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  • Pablo Capistrano
  • 14 de outubro de 2011, as 11h11

 

 

 

Um ano antes de morrer, Billie Holiday entrou no estúdio para gravar um disco. Com arranjos de Ray Ellis e produzido por Irwing Townsend; Lady in Satin acabou sendo seu testamento, apesar de não ser o último álbum que ela gravou.

 

O disco nasceu como uma espécie de apanhado de toda a carreira musical de Billie, com referencias ao cânone da música pop norte americana, temperada pela alma blue de Lady Day, já fragilizada pela tristeza que a mataria um ano depois em 1959.

 

A voz de Billie, segundo os críticos mais ácidos do disco, não retém quase nada do brilho sonoro dos anos trinta e quarenta. É uma voz cansada, destroçada pela vida, cortada pelo amargor de anos de abuso de álcool e heroína.

 

Se você é jovem o bastante para achar que apenas astros de rock, ou divas inglesas de cabelos extravagantes podem morrer em decorrência da própria melancolia que se traveste de crack, cocaína, speed ou heroína preta da china, está muito enganado.

 

Antes de Janis e de Amy Winehouse, o mundo viu Billie Holliday definhar em praça pública e o seu último disco lançado em vida (o penúltimo gravado pela cantora) nos apresenta um paradoxo.

 

Como um disco que traz a marca da decadência física da cantora, que afeta tecnicamente sua voz, pode ser o disco que mostra tão intensamente o sentimento blues da vida?

 

A despeito da voz de Lady Day parecer a de uma mulher de 73 anos (embora ela tivesse 43 em 1958), e da opinião dos ouvidos mais críticos, entupidos por certo purismo técnico, acharem que o álbum não está à altura dos outros gravados pela cantora, eu particularmente penso nele como o mais comovente, intenso e delicado de toda sua obra.

 

Você pode até pensar que eu sou mesmo mórbido, ou que gosto de brincar com o sofrimento dos outros, mas, quando a gente vê um artista olhar bem de frente na cara da morte e transformar essa experiência em arte, pode ter certeza de que algo de muito intenso e significativo, emerge desse processo.

 

Existe uma gravura de Paul Klee chamada Angelus Novus. Nela, um anjo é arrastado pela tempestade do tempo, sendo empurrado de costas, para o futuro. O anjo vê o passado se afastar dele rapidamente. Como um mosaico de ruinas, o que passou se afasta e se perde, fragmentando-se nas imagens borradas da memória. O futuro, que ainda não chegou, soa para o anjo como o estranho desconforto da morte, essa ameaça que se aproxima da gente como um mistério.

 

Somos todos, um pouco como esse anjo. Estamos nessa condição trágica, de sermos velozmente apartados de nossa origem pelo tempo, enquanto somos empurrados, meio cegos, meio surdos, em direção ao desconhecido.

 

Essa impressão trágica da vida pode vir a se tornar melancolicamente prazerosa, quando o poético entra na jogada. Basta ouvir Closer do Joy Division, o acústico do Nirvana, ou Lady in Satin, para saber o que estou falando.

 

A narrativa trágica do anjo de Klee se transforma, quer seja através de um bilhete de suicida ou do lamento triste de quem sabe que a vida é curta e que o tempo passa rápido, num surto lírico de eternidade, quando Lady Day, com sua voz destruída pela vida, empresta às canções de Sinatra, Carmichael, Rodges e Hart, uma intensidade poética poucas vezes vista na música contemporânea.

 

Fraseando Glad to Be Unhappy, ela empresta um significado totalmente novo à canção gravada por artistas tão dispares como Frank Sinatra ou os Mamas and the Papas. Há uma verdade irônica no reconhecimento daquela voz destruída de que alguém pode estar agradecido por ser infeliz. Há uma dimensão de autenticidade poética. Uma lufada de intensidade estética que transforma, rapidamente, a narrativa de uma vida destroçada pela tragédia do tempo, em uma janela de eternidade que nos transporta para um lugar onde a melancolia pode ser suave, onde a tristeza pode fazer as pazes com o prazer.

 

No disco, os arranjos orquestrais de Roy Ellis, ajudam um bocado a produzir um cenário para a voz rasgada de Billie Holliday eclodir. Para os puristas culturais, os combativos militantes da política racial do jazz, a suavidade cristalina desses arranjos torna o disco não apenas mais comercial, mas também mais europeizado, mas palatável a um gosto Pop. Um atestado de fracasso.

 

Eu particularmente não concordo com isso.  Ali, a orquestra, em seu contraponto pop, acaba por destacar a intensidade blues da voz de Billie, como quando ela canta: you dont know what love is/ until you´ve learn the meaning of the blues; na canção de D. Raye e G. Depaul (You Don´t Know What Love Is).

 

Uma canção que não apenas nos dá uma lição, ou um conselho, sobre como apreciar o significado profundo da tristeza do Blues. Ela também diz algo sobre a própria estrutura do disco. Nos fala que não é a matemática técnica das notas, não é a geometria musical, que pode ser posta nas linhas de uma partitura, que constrói o blues. Não é apenas o arcabouço, o entorno, o arranjo, a conjuntura da música que nos oferece a essência da América negra.

 

É sim um amor louco pela vida. Um desejo sem fim pela liberdade perdida na opressão de uma cultura que não aceita o canto do outro, de um universo que sufoca o sentimento de vigor de um povo, subitamente transfigurado na leitura mais exata e intensa de uma tragédia narrativa que une a todos nós.

 

A escandalosa tragédia do tempo. A curiosa poética da vida, que nos ensina a ter saudades, mas também nos ensina a transformar essa saudade em beleza. Amigo velho, o penúltimo disco de Billie Holliday é pra mim, um daqueles discos que a gente tem que guardar na cabeceira.

 

Uma aula de música. Um mergulho na eternidade de uma poesia que um dia se vestiu de voz para nos mostrar que uma vida só nunca é suficiente.


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2007 ® Pablo Capistrano

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