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  • Pablo Capistrano
  • 22 de fevereiro de 2011, as 7h07

Um dos problemas clássicos do estudo da consciência foi aquele levantado por Kant nas suas críticas e posteriormente enfrentado por Fichte e Hegel.

Como posso saber como as coisas são em si mesmas, se sempre que eu me posiciono diante das coisas minha consciência atua sobre elas emprestando-lhes uma forma determinada?

Uma das saídas para o problema é negar que exista qualquer coisa chamada de “consciência”. Materialistas eliminativos tentam esse movimento.

Caso apenas exista o cérebro e seus processos físicos, não se poria o problema levantado por Kant, porque simplesmente não existiria uma consciência para dar forma as coisas, mas uma coisa (o cérebro) que em sua interação com outras coisas nos oferece uma certa configuração da realidade. Estaríamos em um mundo de coisas, faríamos parte do Em-si e não seriamos observadores privilegiados da natureza mas apenas uma parte dela, como qualquer outra parte.

Qual a vantagem disso?

Se você tira a consciência da jogada aparentemente resolve o problema, mas cria outros problemas mais graves: (1) como uma coisa pode construir uma articulação entre as outras coisas e formar uma visão sistemática do universo, sem que essa coisa seja ontologicamente diferente das outras coisas? (2) como o cérebro pode estudar a si mesmo?

A primeira questão é ontológica. Ela diz respeito ao problema de saber se o universo é uma construção do cérebro humano ou se de algum modo o universo pode ser encontrado em sua totalidade em certos pontos de si mesmo. O cérebro humano seria uma parte do universo que contém um esquema do universo como um todo.

A segunda questão é epistêmica. Ela diz respeito ao problema de saber como um cérebro pode estudar um outro cérebro, tendo em vista que, nesse caso, ele se torna sujeito e objeto do próprio estudo. Isso exigiria uma teoria do conhecimento fundamentada em outras bases, que não sejam as bases tradicionais da separação sujeito objeto que serviram para edificar, entre outras coisas, a ciência moderna.

É como se tentássemos olhar para dentro e para fora da janela de nosso apartamento ao mesmo tempo.

A primeira questão mostra que, se não existe nada que seja consciência, mas apenas processos físicos no cérebro e o cérebro não é nada mais do que uma coisa como outras coisas naturais, apenas com propriedades distintas, então a distinção entre sujeito e objeto não tem fundamentação ontológica. O monismo materialista nos leva a um mundo de coisas e em um mundo de coisas é preciso que as coisas explicantes (nós) possam explicar como conseguimos explicar aquilo que explicamos e porque as outras coisas explicadas (o resto do mundo) não conseguem fazer o mesmo. A neurociência está prometendo explicar isso, mas por enquanto estamos só na expectativa.

O problema é que, de uma maneira ou de outra, vamos ter que pensar em uma diferenciação, uma distinção do cérebro-humano em relação ao resto das coisas, ou então aceitar a deliciosa ideia do Vedanta indiano de que todo o universo é também, em potencialmente consciente.

A segunda questão mostra que se o cérebro-humano explica o mundo quando funciona, deve existir um tipo de funcionamento particular do cérebro-humano que explique o seu próprio funcionamento, posto que nesse caso não se explica o mundo, mas se explica o processo por meio do qual se explica o mundo.

O engraçado é que se você trocar nesse texto a palavra Cérebro, por Consciência, então teremos o mesmo efeito.

Eliminar a consciência e trocá-la pelo cérebro não é uma estratégia inteligente para enfrentar o problema de Kant. Os problemas continuam os mesmos.

Qual então a vantagem disso?


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2007 ® Pablo Capistrano

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