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  • Pablo Capistrano
  • 10 de outubro de 2011, as 8h08

 

 

Emanuel Lévinas escreveu:

 

“os mortos não enterrados nas guerras e nos campos de extermínio nos fazem crer na ideia da morte sem um amanhã seguinte e tornam tragicômica nossa preocupação com nós mesmos e ilusória a pretensão do animal racional de ter uma vida privilegiada  no cosmos e o poder de dominar e integrar a totalidade do ser em uma auto consciência”

 

Bem, é claro que ele estava falando do Holocausto.

 

 

Mas não falou apenas do Holocausto patrocinado pelo nacional socialismo e sim de todos os holocaustos da humanidade.

 

 

No seu livro Totalidade e Infinito o velho judeu tenta dar uma resposta a Heidegger.

 

A temporalidade que Heidegger nos apresenta em Ser e Tempo é uma temporalidade parcial.

 

Uma temporalidade sincrônica. Na qual o tempo objetivo dos relógios é apreendido pelo Eu como um fluxo, ou a abertura de um campo de possibilidades na qual o presente é experimentado e percebido, o passado é lembrado e o futuro, predito a partir da experiência do presente e da memória do passado.

 

 

Essa é uma temporalidade na qual o Eu se põe com juiz absoluto do mundo. Construtor e guia do real. Edificador do universo em forma de consciência.

 

 

Mas existem outras formas de se apreender a inquietante pedagogia do tempo.

 

 

O tempo pode ser diacrônico. O Eu se relaciona com aquilo que não pode ser construído pela sua própria experiência consciente. Não é dado a ninguém a faculdade de se ter acesso a totalidade do seu próprio passado.

 

 

O passado só nos aparece enquanto ruina, fragmento.

 

Do mesmo modo, não temos como ter contato com o passado dos outros, fora daquilo que a face dos outros nos mostra em nosso presente, porque existem passados que passam por nós sem nunca terem sido presentificados pela nossa consciência.

 

 

 

Não podemos perceber todo o presente. Estarmos conscientes de tudo que simultaneamente ocorre, nem mesmo de tudo o que acontece com todos os outros que nos circundam.

 

 

Experimente pensar nisso um só segundo.

 

Tente imaginar tudo o que está ocorrendo nesse exato instante com todos os outros. Tente reter todo o presente. Não apenas o seu presente, o seu entorno, mas o presente do mundo.

 

Sem chance.

 

 

Não é possível controlar ou predizer todas as possibilidades do futuro. Nem do seu futuro, nem do futuro de todos os outros.

 

 

 

O tempo pode ser anacrônico. O outro nos apresenta esse tempo anacrônico, no qual todos os que ainda não nasceram e todos os que já morreram se desnudam diante de nós, construindo um tempo coletivo, que escapa da nossa competência.

 

 

O outro traz para o Eu que pensa dominar o mundo com sua temporalidade particular uma outra consciência do tempo.

 

 

Por isso os holocaustos da humanidade são tão malignos. A ambiguidade irredutível que mora no coração da morte se torna mais fatal em tempos de holocausto humano, em épocas de genocídio.

 
Só um Eu em delírio, obcecado em eliminar a temporalidade do outro pode construir um holocausto.


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2007 ® Pablo Capistrano

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