- 11 de abril de 2011, as 8h08
Texto publicado na revista Tá Na Cara.
Autor: Robert Crumb
Título: Gênesis
Editora: Conrad
Existe uma antiga tradição judaica que diz que para cada palavra escrita na Torah (a lei dos judeus correspondente ao pentateuco dos cristãos) existem seiscentas mil interpretações possíveis. De onde eles tiraram esse número? Da quantidade de pessoas que supostamente estariam presentes no momento da teofania do Sinai.
A teofania do Sinai, para quem não sabe, foi o momento em que Moises recebeu as tabuas da lei no, diante de uma multidão que esperava com ansiedade, esperança e temor embaixo da montanha.
Essa tradição alerta para um aspecto muito importante: a leitura do texto Bíblico é uma aventura perigosa. Esses riscos aparecem mais quando os leitores, geralmente ingênuos e perdidos em uma coletânea qualquer de dogmas doutrinários, se enroscam nas metáforas dos diversos livros que compõe a coletânea e não conseguem entender o caráter conotativo de muitas dos seus versículos.
Outro dia um conhecido disse que não era favorável ao casamento gay por razões bíblicas. O que significa isso? Usar um livro como uma ferramenta que justifique certas concepções e oriente uma tomada de posição sobre o mundo é um dos grandes riscos da leitura de textos religiosos.
Isso acontece quando a gente usa uma coletânea de textos literários dispares como se ele fosse um documento jurídico, um tratado metafísico, um artigo científico ou um panfleto político.
A Bíblia cristã, por ser uma coletânea de livros, tem uma grande variedade de formas textuais. A gente pode encontrar nela cartas, discursos proféticos (quase como o de alguns líderes políticos carismáticos atuais), parábolas de fundo moral, códigos legais e, fundamentalmente, mitos de origem.
Eu poderia apostar que, se você for escolher um dos livros da Bíblia para submetê-lo a um medidor de heterogeneidade literária com certeza o melhor candidato seria o Gênesis (Breshit – para os judeus). O texto em hebraico do Gênesis corresponde a mais ou menos 1500 versos, divididos em aproximadamente 50 capítulos da mais pura multiformidade. São pequenas bênçãos, maldições, canções, textos doxológicos, mitos de origem, protocolos jurídicos para celebração de contratos, registros genealógicos, diretrizes legais. Tudo isso faz do Gênesis uma grande miscelânea, uma salada de gêneros e de formas textuais escritas a muitas mãos e compiladas em algum momento entre o período do primeiro do segundo templo (de acordo com as leituras de Harold Bloom e David Rosenberg).
De quebra, no meio dessa variedade de textos ainda se tem uma polaridade linguística fundamental que só se torna mais evidente quando a gente confere o original em hebraico.
Em meio a prosa do Gênesis costumam a eclodir pequenos poemas que brincam com o sentido das palavras construindo inversões bastante significativas. Geralmente esses poemas indicam maldições ou bênçãos que são muito usuais no decorrer do livro. Às vezes a mudança é explicita. Ela explode na sua cara com uma marcação textual muito definida. Às vezes, essa mudança é sutil, ocorrendo de modo quase imperceptível de maneira que quando você menos espera está aprisionado em alguma arapuca poética.
Apesar de tudo isso muita gente ainda lê o Gênesis como se ele portasse uma mensagem e passa por cima de toda essa variedade literária, quer por alguma convicção teológica profunda quer por falta de compreensão do texto hebraico.
Um dos sintomas dessa miopia literária é achar, por exemplo, que no Gênesis existe uma “teoria criacionista” que explica a origem do universo e da vida. A disputa entre evolucionistas e criacionistas não é produto do Gênesis. Uma coletânea de textos literários tão heterogêneos não contém teorias cientificas ou metafísicas. São os teólogos, cientistas e filósofos que, interpretando um mito de origem como se fosse um tratado, dão a ele conotações completamente diversas daquilo que está contido no corpo do seu texto.
(continua)
