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  • Pablo Capistrano
  • 27 de fevereiro de 2012, as 6h06

 

 

A grande dúvida filosófica expressa na metafísica dos velhos pensadores gregos pode ser sintetizada na pergunta: porque o Ser e não o nada?

 

Essa pergunta fundamental vem maravilhando pensadores, poetas, místicos e cientistas há milênios. Ela tem conotações tão intensas e profundas, que interferem significativamente em nossas construções metafísicas, em nossas crenças, e em nossa fé na permanência do mundo ou em nossa esperança na existência da “vida após a morte”.

 

Diante da ausência, do vazio, da estranha sensação de que algo se perdeu, de que um ente querido, que antes vivia ao nosso lado, partilhava da nossa vida, caminhava conosco, agora não está mais aqui, construímos nossas respostas, nossas alternativas, nossas doutrinas.

 

Mas se o nada é esse abismo, no qual nossas impressões e esperanças precipitam, ele também, muitas vezes, pode ser o nosso mais confortável refúgio.

 

Estive pensando essa semana, amigo velho, nas coisas do futebol. Não houve comentário mais caloroso, espanto mais intenso, assombro mais retumbante nas intermináveis rodas de comentários futebolísticos do que o gol perdido por Deivid, (atacante do Flamengo) na semifinal da taça Guanabara contra o Vasco.

 

Particularmente eu acho que um gol perdido é uma antecipação da morte.

 

O espantoso é perceber como o caso Deivid foi útil para a torcida do Flamengo.

 

A massa rubro negra sublimou a derrota para o Vasco apagando o belo gol de Wagner Love, deletando a infelicidade de Felipe que espalmou a bola nos pés de Alexsandro após o magnifico chute de Juninho de fora da área, sepultando a cabeçada de Diego Souza. Trocamos todos os gols daquela partida pelo gol que não existiu. Escolhemos o nada, ao invés do Ser.

 

Não ressaltamos o que ocorreu. Não permitimos que a primeira derrota do mais querido em um clássico estadual no Engenhão pudesse se fazer sentir. Nos precipitamos no abismo da ausência com uma revolta estratégica que nos ajudou a negar o jogo que assistimos. Não tivemos pudor em chafurdar no vazio, mesmo que, para isso precisássemos imolar um de nossos jogadores no altar de nosso amor irracional, de nossa compulsão inexplicável e tresloucada por um time de futebol.

 

Foi a paixão, amigo velho, que move o coração da massa rubro negra no Brasil, que apagou a derrota para seu maior rival, com aquela antecipação da ausência, com a mórbida radiografia do nada, que emerge em um gol impossível de se perder.

 

A náusea filosófica que tomou conta do Brasil, alimentando explicações, teorias, justificativas morais, julgamentos técnicos dos mais discrepantes, nos levou a inverter a velha dúvida radical dos antigos gregos: como é possível o nada, quando o Ser é inevitável?

 

Deivid, coitado, foi a grande vítima dessa paixão sem fim que faz com que um jogo qualquer deixe de ser só um jogo e passe a ser uma metáfora.

 

Alguns gols perdidos se tornam canônicos por sua beleza abortada (como o de Pelé contra o Uruguai na semifinal copa de 1970), outros, pela sua fatalidade esportiva (como o pênalti que Zico perdeu contra a França em 1986). O não gol de Deivid já entrou no cânone da nação rubro negra por sua função psicanalítica e pela sua radical impossibilidade ontológica.

Nação rubro negra, vamos agradecer a Deivid!

Ele nos ofereceu o nada que nos salvou da derrota.

 

 


3 Comentários para “Deivid: o Ser e o nada.”


  1. Adorei!


  2. Podes crê Pablo. Não cheguei a vislumbrar esta metáfora tão bem descrita por você, mas conversando com um amigo numa calçada esses dias apos o jogo, ele falava: “se Deivid faz aquele gol, poderíamos não ganhar, mas o jogo era outro”. Nesse instante de silencio após a fala dele, pensei com meus botões: “temos pelo menos esse alento, esse instante de liberdade, de imprevisão”. Realmente, esse é um daqueles acontecimentos do mundo do futebol do qual o resultado passa a ser algo meio coadjuvante, similar à fatos como a perda de algumas copas por algumas seleções maravilhosas, como o Brasil de 82 e as várias Holandas que já presenciamos. Momentos que nos fazem pensar sobre questões bem mais gerais, como você muito bem vislumbrou. O futebol, diga-se de passagem, me maravilha desde sempre. Quando vejo um belo lance, me pergunto sempre: “como é possível algo tão perfeito? Por que nada deu errado no trajeto?” O futebol é realmente arte, apesar de todas as maracutaias e interesses escusos presentes, e também filosofia, como podemos observar.
    Isso me faz lembrar de um dos motivos que me fizeram deixar de jogar sinuca. Um deles foi por ter parado de beber. E o outro é o fato de que os parceiros de jogo sempre estavam mais interessados em ganhar do que em se aventurar em belos lances, preferirem a mediocridade à beleza.
    Migrarei esses dias aqui das veredas do Caicó para “sua” esquina do mundo.
    Um grande abraço.

  3. Pablo Capistrano14/3/2012 às 5:28

    Pois é Aadaécio, eu acho que aquele gol perdido de Deivid deveria ter valido dois pontos na partida, o placar deveria ter subido par Flamengo 3 x 1 Vasco. Tamanha a impossibilidade ontológica daquele nada. Lances assim no futebol deveriam ter um bônus impossibilidade, um julgamento de pontuação metafísica para o impossivel, como os gols perdidos por Pelé, poderiam ter um julgamento estético de uma beleza roubada pelo acaso.

    Coisas do futebol e da poesia da bola.
    quando tiver aqui por essa terra de Reis abandonados dê um toque.

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2007 ® Pablo Capistrano

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