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  • Pablo Capistrano
  • 02 de fevereiro de 2011, as 6h06

Livro: Derrida, um egípcio: o problema da pirâmide judia.

Autor: Peter Sloterdijk.

Tradução: Evando Nascimento

Editora: Estação Liberdade

Ano: 2009.

 

 

Ando viciado nos livros de Peter Slotederdijk, bem como nos programas da TV alemã em que ele aparece (vistos pelo youtube).

Sloterdijk é um dos grandes estilistas da filosofia. Um cara que consegue trazer muito daquele ensaismo fluído de um Montaigne para a língua de Hegel, Kant e Heidegger (capazes de produzir parágrafos absolutamente intrincados e nauseantes, especialmente para os que vivem de traduções do alemão para o português).

Confesso que ainda não me debrucei sobre seus trabalhos filosóficos mais intensos (Como: Ira e Tempo, Esferas, Crítica da Razão Cínica), mas pelo andar dos ensaios que vem sendo traduzidos e publicados pela Estação Liberdade creio que não vá me decepcionar.

No seu livro-elegia sobre o filósofo Jaques Derrida, Sloterdijk faz um movimento ousado. Ele procura se aproximar da obra daquele que é considerado por alguns o mais importante pensador da filosofia continental desde Heidegger, justamente se afastando de seu texto e se aproximando dos textos daqueles com os quais Derrida poderia dialogar.

Assim ele aponta em pouco mais de 76 páginas (na edição brasileira) para gente como Niklas Luhmann, Freud, Thomas Mann, Franz Borkenau, Régis Debray, Boris Groys e, como não poderia deixar de ser, Hegel.

Sete autores para um Derrida.

Talvez não seja o suficiente para dar conta da obra desse filosofo judeu que, vindo do norte da áfrica aportou em uma França tomada pelos fantasmas do antisemitismo e construiu uma das mais espantosas visões sobre os arquivos culturais do ocidente. Derrida achava, pouco antes de morrer, que elementos de sua obra seriam prontamente absorvidos pela memória cultural do ocidente, mas que ele, como pessoa e autor, seria imediatamente esquecido.

A questão é que, para Sloterdijk, Derrida só poderia aparecer, tal qual um Hegel dos dias de hoje, em um tempo de calmaria filosófica, em uma época em que todos os dias parecem reproduzir o tedioso “Domingo que se segue a história”.

Ambos, tanto Hegel quanto Derrida, começaram a pensar a partir do esgotamento das últimas possibilidades de uma certa gramática filosófica que teria marcado as gerações anteriores. Hegel, a partir do esgotamento da metafísica clássica (posta à deriva por Kant) e Derrida, a partir do esgotamento da chamada “virada lingüística” exaurida pelas obras de Heidegger e Wittgenstein no século XX.

Sloterdijk levanta a tese de que Derrida teria sido “profetizado” por Thomas Mann no livro “José e seus irmãos”. Curiosamente Mann parece ter mirado em Freud quando escreveu esse livro, mas na verdade acertado em Derrida. Um judeu, inserido na corte do faraó, interpreta os sonhos do império. Um forasteiro de origem judia que chega para decifrar os sonhos do Faraó tem ligações muito claras com um pensador que vem das margens da civilização ocidental e que chega ao centro lógico do poder cultural europeu para decifrar seus sinais.

Derrida é o hetero (por favor não leve esse termo para a conotação sexual, apesar de eu ter falado de Freud, ok?), o outro, o estranho, o estrangeiro. Um egípcio entre os judeus, um judeu entre os egípcios.

Como havia pensado Franz Borkenau, que antecipou com seu livro The Totalitarian Enemy (Londres,1940) em dez anos a obra de Hannah Arendt, as civilizações não são endógenas (como imaginou Oswald Spengler). Não são mônadas construídas por “vivencias primitivas”, mas sim redes, teias, que se formam a partir de cadeias de semelhanças e diferenças. Se pensarmos na antinomia da morte (a certeza que todos temos de que vamos morrer aliada incompreensível estranheza desse fato) podemos imaginar a história das civilizações humanas como a de redes de imortalidade se confrontando com mundos de imanência.

Muito louco isso, não é?

Civilizações com as dos indus e egípcios seriam “civilizações de imortalidade” que teriam gastado muita energia psico-cultural no esforço de vencer a morte. Judeus e gregos, por sua vez teriam aceitado a morte e por isso lançado seus esforços na conquista da terra e na invenção da política.

Derrida, que buscava sempre escapar dos riscos da identificação, seria o elemento que transita entre essas diversas redes de civilizações, dançando sempre em meio a antinomia da morte como alguém que formata cenários e constrói a diferenciação, a heteronomia.

Derrida sabia que, se um pensador toma uma decisão é imediatamente acossado pela terrível sensação de injustiça que recai contra a opção rejeitada. Decidir, no campo da filosofia, é ser pego pelo peso de uma armadilha que captura o pensador. Era contra essa armadilha que a desconstrução de Derrida lutava e foi com as armas de sua estranheza que ele conseguiu escapar dela.

Sloterdijk completa seu ensaio com uma imagem genial para quem gosta das pelejas filosóficas: Derrida contra Hegel. O derradeiro Faraó da metafísica, psicanalizado pelo seu último José.

No final do livro o pensador alemão dá um depoimento comovente: “Jamais esquecerei o momento em que Raimund Fellinger, meu editor na Suhrkamp, me indagou durante a visita à Feira de Frankfurt, em Outubro de 2004: ‘você sabe que Derrida morreu?’ Eu não sabia. Tive a impressão de ver uma cortina cair diante de mim. De repente, o alarido do saguão onde a feira acontecia tinha passado para outro mundo. Estava sozinho com o nome do defunto, sozinho com um apelo à fidelidade e com a sensação de que o mundo tinha subitamente se tornado mais pesado e injusto, sozinho com o sentimento de gratidão pelo que esse homem nos havia demonstrado.”

Pois é amigo velho, os filósofos também choram.


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2007 ® Pablo Capistrano

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