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  • Pablo Capistrano
  • 27 de março de 2011, as 6h06

 

Livro: Compreender Wittgenstein

Autor: Kai Buchholz

Editora: Vozes

Tradução: Vilmar Schneider

 

Mais difícil do que escrever uma tese de doutorado em filosofia é fazer um livro introdutório, que dê conta do pensamento de um filósofo em apenas 160 páginas.

Primeiro porque, traduzir filosofia em uma linguagem explicativa é muitas vezes mais difícil do que filosofar em intrincados termos técnicos. Depois porque o pensamento de um autor não é resultado de uma jornada em linha reta.

Muitas vezes o filósofo transmuta seu próprio pensamento e assume, em certas fases da sua vida, concepções muitas vezes opostas àquelas que havia tomado nos anos de juventude.

Muitas vezes os filósofos começam a traçar caminhos conceituais e subitamente mudam o curso desses caminhos. Às vezes eles desistem de certas opções, às vezes descobrem que estavam errados, às vezes simplesmente enchem o saco de certas insistências.

A aventura por trás da vida de um filósofo é, na maioria das vezes, a aventura de seu próprio pensamento e do modo como esse pensamento se transforma.

Quando a gente estuda a obra de um cara como Wittgenstein essa ruptura parece mais evidente. Isso acontece porque entre 1921 e 1953, por mais de trinta anos, Wittgenstein pensou, pensou, pensou, e registrou esses pensamentos em fichas, cadernos, pedaços de papel cuidadosamente guardados em caixas de sapato, em grandes manuscritos datilografados. Witgenstein trabalhou incessantemente em filosofia por vários anos de sua vida, mas não participou de congressos, não expos suas reflexões em simpósios internacionais, não publicou artigos em revistas, nem teve textos registrados em anais de eventos acadêmicos. Wittgenstein produziu sua filosofia para que ela fosse póstuma e a entregou a apenas alguns poucos alunos e colegas professores em conversas privadas.

Quando essa produção que havia ficado inédita por anos começou a ser publicada, é que uma dimensão mais exata do fio que liga o jovem escritor do Tractatus ao velho morador da universidade de Cambridge, morto na década de 1950.

Wittgenstein foi arquiteto amador, porteiro de hospital, jardineiro, militar da marinha austríaca durante a primeira guerra, professor de uma escola primária nos Alpes. Sua vida instigou tantas especulações quanto seu pensamento. Pouco tempo depois da sua morte, Bertrand Russell, seu antigo orientador, publicou um artigo na revista The Listener intitulado Philosophers and Idiots, onde divulgava um perfil de Wittgenstein como um gênio perturbado, incapaz de se adaptar as demandas da vida social. Em 1973, Willian Waren Bartley escreveu sobre seu homossexualismo, o que gerou uma discussão tão intensa quanto dispensável que levou gente a defender que o filósofo austríaco teria sido agente secreto da inteligência da URSS na Inglaterra.

Diante de uma personalidade tão misteriosa e de um pensamento tão intenso, Kai Buchholz no seu livro introdutório opta por um movimento bem arriscado. Ao invés de falar sobre o pensamento de Wittgenstein em ordem cronológica, ou de discutir os dois extremos de sua filosofia (o Tractatus da sua juventude, e as Investigações Filosóficas de sua velhice) opta por tratar de temas como Lógica e Matemática; Teoria do Conhecimento e Psicologia; Linguagem e significado.

Seguindo essa linha fica bem fácil compreender o fio que liga “a teoria da figuração” que apontava para uma ligação misteriosa entre a linguagem e as coisas do mundo (nos anos de 1921) e a ideia revolucionaria dos “Jogos de Linguagem” que aparece na obra póstuma de 1953.

Buchholz guarda nas entrelinhas da sua introdução uma tese: a de que não houve ruptura de pensamento na história da vida de Wittgenstein, mas sim uma mudança mediada por alguns conceitos que foram aparecendo no meio do caminho, entre um extremo e outro. Conceitos como a de semelhança de família, extraído, segundo o autor, por Wittgenstein do livro “A Metamorfose das Plantas” de Goethe. Na Gramática Filosófica, mais um de seus livros póstumos, escrito antes das Investigações Filosóficas Wittgenstein escreveu sobre a ideia de semelhança de família: “ela pode ligar os objetos como elos de uma corrente, de modo que um pode estar ligado aos outros por meio de elos intermediários”.

Como nas descrições de Goethe sobre as transformações nos vegetais, a ideia de que a linguagem funcionava a partir de conexões no uso dos termos se metamorfoseou na ideia de um jogo de linguagem que seria como aqueles nas quais as crianças começam a fazer uso das palavras.

Existem pontes ligando o primeiro Wittgenstein ao segundo. O jovem místico, adepto das doze máximas de Leon Tolstoi sobre o Novo Testamento, ao velho professor acostumado a fazer anotações sobre brincadeiras e jogos como amarelinha, críquete, xadrez, queimada, damas, adivinhação. Wittgenstein transitou entre a busca de uma forma lógica geral que desse conta da ligação entre a linguagem e os objetos do mundo, à um universo cheio de jogos esperando para serem descritos e analisados em seus fragmentos.

O que parece ter ficado constante nesse processo de transformação é a visão da filosofia como um trabalho de busca da clareza e da transparência. Ele escreveu em seus diários, no dia 06 de Novembro de 1930: “Para mim, ao contrário, a clareza, a transparência é um fim em si mesmo. Não me interessa construir um edifício, mas ter, diante de mim, de modo transparente, os fundamentos dos edifícios possíveis”.


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2007 ® Pablo Capistrano

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