04 jan
Meditação Judaica
- 04 de janeiro de 2011, as 7h07
LIVRO: Meditação Judaica: um guia prático.
AUTOR: Aryeh Kaplan
EDITORA: Ágora.
TRADUÇÃO: Mônica Magnami Monte
Uma das ideias mais interessantes de Carl Jung é a de que a religião pode ser um mecanismo de defesa psíquica contra a experiência religiosa. Isso parece paradoxal, mas é algo que Gershom Schollem também apontou em um livro chamado A Cabala e seu simbolismo.
Schollem defende a ideia de que as doutrinas religiosas são mecanismos de reação contra a experiência mística que é potencialmente desestabilizadora.
Jung parecia saber disso também. A experiência do místico é subversiva e arriscada, tanto para sua psique quanto para as estruturas cristalizadas do poder social.
Por isso é sempre interessante entender a natureza do conflito entre a força espontânea e popular dos movimentos místicos que produzem rupturas no dogma cristalizado a partir da experiência particular de seus líderes e a tentativa das instituições religiosas de enquadrar essa mesma experiência em uma doutrina que explique, dê sentido, justifique o poder de uma ordem qualquer.
No mundo Judaico isso também ocorreu na medida em que o judaísmo, (ou “os judaísmos” como alguns costumam a falar hoje) reduziu-se a um conjunto de regras morais ou a uma simples ideologia política. Por isso eu não titubeei em comprar o livro do Rabi Aryeh Kaplan sobre meditação judaica.
Gosto muito do texto de Kaplan. A cópia do Sepher Torah que eu guardo em casa tem assinatura da sua tradução para o inglês e seu texto tem a qualidade de não ser vítima do detalhamento neurótico que acometem algumas obras acadêmicas.
O mais interessante desse texto de Kaplan é que ele procura justamente encontrar aquilo que o judaísmo moderno parece ter esquecido: as formas místicas de meditação, as ferramentas, dentro da tradição judaica que podem ser utilizadas para se buscar o mesmo tipo de estado contemplativo que hindus e budistas conhecem tão bem.
Talvez, um judeu observante mais conservador, ou mesmo um crente cristão bitolado na doutrina que recebe em sua igreja possa encontrar no livro do Rabi Kaplan uma certa “tendência ecumênica” perigosa.
Mas o que Kaplan procura não é introduzir algo de “externo”, importado do Yoga ou das correntes budistas no meio das práticas judaicas ou cristãs. Ele procura aprofundar-se nas práticas próprias do judaísmo e mostrar que ali também existem as mesmas técnicas de meditação presentes nas tradições orientais.
“Embora a maioria dos autores não desconheça os elementos místicos existentes no judaísmo, eles normalmente se limitam a discutir a Cabala ou os mestres chassídicos. A maioria dos livros sobre meditação enfatiza as práticas orientais e, algumas vezes, a meditação cristã, mas a meditação judaica é completamente ignorada. Para estudiosos da meditação, essa é uma grave omissão. (…) além do mais, uma vez que o judaísmo é uma religião oriental que migrou para o ocidente, suas práticas de meditação podem muito bem ser aquelas de maior relevância para o homem ocidental”.
É muito curioso perceber que as técnicas de meditação presentes no judaísmo são as mesmas técnicas usadas pelos seguidores de Shiva ou pelos muitos budismos espalhados pelo mundo. É irônico ver, por exemplo, o Padre Marcelo Rossi na TV ensinando as senhoras católicas tipos variados de meditação mântrica, muito semelhantes as utilizadas pelos discípulos de Maharish e ao mesmo tempo ouvir um discurso de um padre reclamando do sincretismo afrobrasileiro em Salvador (como eu escutei em uma missa no ano passado).
Uma vez um aluno evangélico, que praticava Yoga comigo, me disse: “professor, eu não posso mais continuar com as práticas”. Quando eu perguntei porquê ele me respondeu: “o Yoga vai contra meus princípios cristãos”.
O rapaz, que já havia treinado Kung Fu (uma expressão do Tai Chi taoísta) havia caído na besteira de dizer ao pastor o que estava fazendo nas manhãs de sexta feira e foi “devidamente repreendido”.
As doutrinas religiosas muitas vezes servem para isso. Conformar as experiências dos buscadores de Deus em fôrmas seguras que não comprometam o poder social dos líderes religiosos. A mesma luz que pode iluminar também costuma a cegar e o mesmo poder que liberta o sujeito pode escravizá-lo e oprimi-lo.
Talvez tenha sido por isso que os editores do Novo Testamento tenham cortado o Evangelho de Tomé do Cânone Bíblico. Ali, um Jesus profundamente místico e insubordinadamente gnóstico responde a pergunta de seus discípulos sobre quando virá o reino de Deus: “Ele não surgirá de uma maneira fácil de ver. As pessoas não dirão ‘olhem, ele está aqui’ ou ‘olhem, ele está ali’. Na verdade o reino de Deus já se encontra espalhado pela Terra, vocês é que não conseguem ver”.
Quem medita sabe disso.