Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

  • Pablo Capistrano
  • 28 de dezembro de 2010, as 13h13

O que move a discussão entre crentes e ateus que parece ter voltado a agenda intelectual na última década é uma incompreensão do uso do termo “Deus”.

Tanto ateus quanto crentes falam de coisas diferentes quando usam o termo “Deus”. Isso acontece porque o significado de um termo não está dissociado dos contextos de seu uso.

É comum encontrar cientistas ateus que tratam o termo “Deus” como um conceito. Essa ideia parece ser reforçada por setores da teologia ocidental.

De acordo com esse uso de “Deus”, os crentes estariam diante de um conceito vazio, que pode ser posto no lugar daquilo que nós ainda não entendemos. Uma espécie de curinga lingüístico para justificar todos os fenômenos ainda não explicados pela ciência.

Quando há um fenômeno misterioso, desconhecido, ainda não explicado pela razão cientifica, o homem atribuiria a influência de “Deus” ou dos “Deuses”.

Nesse sentido, os crentes procurariam Deus para “ter respostas” sobre os mistérios do mundo e da vida, para explicar a morte e a consciência. Para entender o mundo.

Essa é uma visão ingênua da linguagem e da religião e denota uma dificuldade muito curiosa por tanto por parte de cientistas como Richard Dawkins (um intelectual anacrônico do século XIX) como de muitos teológos cristãos em compreender o uso do termo “Deus” por parte dos crentes.

Parece que essa dificuldade reside justamente em não conseguir pensar o mundo fora das suas próprias categorias intelectuais.

Cientistas como Dawkins talvez pensem que o que move o homem é a curiosidade intelectual (movida por alguma pressão de natureza evolucionária) e a busca de respostas porque eles mesmos são movidos por esse tipo de impulso.

Para a maioria das pessoas de fé “Deus” não é um conceito.

È uma palavra de poder, um pharmakon.

Jaques Derria escreveu um livro belíssimo (A Farmácia de Platão) para nos fazer pensar sobre o sentido profundo da palavra pharmakon.

Um pharmakon encanta e cura, mas também pode enlouquecer e matar.

Para um crente, Deus não é um conceito que explica o mundo e oferece respostas. Deus é uma ferramenta, que pode libertar, curar e encantar, ou mesmo oprimir, enlouquecer e matar.

Não faz sentido negar a realidade de uma ferramenta que está sendo usada.

Quando um ateu diz a um crente: “Deus não existe”; o crente entende “essa ferramenta que produz essa experiência em sua consciência não existe”. Mas como é possível acreditar nisso se a ferramenta funciona? Negar a realidade dessa ferramenta é um absurdo para o crente.

Quando um crente diz para um ateu: “Deus existe” o ateu entende “o criador do universo, o princípio racional que subjaz toda a realidade” (ou qualquer outra ideia semelhante) “é suficiente e necessário para explicar a natureza”.

Negar essa afirmativa, para alguns cientistas, parece ser muito razoável.

Assim se forma uma das discussões mais estéreis da história das dicotomias ocidentais. Uma conversa de mudos com cegos.

O grande problema da discussão entre crentes e ateus, a grande inutilidade desse debate é que ambos parecem não conseguir saltar de suas próprias fronteiras existenciais, intelectuais e lingüísticas e não conseguem perceber que os fenômenos humanos podem ser mais complexos do que aqueles que eles mesmos experimentam.

Joseph Campbell contou em uma entrevista  que um ocidental assistiu uma cerimônia xintoísta.

Depois de analisar cuidadosamente todo o ritual em busca de uma extração do “conceito de Deus” que estaria subjacente aquele fenômeno cultural deu o braço a torcer e foi falar com o mestre que guiava o ritual.

“Eu não entendo seu conceito de Deus. Qual é sua teologia? Qual é a ideologia da sua religião?”

O mestre Xintô teria respondido: “nós não temos teologia, nós não temos ideologia. Nós dançamos”.


2 Comentários para “Ateus e crentes no pântano da linguagem”

  1. marco antonio29/3/2011 às 19:50

    Não concordo quando vc chama Dawkins.

    O que vejo é um homem..que tenta mostrar que a liberdade de expressão deve existir..os crentes adoram criticar tudo que não diz respeito ao universo deles…mas quando os outros criticam o universo deles eles não gostam Dawkins e chistopher hitchens ( muita mais) senta o pau neles…Adoro isto..mas concordo que eles tem o direito de acreditarem no que quiserem..mesmo em uma ilusão..rsss marco antonio

  2. Pablo Capistrano30/3/2011 às 7:21

    Marco, Dawkins tem todo o direito de pensar e escrever o que quiser sobre qualquer tema. Da mesma maneira que qualquer religioso tem o direito de pensar e escrever o que quiser sobre qualquer religião. Esse é um princípio fundamental de liberdade.

    Agora não podemos achar que o direito de expressão suprime o direito a crítica. Não é porque Dawkins tem direito de escrever o que quiser que ele não pode ser criticado por isso. Acho que o foco de Dawkins não é o de defender a liberdade de expressão. Ele na verdade retoma uma discussão do século XIX, que frutificou a partir do iluminismo de Voltaire e cujo o grande representante na Inglaterra foi Bertrand Russell.

    Eu crítico Dawkins como crítico os fundamentalistas cristãos porque penso que ambos estão equivocados no que diz respeito a linguagem e os fenômenos religiosos.
    Para mim a questão que Dawkins põe está equivocada.

Deixe seu comentário

2007 ® Pablo Capistrano

dz3