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  • Pablo Capistrano
  • 29 de julho de 2011, as 6h06

Cadê as guitarras?

 

O Rock morreu, mesmo que ainda estejamos badalando sua data no calendário das redes sociais (que substituem os dias santos no inconsciente virtual das massas), com direito a TTs no twitter, bolo de aniversário e matérias em jornais e blogs rede afora.

 

É importante saber que o fato de que alguém ainda toque um estilo de música não significa dizer que esse estilo está vivo. Muita gente toca música barroca, ou mesmo obras do cancioneiro medieval e nem por isso afirmamos que esses estilos são a marca do espírito musical de nossa época.

 

Há um sentido arqueológico na execução de peças antigas que serve ou para preservar uma tradição ou para fazer balançar um ou outro velho coração nostálgico como o meu.

 

Outro dado importante para o deslocamento do rock do centro da música contemporânea é a fragilização do papel das guitarras elétricas no universo Pop. Como o violino para a música de concerto no século XIX, o trompete para o swing e o sax para o modern jazz, a guitarra é o grande instrumento da virtuose no Rock e sua epopeia foi sempre a de encontrar um local confortável de destaque naquele conjunto rítmico tradicional com a bateria e o baixo.

 

A guitarra sempre foi o grande centro melódico do discurso do Rock. Sua presença onipotente era o eixo das experiências sonoras roqueiras, mesmo quando minimizada pela velocidade dos Ramones ou submetida ao baixo na mesa de produção de Unknown Pleasures (primeiro disco do Joy Division). Com sua presença evidente ou com seu recolhimento atrevido, a guitarra, nos discos de Rock, sempre foi a grande estrela, a mais intensa protagonista. Hoje, nesse império do eletrônico, ela se resume a um detalhe, um elemento decorativo na tessitura de uma música que não parece precisar mais dela para ser executada.

 

Aliás um outro prego no caixão do Rock vem do fato de que todas as suas grandes linhagens estéticas foram postas no balcão da indústria musical até os anos 70. Progressivo, metal, indie, punk, pós-punk, hard rock, psicodélico, tudo que se pensou em termos de uma alternativa sonora para o Rock foi apresentado ao mundo até 1979. Depois disso vieram três longas décadas de releitura e retomadas. Nenhuma grande novidade, nenhum sopro de vigor criativo, só formas que já se cristalizavam cada vez mais e que pareciam reaparecer a cada estação, na explosão de mais uma novidade prontamente datada e classificada na lista de formas arqueológicas da música do século XX.

 

No final das contas o cara do som, aquele que operava a mesa no estúdio de gravação dos álbuns clássicos do Rock, acabou ganhado espaço, interferindo na produção musical a ponto de roubar a cena e tomar o controle da festa. O DJ, o operador de mesa de som do estúdio, acabou substituindo o virtuoso guitarrista de Rock, botando as multidões para dançar e pular a noite inteira como um dia o Swing de Fletcher Henderson, o piano de Jerry Lee Lewis e a guitarra de Angus Young fizeram.

 

Aliás, como o Jazz (que começou a morrer quando deixou de ser música para dançar a partir das experimentações do Be Bop) o Rock abriu mão, para a música eletrônica, de um de seus maiores trunfos: o domínio sobre o corpo.

 

Foi na libertação do corpo que o Rock consolidou sua influência sobre o imaginário do ocidente e foi justamente sobre o domínio do corpo que a música eletrônica avançou, como se uma grande rebelião de operadores de som derrubasse o império, com David Guetta vestido de Luke Skywalker e Lady Gaga transmutada em princesa Lea.

 

Mas não fique arretado comigo, amigo velho, porque ainda carrego no meu sangue aquela pegada dos antigos riffs do século passado. Estou cada vez mais pleistocênico, parafraseando, pra todo lado, a frase do velho Friedrich Nietzsche como um grito de batalha de minha geração: o Rock está morto, mas seu eco distorcido ainda será ouvido por muitos anos nos tablets da humanidade!


2 Comentários para “E o Rock? Já enterraram?”

  1. Daniel F. O. Costa9/9/2011 às 5:56

    Professor, mas e o grugie? Não foi uma nova estética pós anos 80?

  2. Pablo Capistrano11/9/2011 às 13:23

    Acho que o grunge misturava, de maneira geral, punk com hard rock dos setenta. Na verdade era um movimento de exposição de um movimento de cultura musical alternativa que já vinha pelos subterraneos dos EUA desde da década de setenta.

    Se a gente pegar uma linha entre o Ramones e o Nirvana vai ver que o punk internalizou-se nos EUA. Ficou à margem, funcionando com bandas como Black Flag, Dead Kennedys, Bad Religion, Fugazzi e outras da cena de Washington e de L.A.
    Os grunges firam filhos dessa cultura. eles são uma continuidade desse fenômeno da cultura alternativa músical dos EUA que nunca deixou de exiustir entre o CBGB e as bandas de Seatle.
    Se há algo de bem vigoroso e original mesmo nos noventa eu acho que é o Pixies, no começo e o Sonic Youth. Mas mesmo esses tem seu pé marcado no punk e no pre-gótico do velvet underground.
    bem essa é uma tese, na minha leitura o lance é por ai.

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