05 jun
Ecologia e socialismo
- 05 de junho de 2011, as 7h07
LIVRO: Ecologia e Socialismo
AUTOR: Michel Löwy
EDITORA: Cortez
ANO: 2005
Muita gente espantou-se com a posição do Deputado Aldo Rebelo do PCdoB nas discussões do código florestal. A imagem de Aldo (um comunista das antigas) lado a lado com a velha tropa de choque de Ronaldo Caiado e com as hostes do agro negócio gerou um certo desconforto obrigando os teóricos do PCdoB a grandes equações argumentativas que pudessem apagar, no ouvido de seus militantes os gritos de “traidor” lançados contra o antigo presidente da Câmara pela bancada ambientalista.
No tempo de Chico Mendes havia duas lógicas muito claras no mundo da Floresta. A lógica da UDR que pensava em derrubar a mata e fazer pasto para boi comer e a lógica dos seringueiros, que precisavam manter a floresta em pé para alimentar os próprios filhos.
No começo dos anos oitenta, Chico Mendes viajou ao Rio. Na volta, teria dito a Marina Silva (sua companheira de lutas populares) “Nega velha, isso que a gente faz aqui é ecologia. Acabei de descobrir isso no Rio”.
Fico pensando o que Chico Mendes diria hoje aos militantes do PCdoB, se tivesse tido a oportunidade de participar das discussões do novo código florestal?
O fato é que a postura do Deputado Aldo Rebelo levanta uma questão interessante no mundo das ideias: será que o velho marxismo pode se encontrar, em alguma esquina teórica qualquer, com a militância ecológica?
A resposta de Michel Löwy, no seu livro “Ecologia e socialismo” é um sonoro “sim”.
Mas para isso é preciso que os marxistas “das antigas” promovam uma releitura de Marx e não apenas uma transformação de seu pensamento em alguma espécie quase religiosa de doutrina. Seria preciso purgar Marx de seu apego a ideia de “Forças Produtivas”. Um conceito que surge com intensidade no “Prefácio à contribuição à crítica da economia política” (1859) e que levou Marshall Berman no seu clássico “Tudo que é sólido desmancha no ar” pôr Marx na lista de profetas da modernidade junto com Goethe e Charles Baudelaire.
Löwy admite que Marx já apresenta, em diversos escritos, uma preocupação ecológica, mas essas preocupações estão subordinadas a uma visão humanista moderna que mistura o cientificismo do século XIX, um certo evolucionismo político, imbricado a uma idealização do papel das forças produtivas no que diz respeito a construção de um lugar de bem estar para a humanidade.
Se alguém estiver realmente disposto a construir uma visão ecosocialista deve estar pronto para abrir mão de duas grandes ilusões: a ilusão do velho marxismo que enxerga na ideia de “forças produtivas” a chave que desempacotaria a revolução socialista e a ilusão do liberalismo ecológico que acredita ser possível a construção de uma economia de mercado ecologicamente sustentável.
Livrar-se de um certo marxismo clássico e pensar um pouco mais no princípio de responsabilidade de Hans Jonas, nos leva a pensar ser um imperativo moral das atuais gerações a manutenção de um ambiente natural preservado que garanta a existência das gerações posteriores.
Mas também é preciso abandonar o anti-humanismo radical da ecologia profunda que entende ser necessário bloquear o desenvolvimento tecnológico e econômico da humanidade para que as forças da terra possam encontrar seu equilíbrio.
Entre a utopia de uma sociedade tecnológica governada por emissários da classe operária e uma outra na qual o espaço natural não é apenas um ambiente de fornecimento inesgotável de bens, para serem postos a serviço da humanidade, pode haver uma confluência. Mas esse ajuste implica dessacralizar tanto a ecologia profunda que emerge a partir das ideias de Heidegger e Aldo Leopold, quanto o velho marxismo e seus tropos retóricos do século XIX.
Nem verdes demais, nem excessivamente vermelhos, as melancias ecossocialistas estão ainda longe de serem tipos comuns no bioma da política brasileira. Curiosamente, talvez tenha sido Chico Mendes, naqueles anos em que as pessoas ainda acreditavam ser pertinente sacrificar a própria vida em prol de uma utopia, o melhor modelo de um ecossocialismo tropical.
Mesmo depois de vinte anos de sua morte, ainda não entendemos bem a natureza da luta de Chico Mendes. Para além dos empasses teóricos e das opções ideológicas dos velhos partidos é preciso repensar o lugar da ecologia. Talvez, como pensa Löwy, em uma esfera que uma o verde das causas ecológicas e o vermelho das lutas sociais.
Uma união que na prática parece fácil, mas que, quando mergulhamos no intrincado teórico de seus pressupostos, percebemos ser cada vez mais árida.