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  • Pablo Capistrano
  • 09 de março de 2011, as 11h11

Ano passado (2010), nas quartas de final da liga dos campeões, o Arsenal veio até o Camp Nou para enfrentar o Barcelona. Eu não vi o jogo porque na hora do jogo estava dando aula em Santa Cruz, mas confesso que senti os tremores de terra, lá no Trairi, que indicavam que algo de extraordinário estava acontecendo no plano astral do futebol.
Era Lionel Messi metendo quatro gols no time de Arsene Wenger e levando o Barça a mais uma semifinal da liga dos campeões. Naquela temporada o time do Barcelona seria barrado pela Inter de Milão, em uma das retrancas mais bem montadas que eu já vi nessa minha humilde carreira de torcedor de futebol.

Agora, quase um ano depois, o Barcelona reencontra o Arsenal em Camp Nou e vence mais uma vez. Muita gente chiou porque o juiz, esse amaldiçoado dos gramados da vida, acabou atrapalhando o jogo, após uma expulsão suspeita de Van Persie, atacante do Arsenal e de um pênalti polêmico que deu o terceiro gol ao Barcelona.

Mesmo assim, apesar de todas as polêmicas com a arbitragem, eu ainda me pergunto: porque será que tanta gente, mesmo sem nenhuma gota de sangue catalão correndo nas veias, gosta tanto do Barcelona?

Não deve ser pelo fato do Barça ter se tornado, durante os anos sombrios do franquismo espanhol, o time da resistência popular contra o governo de Francisco Franco (torcedor do Real Madri). Conversando com Carlos, um conhecido espanhol, torcedor do Sporting Gijón, descobri que o torcedor espanhol, além de seus times de coração na maioria das vezes escolhe entre o Real e o Barcelona conforme suas preferencias políticas. Geralmente, segundo me disse Carlos, a direita vai de Real enquanto a esquerda espanhola vai de Barça. Não é uma questão meramente de militante ideológico, mas uma simpatia que se monta a partir da grande ruptura ocorrida na Espanha durante a guerra civil que devastou o país nos anos de 1930 do século passado.

Mas, mesmo os ambidestros (que são de direita quando todo mundo é de esquerda e viram canhotos quando a direta anda em alta), mesmo quem não tem a mínima ideia de quem danado foi Francisco Fraco ou do que danado foi a guerra civil espanhola, ainda sim tem bons motivos para amar o Barcelona.

Não apenas porque esse time guarda na sua linha três entre os três maiores jogadores do mundo (Messi, Xavi, Iniesta). Não apenas porque assistir uma partida com um Lionel Messi inspirado nos ajuda a superar a mediocridade da vida com doses pouco usuais de beleza futebolística. Não é apenas porque foi no Barcelona, que a escola de Linus Michel e de Johannes Cruyff encontrou abrigo, quando a laranja mecânica holandesa de 1974 perdeu a copa para a Alemanha de Franz Beckenbauer. Não é simplesmente porque o time catalão nos ofereceu a medula espinhal da seleção espanhola que ganhou a copa de 2010.

Amamos o Barça porque ele é uma forma de pensamento.

Um pensamento que envolve um futebol ofensivo, barroco, que usa o meio de campo não como um local para se reduzir o espaço do oponente, mas para criar o próprio espaço do jogo. O Barça abre o jogo, torna, na expansão das possibilidades das jogadas, uma partida de futebol um drama imprevisível, épico, sublime.
Não há nenhum grande mistério no Barcelona. Seu estilo é translucido. Tão evidente que irrita. A posse da bola, o trabalho paciente de seus jogadores de meio campo, a busca absoluta por encontrar o caminho perfeito para que a bola entre no gol.

O Barcelona não é um time que chuta muito de fora da área. Na maioria das vezes Messi joga por dentro, nas costas dos volantes e atua algumas vezes mais parecido com um ponta de lança em um 433 daqueles bem clássicos. Mas ele também é o coringa que ativa Villa, Daniel Alves, ou mesmo Iniesta e Xavi que também podem ocupar seu lugar e fazer o que ele faz, transformando-o provisoriamente em um centro avante marcador de gols.
Essa troca de jogadores do meio para frente é o ajuste fino que poucos times têm condições de fazer. Messi, Xavi e Iniesta, tem a mesma afinidade dos grandes músicos de Jazz. Eles foram preparados para entender o futebol a partir de uma ideologia particular, de um modo de pensar que é a cara do Barcelona.

Não é impossível derrotá-los. A Inter de Mourinho, ano passado, com uma solidez defensiva absoluta, conseguiu suportar a pressão dos catalães em Camp Nou e bloqueou o caminho do Barça em direção a final da Liga dos Campeões. O Arsenal tentou fazer o mesmo e talvez tivesse conseguido se o juiz não tivesse expulsado Van Persie. Quem vai saber?

O fato é que mesmo diante dessas incógnitas, amamos o Barça porque ele nos faz pensar em um tempo do futebol que não existe mais. Um tempo em que jogar uma partida não era apenas um modo de encher o rabo de euros. Um tempo em que haviam ideologias, paixões, crenças, concepções de mundo e de arte, que podiam fazer de um jogo, algo mais do que simples paliativo para o tédio dos dias. Um tempo que nós, brasileiros, infelizmente já nos acostumamos a esquecer.


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2007 ® Pablo Capistrano

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