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  • Pablo Capistrano
  • 05 de abril de 2011, as 15h15

Em 1952, o saxofonista Gery Mulligan fez aquilo que boa parte dos poetas, escritores e músicos norte americanos faziam quando tentavam se reconectar com as experiências arquetípicas de seus ancestrais: largou tudo em Nova York e pegou a estrada para o oeste.

Desde a primeira metade do século XIX os EUA foram sendo construídos a partir de uma longa marcha de costa à costa, em direção à Califórnia. Essa marcha se deu em várias fases. Desde o tempo dos velhos comboios com carroças cruzando as pradarias, até as viagens pelos longos trilhos de trem que cruzavam os grandes rios do meio oeste e cortando as Rochosas em direção ao Pacífico. Woody Guthrie cantou essa travessia no álbum clássico Dust Bowl Refugee. Uma peça de rara beleza, que pirou a cabeça do jovem Bob Dylan e que conta a trágica travessia, em direção a uma Califórnia utópica, realizada pelos refugiados da grande bola de poeira que destruiu as fazendas do meio oeste no tempo da grande depressão. Mas foi certamente Jack Kerouack que mais profundamente canonizou a grande travessia para o oeste em On The Road. Ele fez ressurgir no tempo do automóvel o espírito de transeuntes vagabundos desencarnados pelas estradas do tempo e pagou seu preço por essa aventura… mas essa é uma outra história.

O fato é que chegando à Los Angeles, Mulligan (que havia participado das gravações de Birth of the Cool, junto com Miles Davis) começa a tocar no Haig Wilshire Boulevar junto com Chet Baker, um jovem trompetista que havia sido apresentado ao mundo do Jazz por Charlie Parker. Ali Mulligan criou um quarteto de Jazz sem a presença do piano, trabalhando com contrabaixo (Bob Whitlock), Bateria (Chico Hamilton) e trompete (Baker) e sax (o próprio Mulligan).

O grupo durou pouco, apenas um ano, mas a grande importância da viagem de Mulligan para o oeste foi o fato de ter apresentado à juventude dourada da Califórnia um jazz frio, suave, profundamente estruturado, pautado na recuperação melódica patrocinada por Davis em Nova York.

Com Davis, Mulligan entendeu que o jazz precisava reencontrar seu espaço no mercado e que isso só poderia acontecer quando a revolução estética do be bop fosse digerida em um novo tipo de som, que pudesse frutificar outras estruturas, mais melódicas, mais suaves, mais afeitas ao gosto médio do público.

É certo que sem Birth of the cool é muito provável que Chet Baker tivesse se transformado em mais um trompetista de Be Bop, seguidor e diluidor da força criativa da dupla Parker e Gillesppie. Mas não foi isso que aconteceu. Seguindo a intuição de Davis, Baker entrou em estúdio entre os anos de 1954 e 1956 e gravou um disco fundamental para os amantes do jazz que acabou dando uma contribuição intensa para a recuperação do mercado perdido pelos anos de experiência estética dos boppers.

Chat Baker Sings foi lançado em 1956. Nele o jovem trompetista boa pinta, com sua voz suave, quase sussurrada, ao mesmo tempo doce e melancólica, fez algo com o Cool Jazz que Miles jamais poderia ter feito: transformou-o em canção.
Debruçado sobre velhos singles dos anos trinta, peças da Broadway, trilhas sonoras de filmes dos anos quarenta, Baker deu uma roupagem extremamente moderna as sonoridades antigas, que pairavam no inconsciente nostálgico da nação. Baker já era um promissor trompetista de Jazz, formado na vanguarda estética do underground musical quando resolveu entrar no estúdio para cantar. Seu disco acabou se tornando um sucesso de vendas e sua voz frágil, melancolicamente romântica, que unia a força rítmica de Armstrong à suavidade lírica dos cantores de música pop, acabou por se tornar um signo do modo como o Jazz podia se apropriar das referências do passado e dar um sentido estético de modernidade a esses elementos.

Em um tempo em que Frank Sinatra era o rei da canção norte americana e que João Gilberto no Brasil se esforçava por imitar o vozeirão de Orlando Silva, Baker deu o ponto e o tom de um novo tipo de interpretação vocal. Com o ritmo da voz negra e a suavidade clássica da música europeia.
Basta comparar a versão de Sinatra para My Funny Valentine com a que Baker gravou em 1956 para entender o que eu digo.

Reza a lenda que João Gilberto grudou no disco de Baker quando ele foi lançado no Brasil e traduziu seu modo de cantar para o samba brasileiro, introduzindo uma variação jazzística na batida, transliterando essa forma, quase sussurrada, de cantar, que botou abaixo todos os velhos cânones estéticos do cancioneiro popular brasileiro. Sei que alguns de meus conterrâneos, tomados por um nacionalismo que não funciona no mundo da música, babam de raiva quando ouvem essa história. Mas não há demérito para a Bossa Nova ter sido influenciada pelo cool jazz. A leitura suave, melancólica e minimalista que marcou o jazz da costa oeste foi um maravilhoso tempero para o samba.

Pois é, amigo velho… a Califórnia é um lugar aonde (segundo rezam as mitologias do norte) o sol brilha mais forte. A ironia é que foi nesse espaço de desconcertante luminosidade imaginaria que Baker traduziu as lições de Miles Davis em um tipo muito particular de azul.

Dizem que Baker se suicidou em 1988. Ele teria se espatifado na calçada do hotel Prins Hendrik em Amsterdã. Alguns falam que ele foi assassinado. Outros que tudo não passou de um trágico acidente. O fato é que nunca mais o mundo ouviu alguém cantar canções de uma luminosidade tão fria quanto aquelas que Baker gravou no seu disco de 1956.

Quando perguntaram como ele se definia, o músico respondeu: “meu fraseado como cantor é muito influenciado pelo meu trompete. Se eu não fosse um trompetista, eu não sei se conseguiria cantar desse modo. Provavelmente não conseguiria. Não sei se sou um trompetista que canta ou um cantor que toca trompete. Amo as duas coisas”.

A beleza agradece essa dúvida.


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2007 ® Pablo Capistrano

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