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  • Pablo Capistrano
  • 06 de julho de 2011, as 9h09

Tudo passa

Amigo velho, esses dias me pegou esse vento frio, com gosto de chuva e eu resolvi me mudar.
Não aconteceu porque minha alma entediou com os onze anos que passei suspenso à dez andares do solo, em um apartamento em Ponta Negra. Não cansei de olhar para aquele velho morro e para aquele resto de mar que sempre me lembrava do sal dos dias de Domingo. Não me mudei porque Ponta Negra mudou.
E como ela mudou! Já não existe mais, por aquelas esquinas, um certo cheiro de praia do interior. Não tem mais o barulho das ondas subindo as ladeiras da vila e entrando, sem cerimônia, por dentro das casas de veraneio. Não está mais lá a solidão daquelas noites que umedeciam as almas mais duras, junto com a lama de junho escorrendo pelas ruas barrentas. Não há mais aquele odor de antigos lagos temporários, ocultos do mundo sobre o calçamento de uma cidade tímida, que parecia não querer avançar sobre as delicadezas daquela praia.
Mesmo assim, não foi por causa de Ponta Negra que eu me mudei. Foi a biblioteca, amigo velho, que pesou. Foi o espaço que parece ter diminuído a medida que a família cresceu e minha loucura por livros me empurrou em busca de espaços mais amplos, paredes mais vazias, prateleiras mais robustas.
Não foi por causa da violência dos prédios que nos cercam com seu mal gosto arquitetônico, sua grandiloquência atabalhoada, seu desregramento funcional. Não foi o barulho das gentes de outras esquinas que repentinamente chegaram pela beira mar com seus sotaques estranhos, seus sonhos sonhados em outros mundos, seus desejos tão insondáveis e tão diversos dos nossos.
Não me mudei de Ponta Negra por causa dos carros. Esses assassinos do silêncio do mar não me irritam tanto assim. Apesar dos engarrafamentos, do cheiro camuflado de borracharia que tomou conta da vizinhança, da sensação de sujeira que se guarda nos cantos da casa, com aquela nuvem invisível de fuligem que serpenteia as ruas dia e noite.

Tudo Flui

Não me afastei por causa do mar, já sem tanta cor nesses invernos de línguas negras que descem pelos dutos subterrâneos, esgotos mal cheirosos, substratos de um desordenamento urbano temperado pelo desejo fausticida dos homens de poder e dinheiro.
Foi aquela biblioteca, amigo velho. Cheia de tantas obras que não vou ler. Comprimidas por palavras, frases, longos parágrafos que boiam pelas folhas brancas do papel. Frases que um dia, talvez, sejam minhas, transmutadas pela vontade que eu tenho de preencher minhas próprias páginas.
Foi a demanda do tempo, amigo velho, que não deixa a permanência ficar e que só nos empurra para cá e para lá nessa cidade-duna acostumada a apagar as marcas do passado com a falta de cerimonia dos psicóticos.
Talvez tenha sido mesmo meu coração, cansado de não saber mais onde eu estou. Atormentado pelo volume do mundo que sempre parece me cercar toda vez que algum ponto a mais dessa cidade delirante avançava sobre meu refúgio.
Quem sabe um dia, essa cidade possa finalmente me alcançar, como uma vez, não faz muito tempo, alcançou aquela praia, guardada em algum desses invernos da memória.

2 Comentários para “Um inverno do mar”

  1. luciano capistrano11/7/2011 às 7:03

    É amigo Pablo, você fez a escolha certa: Os livros!

  2. Antonio Neto17/7/2011 às 20:29

    Pablo, com essa sua descrição, Natal está se transformando de cidade em cilada, cidadão! Rs! Tudo isso tem relação com essa “terceiro mundista” e desumana especulação imobiliária, fenômeno comum às demais cidades brasileiras.

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