21 jun
Um outro tipo de Blues
- 21 de junho de 2011, as 11h11
Se no Brasil o Baião e o Samba são as duas grandes famílias reais da nobiliarquia musical, que deram origem a quase tudo o que se convencionou a chamar de MPB, nos EUA esse lugar é ocupado pelo Blues e pelo Folk.
É justamente para o Blues que o Jazz sempre refluía quando sua pulsão de revolução o lançava em direção a uma busca suicida de autosuperação. Na primavera de 1959 o mundo respirava Jazz e o Jazz, naquela época, ainda marcado pela presença sobrenatural do mito Charlie Parker, era fundamentalmente uma intensa e veloz mudança de acordes.
Foi nesse ambiente que Miles Davis, que já havia mostrado uma porta de saída do Be Bop com seu Birth of the cool (1957), juntou-se a um grupo de músicos geniais e em dois dias (03 de Março e 22 de Abril de 1959) gravou aquele que é considerado por alguns críticos como o mais importante álbum de Jazz da história.
Kind of Blue tem o mérito de ter retirado do Jazz os excessos das experiências estéticas do underground musical novayorkino sem abrir mão do impulso de experimentação, talvez a mais essencial marca distintiva desse tipo de música.
]A elegância moderna do disco, um marco do hypness (que nos anos cinquenta era sinônimo de vanguarda e de sofisticação), foi espantosamente conquistada a partir de dois pilares: a instantaneidade das gravações e o equilíbrio entre polos opostos.
Miles foi um tipo muito peculiar de gênio musical. Ele sabia das suas limitações e tinha um faro apurado para juntar músicos que pudessem completar aquilo que lhe faltava. Foi assim que trouxe John Coltrane e Julian “Cannonball” Adderley para tocar Sax. Os dois representavam polos dicotômicos da arte jazzística. Coltrane, o intelectual, místico e introspectivo. Um obscuro, cercado de uma misteriosa aura de santidade. Um mestre no trabalho com escalas modais que levou o Jazz a alguns de seus mais intensos momentos de expressividade barroca. Adderley, o alegre e jovial músico de raiz, com os pés profundamente fincados na tradição, servo de vertentes mais arquetípicas da música negra. Um apontava o futuro, outro, se conectava com a tradição.
No piano Miles realizou uma mistura parecida. Como se pintasse com contornos de luz e sombra, brincado com as dicotomias musicais, chamou um Bill Evans clássico, marcado pela melancolia branca de um piano contido e um Wynton Kelly encharcado das sonoridades rítmicas da melhor tradição da música negra norte americana. Os dois alternaram-se no piano enquanto o ritmo era marcado pela batida do baixo de James Cobb e pela bateria de Paul Chambers.
O mais interessante é que Miles não quis lapidar esses contrastes. Não se interessou de maneira nenhuma em aparar as arestas com exaustivas tentativas de arrumar as músicas com arranjos pré-moldados ou com efeitos extraídos da mesa de gravação. Miles recusou a tentação da tecnologia moderna e de suas ininterruptas regravações, e não deixou que o produtor do disco mediasse às tensões para oferecer às dicotomias sonoras de seus músicos um senso de equilíbrio artificial. A experiência registrada no álbum é essencialmente a experiência de um momento. O disco foi gravado praticamente de primeira com uma precisão e uma rapidez desconcertantes.
Como um artista zen que passava uma vida inteira diante do branco do papel para, em um impulso, em um momento de luz, completar um desenho com apenas dois movimentos rápidos e suaves, Davis entendia que “a primeira ideia era a melhor”.
Para Miles, fazer um disco era produzir o registro de uma experiência, que é a própria gravação. Seguindo a ideia que já vinha formatando desde 1957 em Birth of the Cool e desenvolvida durante todo o ano de 1958 enquanto trabalha na trilha sonora de um filme de Louis Male, Miles sabia que naquela altura a grande saída para a encruzilhada estética do Jazz era mostrar que “menos é mais”.
Apesar disso, Kind of Blue não é somente um canto de louvor a misteriosa harmonia coletiva do instante ou um manifesto da vanguarda minimalista. Ele também é um retorno à fonte do Jazz.
O Blues, esse mar eterno de onde toda a música negra norte americana vem e para onde ela conflui quando tempos de raquitismo estético lançam a criatividade de seus músicos nos mais imprevisíveis impasses ou nas mais escandalosas encruzilhadas.
Agora não pense; amigo velho, que o Blues redescoberto por Miles e seus músicos geniais, era o velho blues do delta do Mississipi, ou mesmo o blues urbano, eletrificado, que fazia nascer, naquela mesma década, o anjo exterminador do rock ´n´roll.
Não há lugar para saudosismo no cânone dos gênios do Jazz.
No amplo espaço acústico de uma Antiga Igreja Armênia, rebatizada como “Estúdio da rua 30”, o uso das escalas modais para substituir a sucessão de acordes do Be Bop abriu mais uma porta para o Jazz. Construiu mais um caminho, mais uma ponte de sobrevivência e renascimento que iria marcar os anos seguintes dando um novo salto de criatividade revolucionaria para seus músicos. Kind of Blue descomprimiu as notas tocadas nos cantos reduzidos dos clubes noturnos encharcados de Be Bop e ampliou espantosamente o espaço acústico do Jazz.
A compressão atômica do Be Bop de Charlie Parker dava lugar agora a um outro tipo de Blues, mais amplo, mais limpo, mais expressivo em sua claridade quase transparente.
Vivemos em um tempo em que a ideia de álbum, que nasceu com o Jazz e que se consolidou no mundo do rock´n´roll, está ameaçada pela fugacidade e fragmentação do fenômeno do MP3. Fico pensando como, um dia, eu poderia explicar a meu filho Uriel, hoje com quinze anos, o que significa um álbum de música.
Talvez não tenha como explicar. Talvez o melhor seja sentar com ele em alguma sala silenciosa e pôr, no que sobrou de minha vitrola, aquele velho vinil negro e azulado pra tocar, com a foto de um Miles elegante e compenetrado na capa, armado com seu trompete.
Então, talvez os silêncios de nossas madrugadas possam ser cortados por esse estranho convite registrado na primavera de 1959. Um convite para um tipo muito especial de azul. Para uma dessas viagens pela noite, entre as luzes dos postes e os faróis dos carros nas auto estradas. Uma viagem pelos inumeráveis mundos imaginários, do passado, do presente e do futuro mais distante. Uma daquelas viagens que só os bons e velhos álbuns de vinil conseguem nos oferecer.