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  • Pablo Capistrano
  • 05 de janeiro de 2011, as 7h07

Na noite de 29 de Julho de 1946, Charlie Parker chegou tão chapado a um estúdio de gravações em Los Angeles que teve de tomar seis comprimidos de fenobarbital para gravar alguns trechos de “Bebop” e “Lover man”.

Bird tocou uma nota torturada depois da outra, como se uma angústia daquelas que a gente pode partir na ponta da faca fosse a verdadeira senhora daquela gravação.

Naquele estúdio, Bird expôs um traço diferente de sua genialidade musical. Aquela liberdade fundamental que posicionou o Be Bop além dos modelos comerciais de música popular e abriu o caminho para que o Jazz flertasse com suas próprias fronteiras estéticas, ainda estava lá. Mas havia um traço maior de romantismo, como se, de uma hora para outra, Mozart tivesse começado a tocar como Chopin.

Atrás de cada nota, mesmo naquelas em que a exuberância do seu sax nervoso se impunha, aparece firme, resoluta e inexpugnável a velha dor do blues. O antigo sentimento de lamento do homem pelas suas circunstâncias. Pela fatalidade de sua própria vida.

Não demoraria dez anos para que Bird estivesse morto.

Em Março de 1954 Charlie Parker estava tocando no Oasis Club em Hollywood. Ele estava limpo de heroína. Não usava opiaceos injetáveis já há algum tempo, mas estava inchado de tanto abusar do álcool, um substituto usual para ex-junkies que tentavam largar o vício. Foi lá que ele recebeu um telegrama de sua esposa que estava em Nova York. Pree, a filhinha de dois anos do casal havia morrido de pneumonia. Quando Bird recebeu a notícia enviou quatro telegramas para a esposa.

No primeiro ele dizia: “minha querida a morte da minha filha me surpreendeu mais do que a você. Não encerre os procedimentos para o enterro até eu chegar. Serei o primeiro a entrar em nossa capela. Perdoe-me por não estar ao seu lado no hospital. Seu marido, C.P.”

Pouco tempo depois, Chan, a mulher do músico, ainda em estado de choque com a notícia da morte da criança recebe um segundo telegrama: “Minha querida, pelo amor de Deus. Mantenha-se calma. C.P.”

Depois mais outro: “Chan, socorro! C.P.”

E um último: “Minha filha está morta. Eu sei. Estarei ai o mais rápido possível. Meu nome é Bird. É muito bom estar aqui. As pessoas tem sido muito boas comigo. Eu irei imediatamente. Fique calma. Deixe que eu seja o primeiro a chegar perto de você. Sou seu marido. Com amor C. P.”

Depois da morte da filha Bird sucumbiu.

Tentou se matar. Brigou com a esposa e abandonou o próprio lar. Passou a andar a noite toda no Metrô por semanas e semanas, em pânico, acordado, como se não quisesse abrir o canal para seus próprios sonhos.

Uma noite foi até o clube aonde Dizzy Gillespie, seu antigo parceiro, estava tocando. Bird estava em pânico, desorientado, sujo, completamente surtado. Agarrou Gillespie pelo colarinho e ficava repetindo sem parar: “porque você não me salva Diz? Porque não me salva?”.

É muito sintomático que em Lover Man, Charlie Parker, que nunca escondeu seu debito com Colleman Hawkins, tenha flertado com a música de Lester Young formando uma sonoridade mais melancólica, mais feminina. Uma sonoridade preenchida por aquelas sentimentalidades trágicas que alimentam os corações dos românticos.

É muito usual uma certa leitura do artista como alguém que sacrifica a própria vida em nome de sua arte. Lord Byron, Van Gogh, Tarkovisky, Dylan Thomas. Esse padrão se repete na história da arte e nos lembra a mitologia do herói. Daquele que se despedaça em nome da reintegração da humanidade. Daquele que se entrega deliberadamente a alguma tarefa coletiva que nos salve, que nos liberte.

Charlie Parker já era um herói para os músicos de Jazz quando, no dia 09 de Março de 1955 ao invés de pegar um trem para Boston (onde iria se apresentar) parou na 5º Avenida, no apartamento da baronesa Pannonica de  Koenigswarter, uma mulher que pertencia a aristocracia européia, ligada a família Rothschild e que era uma assídua freqüentadora dos clubes de Jazz em Nova York.

Parker estava doente. A baronesa chamou um médico que indicou internação para o músico. Mas Bird não quis ir. Ele já havia se entregado.

No dia 12 de Março de 1955, Charlie Parker, que ainda estava no apartamento da baronesa, ligou a TV para assistir ao programa de Jimy Dorsey. Viu um malabarista se apresentar, começou a rir e a tossir. Sufocou com a secreção e tombou na sala de estar. Morreu de pneumonia, como sua filha.

Uma pneumonia agravada por uma cirrose hepática que já o acompanhava a algum tempo.

Escrevendo sobre ele, Ralph Elison teria dito: “seus momentos mais trágicos foram privados de significância humana”.

Charlie Parker foi enterrado no Kansas, sua terra natal. No velório, sua mãe proibiu que se tocasse Jazz. Talvez ela achasse que a verdadeira assassina de seu filho tenha sido a música que tanto o amou.

Quando os médicos foram fazer a autopsia do corpo de Bird, estimaram que aquele homem, inchado pelo álcool, destroçado por anos de abuso de heroína, consumido pela dor da morte e pela fragmentação de sua própria personalidade, um homem para o qual a vida foi pesada demais, tinha por volta de 55 anos.

O irônico é que ele só tinha 34.

Acredito que exista realmente um certo sadismo no público. Se você me perguntar se eu preferiria que Bird nunca tivesse existido e que o homem Charlie Parker fosse um pacato pai de família do Kansas, vivendo uma vida ordeira e feliz, eu  responderia com toda sinceridade: “não”.

Entre um medíocre feliz e um gênio atormentado, o público, sedento de arte e transcendência, em um vampirismo atávico da criatividade alheia, escolhe sempre canonizar os mártires, os sofredores, os heróis trágicos, os gênios que se entregam ao furor de sua arte e pagam com sua vida ou com sua sanidade mental o preço dessa aventura.

Por isso, alguns dias depois que a notícia da morte de Charlie Parker correu o país nas manchetes de jornal, frases apareceram pichadas em diversos muros e prédios do Greenwich Village.

“Bird lives”

Finalmente o Jazz tinha seu santo redentor.


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2007 ® Pablo Capistrano

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