14 nov
Sexo, drogas e academia
- 14 de novembro de 2011, as 6h06
No verão de 1995 eu tive a oportunidade de conhecer a USP. Viajei à São Paulo com estudantes do curso de jornalismo da UFRN para participar de um encontro nacional de estudantes de comunicação social.
Foram dois dias de estrada. Atravessamos um sertão baiano, que mais parecia a porta do inferno de tão quente e seco. E o pior, o ônibus não tinha ar condicionado e o suposto frigobar apodreceu depois que alguém empurrou junto com o gelo e as latinhas de cerveja uma pataca de salame estragado. Não fosse uma providencial fita K7 com uma seleção sonora de Bob Marley, não teríamos conseguido chegar vivos a Vitória da Conquista, embalados por uma cortina de fumaça e suor.
O fato é que quando cheguei no CRUSP fiquei espantado com a transcendência etílico-farmacológica do ambiente. A USP, segundo me informou meu amigo Robson Braga (que se exilou em São Paulo desde de metade dos 90) parecia uma ilha, em meio a urbe transloucada de prédios, carros e cheiro de oficina mecânica.
Essa é uma característica curiosa das universidades do século passado (ao menos as que fazem realmente jus a esse nome). Era como se tivessem muros invisíveis. Como se na sua formatação houvesse uma espécie de licença ontológica para que os ritmos do mundo se suspendessem e o fluxo do pensamento e da criação humana pudessem apresentar seus frutos.
E isso não é uma característica do Brasil ou da USP. Um amigo norte americano me contava dia desses o assombro que teve ao ser convidado para a primeira festa no campus de sua universidade em Nova York. Ele, um cara que tinha crescido em uma cidadezinha no interior de Nova Jersey, perto das comunidades Amish, não sabia o que fazer quando entrou na cobertura da República de estudantes e viu todo mundo nú, pintados com tintas fosforescentes, ouvindo músicas hipnóticas com batidas eletrônicas exóticas, temperadas por ácidos, alcaloides e etílicos variados.
Se a escola, formatada no século XVI para retirar do interior das corporações de oficio os filhos da emergente classe burguesa, se estruturou na modernidade como instância de controle e disciplinamento social, com suas carteiras dispostas em ordem, suas fardas homogêneas, suas fotos 3X4; as universidades, por sua vez se constituíram como espaços de resistência e de experimentação social, intelectual, existencial. Elas eclodiam no horizonte como instâncias de suspensão da ordem comum, como confrarias secretas, com regras e rituais próprios, que, a despeito de não estarem imunes aos mecanismos de poder, criavam um certo vazio normativo, capaz de oferecer aos membros da sua comunidade a liberdade necessária que as dimensões criativas da experiência humana exigem.
Por isso eu não estou minimamente preocupado se a turma da USP tá fumando maconha, fazendo sexo pelas escadas, viajando em doutrinas e experiências políticas heterodoxas ou mesmo praticando filosofia explícita em público. Pra mim isso não é problema. Nem também tenho dados para julgar se o ato de ocupação dos prédios daquela instituição tinha objetivos políticos viáveis e justificados, ou foi um simples ato de vandalismo, como dizem alguns.
O que me preocupa, amigo velho, é saber que tem gente, dentro da própria comunidade universitária que anseia pela presença da polícia naquele ambiente. O discurso da violência e da insegurança anda tão em alta no Brasil desses dias, com dados estatísticos que fazem os jornais pingarem sangue, e os programas de TV popular gritarem o fim do mundo como nós o conhecemos, que paira sobre nosso belo país tropical aqueles auspícios sombrios de outras épocas, onde armas e agentes da inteligência militar entravam nas universidades para ordenar seus espaços e preencher seus porões com o mesmo silêncio que impunham as ruas solitárias.
Acho que foi Walter Benjamim que disse que todo totalitarismo (quer seja ele fascista, nazista, stalinista ou macarthista) é sinal de uma revolução fracassada.
A revolução democrática brasileira, prometida com a abertura da década de 80, permitiu a minha geração crescer em universidades livres (mesmo que no meu caso, tenha sido o rural, quase neoclássico, setor II da UFRN). È justamente, essa revolução eternamente inconclusa, que começa a dar sinais de profunda fragilidade.
Eu tenho medo, amigo velho, de todo coração, que algum dia essa revolução sucumba ao peso de seus próprios impasses, ao medo da violência social, a desilusão com as instituições, temperada por alguma sacudidela econômica que venha comprometer o consumismo narcótico da nossa santa classe média.
