Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

  • Pablo Capistrano
  • 14 de fevereiro de 2011, as 6h06

Tem gente que considera Amit Goswami um picareta. Na maioria das vezes isso se dá pelo fato dele ter aparecido naquele filme “Quem somos nós?” que populariza e em certa medida distorce, alguns conceitos da mecânica quântica.

Na verdade não há nenhum indício de picaretagem nas ideias de Goswami, ao menos se você as tomar a partir de um ponto de vista filosófico.

De certo modo isso só é possível se você deixar de lado as impressões causadas pelos filmes e documentários populares sobre psicologia quântica e outras diluições do mercado de auto ajuda e mergulhar na leitura de seus textos.

No livro O Universo Autoconsciente Goswami empreende um movimento intelectual que faz muito sentido para a tradição filosófica ocidental. Talvez você não concorde comigo se for um dos assinantes daquilo que Karl Popper chamou de “materialismo promissório”.

O “materialismo promissório” é uma espécie de petição de princípios usada por diversos intelectuais acadêmicos, cientistas e livres pensadores baseada na premissa de que, em princípio, não é possível nenhuma prova que contradiga o realismo de Aristóteles. Falando em linguagem de gente normal: nenhum indício que questione o fato de que toda a realidade é material, objetiva e passível de ser explicada pelas leis da física clássica e da relatividade geral pode ser levado à sério.

A tese de Goswami ataca justamente esse materialismo promissório. Sua ideia fundamental é a de que boa parte dos paradoxos e impasses conceituais trazidos para o centro da discussão científica pela física de partículas acontece justamente porque a maioria dos cientistas confronta os dados da física quântica a partir de um ponto de vista materialista. Ou seja, quando nós observamos a realidade subatômica a partir de uma crença metafísica materialista (que diz que tudo o que existe são partículas de matéria interagindo entre si através de forças físicas segundo certas leis da mecânica de Newton ou da relatividade de Einstein) surgem os paradoxos, os conflitos, as aparentes incongruências, os absurdos e as estranhezas que fizeram com que Niels Bohr afirmasse: “os que não ficaram chocados quando tomam conhecimento da teoria quântica possivelmente não a compreenderam”.

As propriedades quânticas nos mostram dados aparentemente absurdos como por exemplo: (a) um objeto quântico pode estar no mesmo instante em mais de um lugar; (b) não há como afirmar que um objeto quântico (um elétron por exemplo) se manifeste na realidade do espaço-tempo até que a observação seja completada; (c) um objeto quântico deixa de existir aqui (em um lugar) e passa existir ali (outro lugar) sem que tenha atravessado o espaço entre os dois pontos; (d) um objeto quântico que se manifesta por nossa observação pode influenciar um objeto gêmeo correlato independente da distância.

Tudo isso pode pirar o cabeção do senso comum, bem como causar repulsa a cientistas que não sabem que estão interpretando os dados de suas experiências a partir de um ponto de vista metafísico (Sim, lamento informar mais o realismo materialista é uma crença metafísica como outra qualquer). A ideia de que o universo existe independente de algo que o perceba, ou que há um universo material, objetivo, que funciona independente da consciência, satisfaz bastante nosso senso comum e as percepções de nosso dia a dia, derivadas de nosso estado de vigília, mas se baseia em pressupostos interpretativos tão metafísicos quanto aqueles que sustentam que não existe matéria, ou que há uma realidade espiritual paralela ao mundo material.

Para alguns pode parecer loucura pensar de outra forma, mas Goswami mostra que do ponto de vista filosófico se interpretarmos os dados da física quântica tomando como ponto de vista uma outra crença metafísica (o idealismo monista, por exemplo) os paradoxos se dissolvem.

Assumir uma postura idealista não é novidade. O Vedanta (um sistema milenar de filosofia Indu) já assumia a noção de que o mundo material é uma construção de uma superconsciência. Platão, na antiguidade grega, já defendia a noção de que a realidade fundamental do cosmos não é material, mas sim ideal. O bispo Berkeley, ridicularizado pelos materialistas promissórios, também defendia um tipo de idealismo monista, trezentos anos atrás.

O que diferencia a tese de Goswami das outras teses filosóficas é que ela toma como base a física de partículas. Talvez por isso o trabalho dele incomode mais. Quando cientistas, usando ferramentas da ciência, questionam a crença no materialismo promissório, as reações são mais acaloradas.

