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  • Pablo Capistrano
  • 20 de abril de 2011, as 6h06

 

Os antigos gregos, nos tempos de Homero, criaram um curioso conceito que emergiu dos versos da Ilíada e que depois se tornou o termômetro de todo tipo de disputa esportiva. O agon era sinônimo de um combate individual entre heróis. Uma disputa, um confronto, um acerto de contas entre forças que a um só tempo se opunham e se equivaliam.

Na Ilíada de Homero, os combates individuais envolvendo nomes como o de Heitor, Aquiles, Pátroclo, Agamenon, Paris são a medida de todas as grandezas que um dia a virtude dos homens nos apresentou.

Nos tempos dos heróis a fama era alcançada após a morte. Quando os feitos extraordinários dos homens eram cantados e pintados ao sabor da imaginação da música dos poetas. Não havia esse conceito instantâneo de celebridade, tão martelado nesses anos de histeria midiática.

Definitivamente não vivemos em tempos épicos. A cada dia fica mais evidente que vivemos em um romancezinho burguês, cortados aqui e ali por alguma esquizofrenia linguística, derivada das viagens bizarras de algum deus pós-moderno que parece estar contando a história da humanidade chapado de metanfetamina.

Talvez por essa carência de heróis, por esse deserto de sentimentos que nos levem além do tempo da vida, por essa encruzilhada histórica que nos empurra em direção a terrível banalidade de cotidianos decompostos que um clássico do porte de um Real Madrid e Barcelona é tão importante. E quando esse clássico se desdobra em quatro partidas em dezoito dias parece que os velhos poetas dos tempos de Heitor e Aquiles retornam para nos brindar com um pouco da velha poética dos grandes combates.

O agon entre Real e Barça não se reduz a figura de seus astros mais midiáticos. Mesmo que a capa da FUT queira nos fazer pensar que estamos diante de um confronto entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, na verdade os gigantes, os heróis, os semi-deuses são as próprias instituições futebolísticas, representadas pelas cores branca do franquismo espanhol e pela resistência vermelho grená da raça catalã.

A primeira vista parece que o Real não anda no mesmo nível técnico do Barça nesse ano. Mas quando um clássico desse porte se inicia as coisas não parecem tão simples. A primeira partida da melhor de quatro mostrou que não é impossível derrotar o Barça. Mourinho armou uma estratégia interessante. Deixou que os zagueiros do Barcelona jogassem soltos e fechou uma marcação sobre os homens de meio de campo de modo a todo instante dois jogadores do Real chegavam junto quando Xavi, Iniesta, Daniel Alves ou Messi tocavam na bola. Mourinho armou no primeiro tempo uma linha de três volantes (Xavi Alonso, Pepe e Kedjira) para preparar o contra ataque com lances longos e usou como ferramenta tática um dos mais importantes conceitos do futebol moderno: o domínio defensivo do meio de campo.

O Real jogou o primeiro tempo de igual para igual com o Barcelona, segurando o time catalão quase que o tempo todo do meio do campo para trás, dando a bola para que os barcelonistas tocassem sem permitir que os espaços do campo fossem dominados pelo time inimigo.

Não fosse o pênalti contra Davi Villa e a expulsão de Albiol, talvez esse primeiro jogo da melhor de quatro tivesse um outro desfecho que não um lacônico 1 à 1. O fato é que precisamos desses confrontos. Mesmo sabendo que o que está por trás de toda fauna e flora do futebol moderno é o bom e velho dinheiro, não há como não ter esperanças de que no mundo do jogo de bola, ao menos dentro de campo, alguma coisa daquele tempo dos poetas possa fazer com que a secura desses tempos de sombria banalidade definitivamente não nos destrua.


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2007 ® Pablo Capistrano

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