16 out
Dilma e os seus
- 16 de outubro de 2011, as 8h08
Mais de dois meses depois de começada a greve nos IFs pelo Brasil o governo, através de seus cargos comissionados do MPOG ainda mantém o mesmo discurso do início do movimento: “não conversamos com grevistas”.
Após proposta de quase 7% de reajuste aos correios e a sinalização de 9% para os funcionários do Banco do Brasil, poderíamos redimensionar a frase da seguinte maneira: “não conversamos com grevistas da educação”.
Hoje, minha principal preocupação de filósofo é tentar decodificar o sinal que essa frase nos apresenta. Conversando com alguns colegas consegui colecionar algumas apostas.
Tese 01 – provincianismo petista: segundo alguns, o fato do ministro Fernando Haddad ser o pré-candidato de Lula a prefeito de São Paulo, teria mobilizado forças ocultas no MPOG (que atuariam para beneficiar Marta Suplicy e queimar o ministro boa pinta). Um dos sinais que reforçam essa tese é a de que o MEC, a despeito da intransigência do MPOG (que é quem manda no dinheiro), já se sentou com o sindicato disposto a tentar resolver a situação da greve da melhor maneira possível. Se essa ideia estiver correta, Haddad estaria sendo fritado, no processo de purgação das sobras do lulismo, que parece andar em curso no novo governo do PT.
Tese 02 – escolinha de políticos do tio Maquiavel: meu amigo Sérgio Trindade, professor do IF Santa Cruz, defende uma tese mais auspiciosa para os trabalhadores da educação federal. Segundo Sérgio, Dilma repetirá a estratégia de Lula, que manteve um arrocho nos salários durante os primeiros anos de governo, para soltar os reajustes no final, perto das eleições. Lula foi esperto. Evitou perdas acumuladas, se diferenciou de FHC (um nome amaldiçoado no serviço público federal) sinalizando uma política de valorização dos servidores mais perto do momento orgástico das urnas. Segundo o pensamento de que o povo tem memória curta e de que o mal tem que ser feito no início dos mandatos, todo de uma vez e o bem aos pouquinhos, em conta gotas, mantida as mesmas condições de temperatura e pressão econômica, os trabalhadores dos IFs receberiam seu quinhão salarial no fim do primeiro mandato de Dilma, para fechar velhas feridas e animar a militância para mais uma edição do confronto épico-cômico entre tucanos e petistas pelas rédeas do Brasil.
Tese 03 – me engana que eu gosto: segundo essa tese a greve seria produto de uma articulação do PSTU (grande partido de massas da esquerda brasileira, capaz de por exércitos de milhares de servidores federais nas ruas de todo país, com um simples comando de seu líder supremo). Essa seria uma greve partidária e o PT estaria “enquadrando o PSTU”. Dilma e os seus estariam então mostrando aos ex-companheiros da convergência socialista que: “em governo de trabalhador, agitador subversivo nenhum chega assim fazendo greve! Tá pensando o quê?!?”.
Prefiro não comentar essa tese em honra ao bom gosto e a inteligência dos leitores desse Blog.
Tese 04 – Dilma e o lado negro da força: Segundo essa quarta e última tese, a intransigência do governo Dilma sinalizaria uma política pensada de longo prazo. De acordo com essa leitura o governo já teria percebido que a expansão dos IFs pelo Brasil não deu certo (com a honrosa exceção, justiça seja feita, ao Rio Grande do Norte, um dos estados mais avançados no processo de ampliação da rede). Percebendo que construir IFs é caro e lento, sabendo que o mercado exige mais proletários tecnicamente qualificados no mercado para impulsionar o crescimento econômico, cientes de que não é possível forçar os docentes dos IFs trabalharem em sala de aula mais do que as vinte e poucas horas determinadas pela legislação, o governo teria então pensado uma solução mais “econômica”. Arrocharia quatro anos o salário dos trabalhadores da educação obrigando-os a aceitar as bolsas do PRONATEC como uma espécie de complementação de renda.
