- 31 de agosto de 2011, as 6h06
Quinta que vem teremos uma nova assembleia no IFRN para discutir os rumos da greve. Fomos tomados pela notícia de que a ANDES e PROIFS (sindicatos que disputam a base das universidades federais) assinaram um acordo com o governo.
Pelo acordo os professores do EBTT (ensino básico técnico e tecnológico) terão 4% de aumento para Março de 2012 e mais a incorporação de algumas gratificações ao vencimento básico. O documento não entra em detalhes de como essa incorporação vai ocorrer o que suscitou informações desencontradas que indicavam, inclusive, que o benefício só seria dirigido aos servidores que entraram na rede até 1996. Não sei. Não tenho dados para confirmar ou refutar essa tese.
O fato é que esses primeiros quinze dias de greve me fazem tecer algumas considerações:
- O governo parece ter conseguido desmobilizar de algum modo o movimento sindical das universidades federais. Receber 4% de reajuste em dois anos não gera uma expectativa salarial muito promissora. Mas nossos colegas das universidades talvez não tenham sentido esse peso. Quer seja por imobilismo ideológico, pela divisão da base em dois sindicatos (ANDES e PROIFS), pela cultura das bolsas ou e pela neurótica paranoia da produtividade que arrebata a vida dos professores das universidades públicas brasileiras ou pela compulsão de lattear (por no lattes) tudo que cheire a resultado acadêmico relevante.
- O efeito político da greve já começa a ser sentido no IFRN. O fato dos campi do interior conseguirem manter uma articulação em rede e usarem o fórum do sindicato e o motivo da greve para estreitar suas conexões e fazer a informação correr pelo instituto quebra uma certa insularidade confortável, construída para fazer crer que o IFRN seria um arquipélago de pequenas escolas técnicas, regidas por algum demiurgo oculto no campus central (digo, campus Tirol).
- A atual gestão foi colocada em uma situação delicada diante da greve. Se a greve se manter por mais quinze dias, talvez a demanda externa migre para questionamentos dirigidos à gestão e ao modelo de expansão dos IFs adotados aqui no IFRN. Se a atual gestão forçar a barra para que a greve esmoreça e os servidores voltem ao trabalho antes do ritimo natural do movimento esfriar, vai obstruir as demandas dos servidores, especialmente dos campi do interior, que lotaram as últimas assembleias. Nesse caso, nosso reitor poderia arcar com o ônus de ser considerado pelos servidores que votaram ou que votariam nele, como alguém que é governo, e que age em função dos interesses do governo e não em função dos interesses do IF. O que seria politicamente desgastante. Uma popular sinuca de bico, no dialeto dos amantes dos botequins e do jogo de bilhar.
- As contradições internas do sinasefe vão surgir inevitavelmente no decorrer desse processo. O fato de ser um sindicato que une técnicos e docentes, com muitos interesses comuns mas com demandas também divergentes, aliado a um certo centralismo e distanciamento da direção nacional que se fia em modelos partidários arcaicos, típicos do século XX, fragiliza nosso sindicato. Isso vai exigir que os servidores do IFRN pensem a representação sindical para além dessa greve, discutindo seriamente a possibilidade de se construir dois sindicatos separados ou mesmo estadualizar a nossa representação como foi feito pelos colegas da Paraíba.
- Definitivamente a política no IFRN deixou de ser paroquial. Os desdobramentos da expansão vão fazer com que o olho gordo das cobiças políticas eletivas, que vem do “mundo exterior”, contaminem as disputas internas pelo poder. Hoje a expansão dos IFs não garantem uma vaga no senado, mas dão uma força da moléstia.
Pois é amigo velho. Tempo de greve é assim. São muitas emoções.
Hoje eu vejo, que a minha velha ETFRN, do tempo em que eu transitava de bata azul pelos corredores do velho laboratório de geologia já é mesmo uma foto desbotada no museu da memória. Hoje, os sobreviventes da política no IF vão ter que entender os significados do tempo e o modo como a história se impõe sobre as ilusões dos homens. O time politico passa rápido e de vez em quando, se a gente cochilar, o cavalo passa selado e a gente não monta.