Nesse Sábado, minha tarde entrou para o cânone das mais tristes tardes dessa vida estranha.

Triste como a tarde da morte da minha avó, da despedida de alguns velhos amores, da separação de meus pais.

Triste como aquelas tardes de melancolia irrestrita em que a cor do céu no arrear do sol anuncia as sombras de nossa própria humanidade, de nossos limites, de nossas fragilidades.

O América cumpriu sua sina, anunciada e ensaiada a duas temporadas e caiu para a Série C diante de trinta mil torcedores que lotaram o Machadão movidos pelo princípio da esperança, propedêutica de toda fé.

Houve um tempo em que no Brasil haviam muitos Américas.

 Muitos gloriosos. Vermelhos como o América do Rio, verdes e pretos como o América Mineiro.

Nosso América potiguar, durante pelo menos uma década (entre 1997 e 2006 em idas e vindas) carregou, para o júbilo da memória nacional, as glórias dos velhos Américas.

(Ainda bem que esse ano o América de Minas subiu para a série A para levar adiante a tradição desse nome).

Por isso, apesar da tristeza, é importante lembrar das velhas utopias e do fortalecimento em nossos corações do princípio da esperança, descrito por Ernst Bloch.

È no ambiente do deserto, na experiência do nada, nos espaços secos da designificação que a esperança, esse alimento das paixões dos homens, essa lufada de força que amanhece nos abismos de nossa vida de torcedor de futebol, nos impulsiona  para o futuro. Em busca de um lugar para se estar.

Lembrando essa esperança dedico esse poema de João Cabral de Melo Neto (torcedor do América de Recife) a meu filho, Uriel, que partilhou comigo a pedagogia dolorosa daquela tarde triste de Sábado.

O torcedor do América F. C.

 

O desabito de vencer

não cria o calo da vitória;

não dá à vitória o fio cego

nem lhe cansa as molas nervosas.

Guarda-a sem mofo: coisa fresca,

pele sensível, núbil, nova, 

ácida a língua, qual Cajá,

salto do sol no Cais da Aurora.


Um Comentário para “O Torcedor do América F. C.”

  1. ANDRELUCIO RIBEIRO6/12/2010 às 17:48

    Show, Pablo!
    Não pudemos sentir o gosto àrduo de mais uma vitória milagrosa, mas pudemos sentir o quanto amamos o América!
    Não aceito o rebaixamento, mas suporto. Não admito tantos erros, mas supero. Não acredito em fadas, mas espero sempre por um milagre. Não controlo meu relógio, mas não desperdiço tempo. Não sonho acordado, mas ando sonhando. Não sei muita coisa, mas muita coisa eu vi. Não sei do futuro, mas lembrarei do passado. Não aprendí tudo, mas estou disposto a aprender. Não sei se me amam, mas sei que amo o clube que escolhi, aquele que me faz sentir, me faz chorar, me faz sorrir.

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2007 ® Pablo Capistrano

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