Assim, os docentes dos IFs trabalhariam suas vinte horas em sala de aula nas turmas dos Institutos Federais (ensinando a cursos integrados, subsequentes, proeja, licenciaturas, graduações tecnológicas, pós-graduações presenciais e a distância) e, para complementar o salário, mais vinte horas nas escolas públicas do estado (aqui terão o nome de CETERNs) ou na rede privada para ministrar cursos técnicos. Trabalharíamos mais umas vinte horas semanais em casa para corrigir e elaborar provas, preparar aulas, estudar para nos manter atualizados, completar nossa formação continuada e ainda atuar com pesquisa, extensão, gestão. Não perderemos a vista dos diversos editais que dançarão a nossa frente como sedutoras sereias seminuas gemendo em nossos ouvidos a palavra mágica “produtividade… produtividade… produtividade…”.
Com 60 horas de atividades por semana seremos então os verdadeiros heróis da nação. Salvadores da pátria. Vamos ser imolados no altar sacro santo do crescimento econômico do Brasil e depois, com um pouco de paciência, reconstruir nossas psiquês esfareladas pelo sistema educacional nos consultórios psiquiátricos Brasil a fora. Com uma ajudazinha de tio Gardenal, madrinha Lexotan e vovô Rivotril.
Amigo velho, eu não sei qual dessas teses é a correta. Mas confesso que estou muito curioso para ver, daqui a quatro anos, o resultado final desse governo. Lembrando a minha velha ETFRN fico com o coração apertado, pensando se realmente fui enganado pela promessa de uma expansão com qualidade e valorização do trabalhador vendida pelo programa eleitoral de Dilma e dos seus. Só lembro do tal ditado árabe que diz: “Se você me engana uma vez, a culpa é sua. Se você me engana duas vezes, a culpa é minha”.
8 Comentários para “Dilma e os seus”
-
Caro Pablo,
Não gosto nem de pensar no futuro do nosso querido IF. Trabalhar sem qualidade e valorização do ensino, eu já passei por esse purgatório educacional. Mas devemos continuar na luta, pois temos de nos fazer ouvidos pelo governo. Afinal, de todas as categorias trabalhistas, a nossa é a válvula propulsora do direito de greve que nos é assegurado, pelo menos, na Constituição da República Federativa do Brasil. Abraços
-
Sábias palavras. Parabéns pelo texto.
-
Prof. Pablo Capistrano,
Estou conhecendo a partir de hj seu espaço de reflexão. Gostei bastante do texto: aberto, provocativo e indicador.
Tb sou professor do IFTO e percebo a realidade, mais ou menos, como a indicada em seu texto. -
Belo texto! Boa reflexão a todos.
-
Acho que fui enganado uma vez e espero não ser novamente. Então, mudarei de opinião e de crença política.
-
E pensar que entrei nesse colégio pensando que por ser Federal nunca entrai em greve
Grande ilusão a minha também em pensar que esse governo seria bom para todos, todos mesmo :/ -
Bom.. Tbm tive esse mesmo pensamento de que nunca ficaria “em casa de bobeira, por causa de greve”, mas essa luta tbm deve ser nossa. Na minha opinião, deveríamos ir às ruas e “gritarmos”! Só assim, para que “o governo” nos escute. Abraço.. e saudades, Professor! ;D
-
A minha grande preocupação é a seguinte: Um posicionamento rígido da Dilma pode nos conduzir a uma ideia de desilusão, e parece que estar acontecendo. A educação nunca foi bem quista pelos governantes, o governo Lula foi uma exceção. Como Dilma é muito técnica, tática e metódica, os primeiros meses estão sendo de uma “repressão” a algumas classes. Imagino, tenho quase certeza, que isto mudará já no ano vindouro. Um viés nisso tudo pode ser a doença do Lula, que pode dar uma autonomia maior a presidente Dilma. De fato, as eleições quando se aproximam fazem os cofres abrirem e os salários reivindicados serem atendidos – ao menos no PT isso acontece, já no PSDB nunca. Será sempre assim, ter que colocar numa balança e ver aquele que fez melhorzinho. Vivemos num país onde não há política séria, as coalizões partidárias mostram isso. Portanto, nobres e heróicos professores, sobreviventes de processos seletivos cruéis, e de processos instrutivos nefastos, continuem com honra. Talvez, um dia, um de vocês ocupem um cargo norteador e dêem subsídios para a classe, e a sociedade. Mas, não se iludam com a política atual não os privilegiarem, daqui a pouco melhora, e este governo é dos males o menor.

