14 jan
O preço da arte
- 14 de janeiro de 2011, as 7h07
Não vou me atrever a fazer um prognóstico sobre o ano do Flamengo em 2011. Em 2009, quando anunciaram a contratação de Adriano e Petikovic, eu praguejei. “Um bebum e um jogador quase aposentado! Estamos reiados!”
Resultado: o time foi campeão brasileiro.
Por isso não vou fazer prognósticos em relação ao “negócio Ronaldinho Gaúcho”. Se eu fosse sobreviver dos meus prognósticos em política e futebol estaria, com certeza, passando fome.
Por isso eu prefiro entender o presente a partir do passado e não fazer apostas para o futuro.
Deixando os detalhes sórdidos das negociações financeiras um pouco de lado, ainda bem que Ronaldinho voltou ao Brasil. Um futebol como o dele não combina com a Itália. Os italianos não compreendem o sentido fundamental de um meia-atacante artístico como Ronaldinho.
Toda tradição futebolística da Itália parece ter sido construída a partir de uma concepção defensiva de jogo na qual o meio do campo não é um lugar para ser ultrapassado, como uma agulha de anestesia antes de um canal. Ligações diretas entre defesa e ataque, piques pelas laterais e contra ataques oportunistas fizeram com que o futebol italiano seja o que ele é.
Ronaldinho não combina com isso.
O futebol da Itália, a despeito de Platini, Zidane e Maradona já terem aportado naqueles campos, não tem o senso poético necessário para tratar Ronaldinho como um dia, o Barcelona o tratou.
O paradoxal é que parece que nos acostumamos a importar para o Brasil esse mesmo modelo de futebol e por carência de bons camisas 10 em nosso campeonato nacional acabamos acostumando os gramados do Brasil a um tipo de futebol que não faz jus a nossa própria tradição.
No Flamengo, o que se especula é que ele vá jogar como um meia-atacante, caindo pela esquerda. Difícil saber se a equipe rubro negra pode dar suporte ao futebol de Ronaldinho. O mais fácil é pensar que, nessa terra devastada de craques que se tornou o futebol no Brasil, Ronaldinho dê o diferencial ao time, como fez em com um Milan envelhecido e desgastado no primeiro semestre de 2010.
A questão dos apelos sexuais e etílicos, que tornam o Rio de Janeiro o melhor lugar do mundo para se amar e se morrer, sempre será um tópico para alimentar o vácuo de conteúdo que constantemente toma conta das casas de fofocas disfarçadas de empresas de comunicação.
Particularmente eu não acho que o peso sombrio da noite seja fatal para Ronaldinho Gaúcho. Jogadores como Ronaldo Fenômeno ou Adriano, que fizeram sua história com grandes quantidades de potência muscular, jogando um futebol força onde a velocidade parecia ser mais importante do que a técnica, sofrem mais intensamente a influência sinistra de Hécate (que costuma arrasar sem cerimônia a potência vital e a testosterona de muitos jogadores).
Um jogador com habilidade pode superar condições físicas desfavoráveis. Esse é um dos axiomas do futebol. Por isso eu não temo a noite do Rio.
Ronaldinho é um desses caras que, no mundo da bola, vive no limite entre a arte e o esporte. Ele não tem a disciplina apolínea dos grandes desportistas, nem a paixão épica dos velhos jogadores de tempos passados ou mesmo a garra furiosa dos guerreiros movidos por aquela força primitiva dos que tratam estádios de futebol como campos de batalha.
Mesmo assim, ele mobiliza a esperança de um torcedor nostálgico como eu, que já beira os quarenta e aprendeu a amar o futebol vendo o Flamengo de 1981 jogar.
Ronaldinho vai chegar na Gávea para vestir a camisa dez, que antes de ser a mitológica camisa do futebol brasileiro, é a camisa sagrada que um dia Zico vestiu. Não é preciso pedir muito a ele.
Não queremos a fidelidade de um craque-torcedor, nem também exigir dele o pantim de um cristão novo do futebol, que advoga paixão sem convicção pelo time que paga mais.
Basta um pouco de alegria, um pedaço qualquer de arte e um sentido mínimo de empatia com a imensa massa rubro negra para que Ronaldinho dê a torcida do Flamengo aquilo que ela merece.
O resto, a história resolve.
3 Comentários para “O preço da arte”
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Tomara que dê certo. Também fico receoso quando o Fla vem cheio de contratações astronômicas (vide o trio Sávio, Romário e Edmundo). A esperança é que a coisa ande mais ou menos como em 2009. E dá-lhe mengão!
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Doutor Pablo, a arte está ligada diretamente ao sucesso de qualquer homem, seja a arte de escrever, pintar, estudar, etc…
O senhor é a pessoa mais indicada para falar sobre isto, mas como o assunto é futebol, e futebol envolve gente, eu gosto de opinar. Eu lamento que o retorno de Ronnie seja no período de interdição do Maracanã, ali é o coliseum do futebol brasileiro, onde um gladiador despreparado pode ter seu dia de Spartacus, ou um gladiador no àpice de sua forma pode viver um dia de Imperador. Realmente, concordo que Ronaldinho tem muita técnica e habilidade, coisas que Ronaldo não tem com a mesma proporção. O Fenômeno era explosão muscular e habilidade, Ronaldinho é técnica, habilidade e artista. Ele se preocupa mais com a plástica da jogada, não faz gol feio, não dá passe simples, sempre penteia a bola antes de passar. Ronaldinho necessita do sangue carioca, do calor afro-brasileiro. Não tenho a pretensão de dizer que o Flamengo será um belo time, mas terá um belo time (com ressalva para a zaga esquerda). Se os salários não atrasarem, o grupo pode comprar a briga por Ronaldinho, assim como foi no Corinthians com o xará dele. Mas se os salários atrasarem, não há cultura nem nível de instrução suficiente aos jogadores brasileiros para que um ato de boicote seja evitado. Os atletas brasileiros ficam enciumados por muito pouco, demitem treinadores, criam desculpas absurdas, queimas jovens promessas e criam culpados ,com muita frequência. Acho que o sucesso de Ronnie estará ligado ao ambiente que o povo carioca vai estar vivendo. Afinal, todos os torcedores dos outros times ainda não o detestam, muito pela arte que ele já demonstrou. Se ele permanecer sendo um artista, comprometido com a torcida do mengão, para mim já será ótimo. Como flamenguista, não quero um Tevez nem um Ronaldo, quero um Ronaldinho humilde e encorpado a razão de ser rubro-negro. Num país onde um garoto com 06 anos se posiciona na sociedade dizendo que é torcedor de tal time, mesmo sem nem saber o que vai ser quando crescer, identificação é o que peço ao gaúcho. O resto, a arte resolve! …E esquecerei os treinos com inhaca, as fotos nas boates, a barriguinha grande, os dentes enormes, o cabelo exagerado, o salário, o Maraca,…
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Pois é André e o pior é que quem vai ter que gerenciar as fogueiras das vaidades no Flamengo é o Vanderley Luxemburgo (lembra de 1995, com o Romário voltando da Europa?) não sei, essa questão da relação entre os jogadores, suas dignidades e e suas vaidades é o que realmente me preocupa.