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  • Pablo Capistrano
  • 03 de dezembro de 2011, as 11h11

Foto da demolição do Machadão por Júnior Santos

 

Eu nasci numa cidade antiga, que foi soterrada por um estranho evento econômico, muito semelhante a esses cataclismos que dominam o inconsciente coletivo da humanidade em tempos de Hollywood.

 

 

Ainda existem algumas ruinas da minha cidade, a questão é que elas estão desaparecendo rapidamente, envolvidas pelo mesmo tipo de ansiedade urbana que condenou meu lar ao desaparecimento. O problema é que, como a minha antiga cidade de origem, que nesse exato momento jaz soterrada onde hoje fica a atual capital do Rio Grande do Norte, tinha o mesmo nome da cidade em que eu habito agora (Natal) pouca gente se dá conta que um dia ela existiu.

 

 

Não temos tempo, amigo velho, de prestar atenção na imensa força destrutiva que arrasou essa Natal antiga. Porque essa mesma força de destruição, que derruba casarões da belle époque para fazer estacionamentos, que desconstrói quarteirões inteiros de casas de muro baixo para erguer gigantescos condomínios com garagens subterrâneas, que devasta canteiros arborizados para abrir pistas e viadutos e que espreme as ruas entre imensas caixas de sapato concretadas de gosto duvidoso que alguém mal intencionado nos ensinou a chamar de “prédios comerciais”; essa mesma força, amigo velho, que destrói e mata os rastros da minha antiga cidade, é a força que constrói outra cidade, por cima do cadáver da velha Natal.

 

 

Acho que uma parte dos meus conterrâneos (os anacrônicos moradores daquela Natal soterrada) se tocaram da fúria sem fim dessa ordem econômica que devora o mundo quando desceram pela Romualdo Galvão e se aperceberam daquele vácuo, daquela estranha ausência, daquele vazio empoeirado que ultrapassava os limites da nossa vista, diante do semáforo que nos leva a prudente de morais ou a BR 101.

 

 

O Machadão não estava mais lá, imponente, surgindo como uma flor de pedra que brotava do assoalho de alguma antiga lagoa seca sequestrando a paisagem da cidade como uma onda de concreto.

 

 

Foi derrubado, demolido, destroçado, convertido de volta ao pó. Sintomaticamente dizem (os que entendem de destruições e construções) que partes do que um dia foi o maior e mais belo estádio do meu estado, servirão para a construção de outro estádio, mais moderno, mais arrojado, mais afinado com as marcas dessa nova Natal que surge dos ossos da velha cidade soterrada.

 

 

Amigo velho, nós nunca fomos modernos. Aquilo que chamam de modernidade nunca passou de uma ideia, construída na mente de algum crítico de arte europeu. Sempre fomos esse verniz, essa película, que separa as nossas formas externas do profundo primitivo que se esconde no oco de nossas almas.

 

 

Sempre fui um homem de um estádio só. Até esse ano, nunca havia assistido uma partida de futebol em outro local que não o Machadão.  Se não fosse o América Futebol Clube ter me levado à Goianinha, teria orgulhosamente continuado assim.

 

 

Não lembro o dia em que pela primeira vez que entrei no Machadão. Sei que foi com meu pai, para assistir um jogo América e Alecrim, no tempo da campanha do tetracampeonato de 1982. Depois disso, nos rigores selvagens da adolescência, andei meio afastado, só para retornar durante o acesso à série A de 1996 e a copa do nordeste em 1998.

 

 

Guardo mesmo na memória uma noite de sábado de 2006. A primeira vez que levei meu filho Uriel (com dez anos na época) para assistir América e CRB na campanha de mais um acesso à série A.

 

 

Lembro que ele me disse, ao ver o estádio pintado de vermelho, brilhando com as luzes noturnas dos refletores que se misturavam sinestesicamente ao canto da torcida alvirrubra, desfazendo as fronteiras usuais entre aquilo que de da vista e aquilo que é da mente: “Pai. É muito melhor do que ver pela televisão!”.

 

 

Na segunda parte do Fausto, Goethe nos oferece uma visão fantástica e aterradora da modernidade. Um imenso território global cortado pela maquinaria humana, pela produção econômica, pelo avanço da civilização técnica. Todo um território marcado anteriormente pelas paisagens afetivas e históricas das velhas comunidades humanas enfiado em um moedor de história que transforma a memória em escombros, ossos, ruinas sobre os quais o futuro é eternamente reconstruído.

 

 

Amigo velho… é estranha essa nostalgia que me possui quando vejo o vazio horizonte da minha cidade destruída. Pareço um exilado em minha própria ilha, um estrangeiro em minha própria casa.


9 Comentários para “Fausto em Natal”

  1. Andrelucio Ribeiro6/12/2011 às 12:05

    Nobre Pablo, texto pontual e expressivo. No meu caso, que diariamente transitava na BR 101, a cada dia em que eu notava a lacuna visual se consolidando, era como um soco no baço. Cheguei a comentar para uma funcionária do centro administrativo, que estavam roubando de mim parte de minha vida. Pior, estavam destruindo parte de mim. Ali, vivenciei algumas centenas de situações que despertaram em mim milhares de sentimentos. O senhor ainda levou o seu filho, e eu – que ainda não sou pai- nunca poderei fazer o mesmo. O símbolo de minha adolescência futebolística caiu tão rápido que nem consegui lamentar, caí logo no enterro, não pude velar aquele que também foi meu lar. O “abrangedor” Machadão não existe mais,o estádio moderno deverá ser tão moderno que esquecerá de ser acolhedor.

  2. Daniel Levis7/12/2011 às 6:05

    Impossível descer a Romualdo e não sentir esse vazio. Ainda mais para quem viveu intensamente o Machadão e tem tantas lembranças coloridas em vermelho. É triste, muito triste.

  3. Alberto Cabral20/12/2011 às 10:49

    Lendo tudo isso, estou com receio de aterrissar em Natal daqui a alguns meses … :-)

  4. Pablo Capistrano21/12/2011 às 13:11

    Pois é Alberto, a Natal da copa após três anos de administração da prefeita borboleta micarla de souza, filha do finado Carlos Alberto, está irreconhecivel, melhor se preparar para não sofrer com o choque…
    mas quando estiver para descer aqui entre em contato, estamos todos com saudades…
    ps.: vc vai me ver já na casa nova, abandonei Ponta Negra e me refugiei no bosque dos poetas…


  5. Interessante que os vereadores, nobres Edis não fazem nada para modificar essa triste realidade! Só no “Bosque dos Poetas” para Natal ser mais feliz………..

  6. Pablo Capistrano26/12/2011 às 5:01

    Pois é Thiago, na verdade muitas vezes os edis fazem parte do problema, quando na verdade deveriam estar do lado da solução,
    o foda é que o bosque fica em parnamirim, local de refugio de boa parte dos natalenses hoje


  7. O (foda) – desculpe-me pela palavra de baixo decoro – é que não se sabe aonde começa Natal e aonde começa Parnamirim; é uma misturada danada! Risos.
    É preciso estudar mais para ensinar mais e entender um pouco mais de filosofia para escrever sobre filosofia. Na verdade o mundo precisa de mais gentileza e verdade.
    NOSSA CIDADE PRECISA DISSO. USEMOS MAIS O COLETIVO!
    Thiago Colto Ribeiro.


  8. É AMIGO VELHO.

    CONTRA OS FATOS NÃO HÁ ARGUMENTO!

    KKKKKKKK


  9. Risos. Acho que o Blog ficou calado. Cansou de argumentar e resolveu filosofar. De toda maneira estarei no próximo lançamento.

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