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  • Pablo Capistrano
  • 11 de março de 2011, as 8h08

 

Existe, no interior de todo artista, um conflito que envolve seu desejo puro de seguir a autenticidade de sua arte e a dívida que se tem com seus mestres. Alguns grandes artistas derrapam nesse conflito. Não conseguem equilibrar a força interior de sua criatividade com a figura onipresente dos seus pais estéticos. Existem então, algumas estratégias, alguns mecanismos de defesa estética para que os artistas mais criativos possam sobreviver ao contato com os velhos mestres, os antigos gênios, os pais poéticos e musicais que os contaminaram com a doença sem cura da paixão pela arte que executam.

Quando Charlie Parker morreu, o Jazz vivia uma crise de mercado. Benny Goodman, o primeiro grande pop star da América, rei branco do swing, havia abandonado o Jazz e passou a ganhar a vida tocando música erudita e fazendo arranjos para cinema. Louis Armstrong e Duke Ellington viviam no vermelho, em estado pré-falimentar. Dizzy Gilesppie, apesar de todo reconhecimento crítico que o be bop havia conseguido, não conseguia emplacar seu estilo no gosto do público médio norte americano.

Havia uma ameaça de morte por inanição. Um espectro que se transfigura em casas de Jazz fechando em todo o país e no avanço de novos estilos como o Soul, R&B, Rock sobre o espaço de mercado que antes era das bandas de swing.

Em 1952 Charlie Parker e Dizzy Gillespie haviam ganho o prêmio da Down Beat Magazine. Haviam aparecido em rede nacional de Televisão e ao mesmo tempo já possuíam um exército de músicos que começavam a incorporar os elementos da revolução do Be Bop a sua própria prática musical. Ella Fritzgerald, contrariando os céticos que diziam ser impossível levar a estética bop para o mundo do canto, incorporou as inovações de Parker e Gillespie a seu repertório enquanto Bud Powell e John Lewis levavam o be bop para o piano e o xilofone.

Apresar disso a imagem dos músicos de Jazz estava fortemente ligada ao movimento beatnik que eclodia nas ruas de Greenwitch Village em Nova York e atravessava o país de costa a costa soprando os primeiros ventos da primavera hippie que iria tomar conta do mundo dez anos mais tarde. Os “comunistas do jazz” eram vistos como vagabundos, drogados e maltrapilhos, reforçando uma imagem estereotipada do negro norte americano que só alimentava a sanha racista dos adeptos das teorias eugênicas e segregacionistas.

A imagem de um Parker viciado e alcoólatra não era boa para os negócios do mercado fonográfico e se o Jazz quisesse retomar os nichos de audiência do tempo do swing tinha que se reinventar. De certo modo, tinha que manter a herança de Parker e ao mesmo tempo profanar sua tumba. Destroçar sua imagem. Lançá-la como um signo, uma pichação em uma esquina antiga do tempo marcada na memória cultural da humanidade. Foi então que apareceu um jovem trompetista nascido em uma família de classe média da zona rural de Saint Louis para começar a fazer o serviço sujo com o cadáver de Charlie Parker.

Miles Davis era filho de um dentista que também tinha uma fazenda. Aos 19 anos Davis veio para Nova York tocar com Bird e com Gill Evans. Mas logo todo mundo percebeu que aquele garoto da fazenda não tinha a virtuose de um Parker ou de um Gillespie. Sua música não era como a do Be Bop. Não era exuberante, não era efusiva, escandalosa e extrovertida como a regra do Jazz de Nova York no começo dos cinquenta.

Quando você toca com um mestre tem que aprender seu lugar. Um dos grandes riscos de qualquer artista quando encontra um gênio é ser destroçado por ele, tragado, engolido. Parker fez seu séquito de seguidores. Todos amantes apaixonados da sua música. Todos seguindo seus passos, aprisionados a seu estilo, orbitando em torno de seu fraseado e andando com ele pelos caminhos que ele mesmo havia traçado com sua própria mortalidade trágica, com sua própria fragilidade psicológica, com sua particular genialidade barroca.

Davis poderia se torar nessa brincadeira. Se ele tivesse optado por seguir Parker teria se tornando talvez mais um dos anônimos diluidores de seu som.

Mas isso não é Jazz. Isso não é a postura de um artista forte.

Diante da própria fragilidade Miles aprendeu que a melhor maneira de livrar-se da sombra de Bird e sobreviver a sua influência era profanar a sua imagem. Ser o seu oposto.
Assim, o jovem músico, que também se viciou em heroína, largou as drogas após um período de confinamento na fazenda de seus país em Saint Louis, pôs um smoking e partiu para reconstruir as estruturas do Jazz contemporâneo
Se o centro do Be Bop era a experiência pessoal, a inspiração particular do solista que construía sua música em trilhas selvagens e furiosas, picotando a linha melódica da música, o desafio que Miles se impôs foi o de reencontrar um centro de equilíbrio perdido entre o devaneio estético desse solista egocêntrico e a forte e disciplinada solidez melódica do grupo.

Miles tinha um trompete feminino e teve que criar um estilo onde poucas notas fossem tocadas, construindo um clima oposto ao da personalidade melódica do Be Bop. Se Bird era barroco, exuberante, rococó, Miles era clássico, comedido, exato, lírico, sem ser piegas, romântico, sem ser meloso. Sua doçura era só um meio de se chegar a uma intensidade e uma exatidão pouco vistas na história do Jazz. Uma intensidade ligada ao êxtase afetivo, a um tipo de pulsão erótica contida, que explodia por dentro, no universo privado da audiência, mergulhando o ouvido da plateia em um voyeurismo incontrolável. Suas composições surgiam como suas apresentações. Sempre bem vestido e elegante, mantendo um padrão de sobriedade e silêncio na audiência, Davis queria desconstruir a imagem dos músicos de Jazz drogados e sujos, criaturas de um submundo que não agradava ao mercado da música nem condizia com a dignidade do povo negro em uma sociedade racista com a norte americana dos anos cinquenta.

Seu lugar era outro, seu espaço era outro, seu papel bem diferente dos que vieram antes dele. Frio, intenso, profundo. Reconstruindo, em meio ao caos atômico daqueles anos, um lugar agradável para se estar.

Ao contrário das profecias fúnebres dos senhores do mercado, o Jazz ainda era muito jovem para morrer.


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2007 ® Pablo Capistrano

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