Imaginar que o mundo pode não ser como nós pensamos que ele é sempre produz um misto de desconforto e excitação. Especialmente quando certas crenças, mesmo que autorizadas por modelos de interpretação que se alimentam de dados científicos, se tornam oficiais (como parece ser o caso do realismo de Aristóteles para a moderna Física ocidental).

Para filósofos e poetas escandalizar-se com teses como a de Goswami não parece ser uma necessidade. Emily Dickinson poetizou uma vez: “eu existo na possibilidade”. Do mesmo modo muitos pensadores ocidentais demonstraram, de Kant a Heidegger, que o mundo é uma construção da mente ou da linguagem dos homens.

Uma história Zen nos ajuda a entender isso.

Dois monges observavam uma bandeira a se mover no vento. Um deles diz: “a bandeira está se movendo”. O outro olha e retruca: “não. Quem se move é o vento”. Diante do impasse resolvem procurar um mestre que lhes dá a solução para o conflito: “A bandeira não se move. O vento não se move. A mente de vocês é que se move”.


4 Comentários para “O universo Autoconsciente”


  1. Olá Pablo.

    É meu caro a questão é por ai. Os materialistas de plantão não podem nem sequer imaginar que a realidade seja algo como um produto da interação. O ponto crucial da física quantica, e que deixa todos os materilistas sem chão é que ela nega a existência do mundo de forma absoluta. Tem um livro de introdução à fisica quantica escrito por dois japoneses que lembro o nome agora (inclusive emprestei o livro e não a quem)que esplica isso de forma bem simples e decisiva: para o pensamento cartesiano-newtoniano, se eu tenho um lago e vou pescar, o fato de eu não pegar nehum peixe nõ importa, pois os peixes existem de fato. Para a mecânica quântica é como se os peixes estivessem diluídos na água e só passa a existir peixe a partir do momento que este ou estes mordem a isca.
    Ou seja, o mundo não existe de forma absoluta, maspor uma interação. Deixe claro que o fato de falarmos em peixe – algo material – não pode ser usado para argumentar em defesa da materialidade do mundo, apenas usou-se estes artificios por não poder exemplicar algo do suposto plano interno da matéria de forma macroscópica. Digo isso porque intelectuais que parecem não ver um palmo de diante do nariz – como por exemplo Bunge, Sokal e outros, de quem trato na minha dissertação de mestrado – usam estes tais artificios como indicios de impossibilidade de argumentações contra o materialismo.
    Mas é isso esa mudança de mentalidade não para agora vai ser preciso um tempo para acontecer.

  2. Pablo Capistrano23/2/2011 às 12:49

    Muito legal Adaécio essa ideia do peixe diluido na água. O que eu acho interessante é como as ideias de Goswami são conhecidas pela turma da filosofia, desde o Vedanta indiano passando pelo idealismo alemão e pela fenomenologia. Acho que o desafio é pensar uma ciência em bases dististas das que Aristoteles cristalizou com sua metafísica e Descartes/Galileu com suas metodologias.

    Estou com sua dissertação na agulha para ler.
    Essa semana voltamos ao trabalho no IFRN estou meio cheio de coisas, acho que vou ler no carnaval, mas estou bem curioso.

    um abração aqui dos ventos litorâneos para os misterios assombrosos do sertão! (já estás em Caicó?)

  3. JOSIAS PENAFORTE12/7/2011 às 13:48

    prezado Pablo, boa tarde!
    Gostaria de saber o título de um livro que vi somente a capa (não estou te transformando em advinho), e que aborda os conceitos fundamentais da mecânica quântica. No livro o autor(desconheço), principia abordando a mec. quantica, como uma teoria de possibilidades e leva o leitor a imaginar um lago com um peixe “dissolvido” nele e a possibilidade de apanhar o peixe. Vi este livro por volta de 1992 ou 1993. Se puderes me ajudar…
    Atenciosamente,
    Josias Penaforte

  4. Pablo Capistrano13/7/2011 às 9:24

    Oi Josias, rapaz, eu realmente não tenho ideia, pelas caracteristicas que você descreveu não consegui identificar.

Deixe seu comentário

2007 ® Pablo Capistrano

dz3