Quando isso acontecer, pode ter certeza, as universidades públicas (se ainda existirem) serão as primeiras a serem ocupadas, com armas e fardas; clamores e gritos de ordem e de progresso.
11 Comentários para “Sexo, drogas e academia”
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A ditadura nunca deixou de existir. Só não enxerga quem não quer!
Será necessário uma nova revolução ou evolução para tentarmos modificar o curso da história! Agora, essa revolução poderá advir de variadas e complexas formas. Agora! Nota 10 é ver os vereadores da nossa cidade do Natal brincarem de justos e éticos edis! De todo modo. Cada homem e mulher tem a sua medida. Importante é ter sorte quando a guerra existe. Risos. Até!
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A USP é uma unversidade pública, portanto quem estuda lá é financiado pela sociedade em geral, e em particular pelos trabalhadores, cuja maioria ganha salário minimo ou menos.
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Quem estuda em uma universidade pública tem ter uma consciencia politica, histórica, um compromisso social, sem essa consciência, não pode ser considerado um universitário, mas um idiota absoluto desses que permeiam a sociedade e que agem não maioria das vezes como selvagens. Quer fumar maconha, usar drogas, praticar o ilicito, faço isso no seu espaço privado, em suas casas,diante dos pais, dos avós, e de preferencia com a aprovação desses. A universidade para o estudante é o local de trabalho. Que empresa aceita que seus funcionários se droguem durante o expediente? Nos anos 60 e 70 uso da droga tinha uma simbologia, ainda como decorrencia do pos-guerra e tambem contextualizada pela Guerra Fria, portanto, expressava irreverencia, contestação contra a sociedade burguesa. Hoje o uso da droga é uma postura conservadora, reacionária e politicamente incorreta, porque alimenta a violencia do narcotrafico. A intervenção ou presença da policia dentro do campos da USP não tem nenhuma conotação ideologica, ou de repressão politica, mas de combate ao trafico e sem duvida garantir a segurança de uma população vive dentro de uma cidade universitária, que necessita de proteção contra a violencia urbana, que em parte tem origem na própria narcoeconomia que domina as grandes cidades do mundo. Acho que no mundo que vivemos de tanta desigualdade, devido a concentração brutal da riqueza, a pauta de luta dos estudante da USP poderia ser mais rica.
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Será?
Amigo. Acorda. Não é preciso ser tão inteligente para ver o óbvio! Sou contra qualquer uso de droga, incluindo o álcool que mata muito mais do que qualquer droga! Veja o final de semana que passou! Agora defender a criminalização ou a repressão! Isso sim é mediocridade!
Outra coisa. A política esta em tudo! Até na flatulência! Com todo o respeito e sorte para todos. -
É meu amigo Pablo é preciso ter vivido isso para entender. E sabe cara, tenho cada vez mais claro que não importa o quão claro sejamos, estaremos sempre falando para as mesmas pessoas. Não sei se isso é bom ou ruim. Na verdade nem sei se isso importa…
Um abraço cara.
Estamos ai…
É preciso recolher os escombros e ir sempre em frente.
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Risos.
Animais falantes é o que somos.
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Sr. Adaécio, parabéns pela clareza do seu comentário!
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A ditadura enquanto regime acabou. Vivemos, atualmente, em um Estado de Direito. O que não acabou foi o capitalismo que é violento ao extremo. Alguns até o confundem com ditadura, confusão essa muito legitima.
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Não amigo. A ditadura nunca deixou de existir. Todos os aparatos estão legitimados implicitamente na própria constituição federal brasileira e na ideologia do regime, como queira chamar. Outro ponto é que os próprios partidos corrompidos, ex: MDB antigo PMDB e outros ainda permanecem no poder. Destacando as pessoas que continuam sendo as mesmas. Deixo só um exemplo: o Sarney. Quanto tempo no poder? Isso não é democracia amigo. Bom, não vou perder mais meu tempo. Abraço. Toda “verdade” deve ser respeitada. Democracia é rotatividade, oxigenação e rotatividade e não petrificação. Bom! Esse é o ensinamento dos nossos antigos pensadores. Valeu!
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NNN, concordo plenamente com você! o capitalismo mesmo em uma “democracia”,é uma democracia burguesa. Do ponto de vista dos oprimidos e explorados é uma ditadura! Valeu pelo seu comentário!
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Beleza Antonio. Democracia burguesa = a não democracia = opressão = violação = desigualdade = hipocrisia = ditadura encapotada. Valeu. Importante mesmo é mudarmos o sistema e alertarmos as classes subjugadas.
