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  • Pablo Capistrano
  • 19 de maio de 2011, as 10h10

Eu não quero nunca na minha vida estudar música.

Tenho medo de descobrir qual o segredo que se esconde por trás dessa forma superior de pensamento. Para mim, a música sempre vai habitar na esfera do mistério, na reserva do insondável, no sinuoso curso das coisas estranhas do mundo.

Como uma criança que não entende a dinâmica das nuvens e se assusta com o barulho de um trovão, quero passar por esta vida ao lado da música, sempre com ela, mas sem necessariamente entender os mecanismos de sua fantástica matemática.

Talvez por isso me espante tanto ao ouvir o piano de Thelonius Monk.

Poucas aventuras no mundo do Jazz são tão desconcertantes quanto aquelas que um bom mergulho na música de Monk pode proporcionar. Nascido em 1917 na Carolina do Norte, Monk começou tocando piano em Igrejas, no universo da música Gospel. De algum modo acabou chegando às noites de segunda feira no Milton´s Playhouse, local de origem do Be Bop, por onde passaram Charlie Parker e Dizzy Gillespie no começo da carreira.

Monk é como uma criança de seis anos possuída pelo espirito de um velho babalaô africano. Seu transe no palco não se resumia apenas ao que ele martelava no piano. Não era apenas a sintaxe superior de uma música inquietante, meio louca, em sua primitividade cristalina. Era também sua dança circular no meio do show, seus longos silêncios, seu imenso senso de ausência, sua brincadeira sem fim com o vazio que mora entre as notas da vida.

Monk foi internado várias vezes e, seguindo as regras canônicas da moderna ciência médica, poderia ser classificado facilmente como esquizofrênico. Comenta-se, nas entrelinhas das fofocas musicais, que ele passava dias em completa mudez. Tocava com chapeis estranhos, levantava do piano e parava no meio do palco fitando o vazio durante os shows. Girava em volta de si mesmo varias vezes, como um mestre Sufi no caminho da iluminação ou um filho de santo que deixa o corpo livre para que as velhas potências tectônicas da natureza o dominem.

Suas apresentações levaram o Jazz até a fronteira da escala diatônica, que é a base da moderna música ocidental. Ali, Monk encontrou brechas, explorando os intervalos entre as notas da escala, batendo no piano com os dedos rígidos, como se tocasse com um martelo. Monk deixava claro a lógica bruta de cada nota. Nos oferecia a todo instante a impressão ansiosa e desconcertante que iria errar, só para depois nos surpreender com soluções melódicas completamente inesperadas.

Há uma ansiedade sempre presente na música de Monk. A impressão é a de que a nota que vem na sequência não vai se encaixar. É como se uma dissonância, um descompasso, um descuido, pudesse saltar bem de dentro da lógica dos loucos e fosse desmontar o fluxo da música.

Sua música era radicalmente moderna e a despeito das evidentes influências da erudição de Duke Ellington, parecia sempre pairar sobe a iminência de uma decomposição, como se em meio a uma carência técnica na execução do instrumento, pudesse emergir um profundo caos ordenado, paradoxalmente montado a partir do confronto entre o som e o silêncio, entre o ocaso das certezas e o acaso que emerge do sem fim de nossos pensamentos, sonhos, expectativas.
No meio dos anos 70, um Monk já velho e cansado anunciou: “eu estou muito doente”.

Aquela foi uma constatação misteriosa e ao mesmo tempo atrasada para alguém que lutou toda a vida contra a própria loucura.

Talvez essa misteriosa doença tenha levado a música de Monk a esse lugar aonde mora nosso espanto, nosso desconcerto, nosso estranho descompasso. Talvez tenha sido essa mesma doença que, nos limites do esgotamento, o tenha levado a parar de tocar e o tenha exilado em quase uma década anos de completa mudez musical, exilado na casa da baronesa Nica de Koenigswarter. Os dez últimos anos da sua vida. Marcados pela ausência da sua música temperada pela memoria de seus feitos no mundo do jazz.

Se quisermos mesmo entender o que realmente é o Jazz precisamos sempre voltar para o mundo de Thelonius Monk. Seguir sua viagem pelo teclado do piano para que, quem sabe, essa matemática louca que alguém um dia chamou de música, possa definitivamente, nos libertar para seus mistérios.


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2007 ® Pablo Capistrano

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