- 26 de setembro de 2011, as 6h06
Outro dia estava caminhando com minha filha Helena (sete anos) pelas ruas de cotovelo e observamos um pai com um filho em cima de uma carroça recolhendo papelão.
Helena me perguntou: “pai, porque eles estão fazendo isso?”. Eu respondi: “É o trabalho deles. Eles ganham dinheiro assim”. Helena olhou por alguns segundos e disse: “Isso é porque ele não estudou, não é?”. Sendo honesto eu respondi do único modo que podia: “talvez”.
Então, Helena, do tamanho da suas conclusões de criança, fechou o raciocínio pensando naquele homem que juntava papelão com seu filho: “Pai? Se ele tivesse estudado e você não, a gente tava na carroça, não é?”.
A grande e fundamental questão sobre a educação pública no Brasil é a de se saber; “Estamos mesmo interessados em que o filho do carroceiro estude na mesma escola que o filho do juiz?”. Há hoje, interesse real dos setores mais influentes de nossa sociedade em oferecer a mesma educação para o rico e para o pobre, para que o filho do pobre possa, um dia, competir com o filho do rico em condições reais de igualdade por uma vaga no mercado de trabalho ou um cargo no serviço público?
A julgar pelo que ocorre na greve dos IFs parece, tragicamente, que a resposta a pergunta ai de cima é um simples e enfático “não”.
Estamos, em alguns estados, a mais de cinquenta dias em greve, com mais ou menos 150 mil alunos fora de aula e nem o Governo nem a tal “Sociedade Civil Organizada” se manifestaram para mudar a situação.
O governo do PT de Dilma, através dos seus jabutis federais de segundo e terceiro escalão, antigos líderes sindicais da CUT que hoje vendem seus serviços para a burocracia do MPOG, diz: “não negociamos com grevistas”.
A tal “sociedade civil organizada”, entorpecida pelo narcótico do consumo dos últimos anos, chapados pela euforia inerte de um crescimento econômico que empurrou setores das classes mais baixas para o paraíso artificial do crédito, não dá a mínima para o clamor dos servidores da educação, a não ser, logicamente, quando paralisam o trânsito na frente da nova catedral do natalense (o Midway).
O fato é que estamos em um momento crucial dessa greve. Se recuarmos agora, o governo terá mostrado que os servidores do IFs ainda padecem de uma desconcertante menoridade política, dependentes das greves dos servidores das UFs para conquistar qualquer coisa que dignifique o trabalho docente, ou que represente uma melhoria real das condições de trabalho dos técnicos administrativos.
Caso isso se concretize, o sinal para o governo Dilma é de que há realmente condições políticas de financiar a expansão dos IFs com o arrocho salarial de quatro anos dos servidores da educação. Caso isso aconteça a expansão se tornará diluição e professores como eu serão obrigados a abrir mão de sua dedicação exclusiva para dar aula em mais uma duas ou três instituições de educação para manter sustentar a família.
Um mecanismo que a professora Amanda Gurgel, em seu discurso na assembleia do RN já demonstrou muito bem como funciona. O que a “sociedade civil organizada” do Brasil precisa entender é que a luta pela melhoria das condições de trabalho dos servidores da educação não é a busca pela manutenção de privilégios. Estamos na rabeira da cadeia alimentar do serviço público federal, com anos luz dos colegas do judiciário, do legislativo e de outras carreiras do executivo federal.
A luta mais significativa dessa greve, mesmo que alguns colegas não tenham consciência disso por inexperiência ou obtusidade na percepção política de longo prazo, é a de se tentar evitar que o que ocorreu com as Escolas Públicas do Estado venha a ocorrer com os IFs em processo de expansão.
Mas isso talvez não tenha importância, não é mesmo? Afinal quem está mesmo afim de, nessa tragicomédia tropical chamada Brasil, ver o filho do carroceiro sentado na mesma sala de aula do filho do juiz?
3 Comentários para “Educação: uma tragédia brasileira”
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Poderia ser do Juiz e também do Deputado, Senador ou Vereador. Acredite o Poder Judiciário erra. Todavia os outros dois porquinhos são muito piores! O executivo e o legislativo talvez sejam muito piores! De todo modo. Bom texto.
Valeu cara! -
Talvez se fosse ensinado cooperação no lugar de competição as pessoas, até aquelas que estão protegidas nos seus castelos de dinheiro pudessem sentir vontade de abrir mão de toda segurança que a diferença lhe fornece.
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A história que o diga, companheiro… Os magistrados estão reinando desde a colonia brasilis.