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  • Pablo Capistrano
  • 19 de outubro de 2011, as 7h07

 

No inverno de 1992 eu estava sentado nos bancos da pedra da ETFRN em frente ao ginásio quando um amigo paulista cabeludo que parecia curtir metal chegou para falar sobre música. Ele disse: “Você sabe o que tá rolando em Seattle?”.

 

Eu nunca tinha prestado atenção nisso. Sempre me senti meio anacrônico, e naquele tempo eu preferia ouvir Velvet Underground, The Doors e Joy Division a tentar me atualizar nas novidades pop. Naquele tempo As coisas também não chegavam rápido na província. Não havia internet e os vinis demoravam a atravessar o atlântico.

 

Alguns meses depois comecei a ouvir Mudhoney, Flop, Soundgarden, Alice in Chains, Melvins, Pearl Jam e Nirvana. Naquele tempo aquilo era a coisa mais barulhenta, pesada e absurda que havia aparecido. O som dos caras não era só rápido como o punk, ou apenas pesado como do Metal dos anos 80. Eles faziam uma inflexão a partir do punk, com não mais do que dois ou três acordes por música, mas reduziam a velocidade, dando as suas canções uma densidade que eu nunca tinha ouvido.

 

Havia algo de expressionista naquilo. Toda aquela panfletagem do Hard Core dos anos oitenta e todo aquele niilismo militante dos punks ingleses, defendendo uma bandeira fashion apocalíptica de fim de mundo parecia coisa do passado. Eles eram meio bregas, meio matutos, meio nerds, mas tinham um lirismo cru que jogava na cara da minha geração raiva e amargura, travestida de um sentimento de abandono e rejeição. Mas havia também uma pegada de humor, certo desleixo com os cânones do bom gosto Pop, uma sujeira inocente, quase romântica, que nos oferecia um eco, um canal, uma porta de passagem para as assombrações interiores que trucidavam nossas almas juvenis.

 

Vinte anos depois eu volto a pensar no grunge após assistir de novo o documentário “Hype!” de Doug Pray, lançado em 1996 sobre a cena de Seattle. Volto àquelas imagens dos 90 e penso comigo mesmo: o que sobrou daquilo tudo?

 

A narrativa do que a indústria convencionou a chamar de grunge é a mesma de todas as revoltas culturais da juventude no século XX. Jovens em suas vizinhaças constroem em suas garagens, sótãos e porões um padrão alternativo para se distinguir da massa desinteressante e são descobertos por algum jornalista inglês fascinado por padrões estéticos exóticos. Depois a indústria chega e transforma tudo aquilo em moda, clichês, gírias virtuais, conceitos embalados em papel pop, comodites culturais lançadas no mercado da consciência planetária como produtos do espírito de uma geração e então a revolta vira capital para engordar o bolso de um punhado de espertalhões.

 

Eu acho que o grunge foi sem dúvida o canto de cisne do rock como fenômeno cultural. Hoje, vinte anos depois, muitas bandas ainda se espalham pelo mundo. A utopia alternativa se realizou com o barateamento da tecnologia de gravação e as redes sociais que estabelecem uma comunicação direta entre o produtor da música e o consumidor. Muita coisa mudou, mas aquelas imagens velhas ainda fedem com o espírito adolescente que manteve o rock como vanguarda dos sentimentos da juventude por mais de cinquenta anos.

 

Hoje, vivemos em um mundo sem fanzines de papel, sem compilações em fita cassete vendidas em lojas de vinil, fitas VHS com shows obscuros contrabandeadas de coleções particulares rodando nos videocassetes. Hoje está tudo na rede. Tudo a mão. Tudo com a distância de uma sinapse.  Talvez, em alguma dessas janelas, em alguns desses ícones, em algum desses perfis de redes sócias, se esconda a velha pulsão de rebelião, cheirando, como sempre, com o odor embriagado dos novos adolescentes do milênio.


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2007 ® Pablo Capistrano

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