26 jan
Jenny Pirata
- 26 de janeiro de 2011, as 7h07
Gosto de Brecht porque a poesia dele é de uma clareza pedagógica insuperável.
Segue mais uma tentativa de tradução minha com a supervisão do professor Dirceu Zimmer.Â
Jenny Pirata
(ou sonhos de uma camareira)
Bertold Brecht
Meus senhores, hoje me veem limpando copos
E fazendo camas para os outros
Agradecendo prontamente os trocados que recebo
E os senhores veem meus trapos nesse hotel vagabundo
E os senhores não sabem com quem estão falando
Mas, qualquer noite dessas, haverá gritos no porto
E se perguntará: que gritaria é essa?
E os senhores me verão sorrindo junto aos meus copos
E perguntarão: do que ela está rindo?
E um navio de oito velas
Com cinquenta canhões
Estará ancorado no cais.
E dirão: vá! Limpe teus copos, fofinha!
E me lançaram uns centavos
E as camas serão arrumadas, e os centavos embolsados
(Camas que não serão usadas nessa noite)
E os senhores ainda não tem ideia de quem eu sou.
Mas, qualquer noite dessas, haverá estrondos no porto.
E se perguntará: que barulho é esse?
E me verão atrás da janela, observando
E dirão: por que esse sorriso malicioso?
E o navio de oito velas
Com cinquenta canhões
Bombardeará a cidade
Meus senhores, provavelmente suas risadas cessarão
Quando os muros começarem a cair
E quando a cidade for posta rente ao chão
Restando apenas esse hotel vagabundo,
poupado de qualquer arranhão
E se perguntará: quem, de tão especial, mora aqui?
E essa noite, se ouvirá gritaria ao redor do hotel.
E se perguntará: por que esse hotel foi poupado?
E me verão sair, de manhã, pela porta
E perguntarão: ela morava ai?
E o navio de oito velas
Com cinquenta canhões
Tremulará suas bandeiras nos mastros
E desembarcarão as centenas
E pisarão nas sombras
E arrastarão cada pessoa que encontrarem,
atrás de cada porta que vasculharem
E os acorrentarão e os trarão até mim
E perguntarão: a quem devemos matar?
E nesse meio dia, haverá calmaria no porto
Enquanto se pergunta: quem tem que morrer?
E então me ouviram dizer:
Todos!
E quando as cabeças começarem a rolar eu direi:
Eita!
E o navio de oito velas
Com cinquenta canhões
Desaparecerá comigo no horizonte.
Die Seeräuber-jenny
Bertold Brecht
Meine Herren, heute sehen Sie mich Gläser abwaschen
Und ich mache das Bett für jeden
Und Sie geben mir einen Penny und ich bedanke mich schnell
Und Sie sehen meine Lumpen und dies lumpige Hotel
Uns Sie wissen nicht, mit wem Sie redden
Aber eines Abends wird ein Geschrei am Hafen
Und man fragt: was ist das für ein Geschrei?
Und man wird mich lächeln sehn bein meinen Gläsern
Und man sagt: was lächelt die dabei?
Und ein Schiff mit acht Segeln
Und mit fünfzig Kanonen
wird liegen am Kai
Und man sagt: Geh, wisch deine Gläser, mein Kind!
Und man reicht mit den Penny hin
Und der Penny wird genommen, und das Bett wird gemacht
(Es wird keiner mehr drin schlafen in dieser nacht)
Und Sie wissen immer noch nicht, wer ich bin
Aber eines Abends wird ein Getös sein am Hafen
Und man fragt: was ist das für ein Getös?
Und man wird mich stehen sehen hintern Fenster
Und man Sagt: was lächelt die so bös?
Und das Schiff mit acht Segeln
Und mit fünfzig Kanonen
wird besschissen die Stadt
Meine Herren, da wird wohl Ihr Lachen aufhörn
Denn die Mauern werden fallen hin
Und die Stadt wird gemacht dem Erdboden gleich
Nur ein lumpiges Hotel wird verschont von Jedem Streich
Und man fragt: Wer wohnt Besonderer darin?
Und dieser Nacht wird ein Geschrei um das Hotel sein
Und man fragt: warum wird das Hotel verschont?
Und man wird mich sehen treten aus der Tür gen Morgen
Und man sagt: die hat darin gewohnt?
Und das Schiff mit acht Segeln
Und mit fünfzig Kanonen
wird beflaggen den Mast
Und es warden kommen hundert gen Mittag an Land
Und werden in den Schatten treten
Und fangen einen jeglichen aus jeglicher Tür
Und legen ihn in Ketten und bringen vor mir
Und fragen: welchen sollen wir töten?
Und an diesem Mittag wird es Still sein am Hafen
Wenn man fragt, wer wohl sterben muss
Und dann werden sie mich sagen hören: Alle!
Und wenn dann der Kopf fällt, sag ich: Hoppla!
Und das Schiff mit acht Segeln
Und mit fünfzig Kanonen
wird entschwinden mit mir
Para fechar uma versão de Hildergard Knef, em ritmo de jazz do texto de Brecht
5 Comentários para “Jenny Pirata”
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Pablo, lendo a sua tradução do poema e ouvindo a música, acho que o Chico Buarque deu uma chupada neste poema e também nesta música para compor Geni e o Zepelim. rs! Um abraço! Valeu!
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è possivel Antonio,
a própria ideia de fazer uma Opera do Malandro parece que tem muita ligação com o estilo de Brecht de usar uma tradição popular como a música de Cabaré do começo do século XX (Kurt Weil foi um gênio em trabalhar com esse tipo de música e dar uma formatação erudita) e usar isso como uma parodia da opera burguesa do século XIX.
Chico devia estar com Brecht na cabeça, como muitos da geração dele -
Quanta revolta! Quanta violência contêm esses versos!
Acho que quando escreveu isso o autor estava “carregado”, ou será uma caracteristica de sua poesia?
Me lembrou outra música de Chico, uma que a personagem, que parece ser a mulher de seu algoz, sonha que os empregados (e ela) humilhados por esse sujeito se unem para mata-lo.
Um forte abraço. -
Oi Hugo, acho que não é o Brecht que está “carregado” mas a personagem.
Na verdade não se trata de uma poesia lirica, na qual o poeta mostra sua própria voz ou seus próprios sentimentos, mas é parte de um drama onde a personagem expressa seus próprios sentimentos.Acho que ela simboliza ao mesmo tempo a tragédia e a fantasia dos oprimidos.
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Gostei muito da tradução.
Como sempre, insigne.
A paz,
Desse amigo,
Vander Góis.