- 21 de abril de 2011, as 17h17
Eu vibrei quando soube que o Robert Crumb, um dos heróis da contracultura, personagem mítico dos quadrinhos, autor de uma das capas mais loucas da história do rock (o disco: “Cheap Thrills” do Big Broder and The Holding Company. Banda que entrou para história como sendo o grupo da Janis Joplin), resolveu transcrever para a linguagem dos quadrinhos o primeiro livro da Bíblia.
Talvez você possa pensar: como é que um quadrinista underground, ateu, que costumava a desenhar o submundo Hippie da São Francisco dos anos 1960, poderia fazer bem uma transliteração de um livro tão fundamental como o Gênesis?
Sabe o que é mais espantoso? Ele conseguiu.
Letra por letra, versículo por versículo, passagem por passagem, imagem por imagem. O trabalho de Crumb não foi de diletante. Ele mergulhou no texto hebraico para identificar aquilo que fica por baixo das traduções, oculto das leituras ingênuas daqueles que não sabem que a palavra até pode ser de Deus, mas que a linguagem, com suas presepadas, é a dos homens.
Crumb não se mete no texto Bíblico tentando interpretá-lo e explicá-lo para o leitor. Ele o mostra. Encontra a imagem para a palavra e nessa busca deixa sua própria versão no desenho, nas formas visuais. Não há como deixar de sentir, em cada quadrinho, que esse é um trabalho de Robert Crumb, com suas mulheres imensas e gordas, com seu traço paradoxal, realista e caricato ao mesmo tempo, com sua expressividade dramática, cercada de uma falsa ingenuidade pictórica. O mesmo Crumb dos loucos anos sessenta, das histórias biográficas, o crítico do american way of life, o Crumb colecionador de velhos discos de Blues está ali.
Talvez, se você é um crente cristão, ou mesmo um judeu observante, possa ser tomado de certo constrangimento ao passear pelo álbum. Crumb, ao traduzir em imagens a letra quase crua do texto, deixa à mostra aquilo que costuma a ser “interpretado” pelas diversas doutrinas religiosas. As imagens do Gênesis geralmente são domesticadas pela doutrina interpretativa e a morte, o sangue, e o sexo, tem muitas vezes sua importância reduzida na interpretação oficial dos religiosos.
Se há um tema fundamental no Gênesis esse é o sexo. Mas não o sexo da curtição. O tântrico sexo do êxtase místico que leva os praticantes a estados alterados de consciência ou mesmo a pornografia chula que alimenta as fantasias dos eternos adolescentes pós-modernos em que nos transformamos.
O sexo tem a ver com a promessa da manutenção da linhagem e com a fertilidade da vida. Todo o tempo a ameaça da morte e da descontinuidade das linhagens humanas se contrapõem a esperança da promessa de Deus na continuidade da herança de Noé, Abraão, Isaac, Jacó. As três grandes matriarcas do Gênesis Sara, Rebeca e Raquel são estéreis. A fertilidade representa a benção da continuidade da linhagem primogênita que justifica inclusive o incesto, a profanação do corpo do pai, a mentira, o engodo. A negociação do prazer sexual através de acordos e de formas jurídicas como no direito a tentar a descendência que Abraão recebe de Sarah junto com os favores sexuais da escrava Agar, ou mesmo a negociação entre Lia e Raquel com as mandrágoras (planta que presenteava as mulheres com a fertilidade) são elementos que denotam a importância do conflito entre fertilidade e esterilidade, sexo e morte em todo o texto.
A busca pela imortalidade no Gênesis não se dá em um espaço transcendente, espiritual. Nenhuma alma sobe aos céus, ninguém ressuscita, ninguém reencarna, a grande benção que Deus dá aos homens é o poder de transformar o sexo em um caminho para a eternidade através da perpetuação da herança.
Crumb é o cara que faltava para injetar no Gênesis a dose de intensidade visual da qual as interpretações domesticadas dos doutrinadores carecem e deixar à mostra, em meio ao caos textual do livro, a intensidade da vida que pulsa naqueles escritos fundamentais da cultura ocidental.
Não sei se você é ateu, crente ou simpatizante, nem sei se seu contato com o texto Bíblico é usual ou esporádico, mas se você gostar de uma boa obra de arte vale a pena dedicar um bocado do seu tempo a leitura do álbum Crumb.
Se você teme ter suas certezas abaladas, para um lado ou para outro das dicotomias modernas (como nessa velha discussão fora de moda em que velhos intelectuais do século XIX como Richard Dawkins costumam a entrar) resta uma historinha para aliviar seu sentimento de culpa.
Dizem que um dia Deus e Lúcifer, um dos seus anjos prediletos, estavam dando um passeio por algum jardim cósmico desses que são feitos em seis dias, quando subitamente o Eterno se abaixa para pegar algo.
Era um pequeno pedaço de papel com um texto curto, escrito em uma língua divina. O Eterno lê atentamente o escrito. Lúcifer, sem conter sua curiosidade pergunta: “Senhor, o que é que está escrito nesse pedaço de papel?”.
“A verdade” – o Eterno responde.
Sem conseguir esconder aquele sorriso obsessivo dos puxa sacos, Lúcifer, com a devida vênia, retira o bilhete da mão do Criador e diz: “Pode deixar Senhor, que eu organizo ela para você”.
Um Comentário para “O Gênsis de Robert Crumb – parte II”
-
Valeu pela dica desta edição do Gênese de Crumb. Inclusive baixei um documentário muito bom de Crumb. E deixo uma dica de um blog de arte do amigo Jadson Oliveira radicado em Canguareta. http://WWW.cadernoemcores.blogspot.com
