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  • Pablo Capistrano
  • 11 de setembro de 2012, as 13h13

 

Não sou torcedor de um time só. Pelo Barcelona, torço por opção político ideológica. Pelo Clube do Porto, por débitos genealógicos que tenho com povo do Douro. Pelo Flamengo, por conversão religiosa após ter presenciado os milagres futebolísticos do time de 1981.

 

Mas se você me perguntar sobre o Ser, em uma apreensão mais profunda, em sua consistência mais exata e abrangente, em seu fundamento mais estruturante eu posso te dizer, amigo velho sem titubear: sou americano.

 

Cheguei a pensar que tal comprometimento ontológico se devia ao fato de meu bisavô (João Capistrano) ter sido um dos homens que participou do processo de construção do América Futebol Clube em uma Natal do começo do século passado. Ou pelo fato do filho dele (Benjamin), e do neto dele (Franklin), terem mantido a linhagem das torcidas americanas pelas décadas seguintes. Ou simplesmente pelas razões psicanalíticas que levam garotos a seguir os times paternos. Esse inexpugnável dever de linhagem do futebol que nos vincula a força arquetípica do pai, da cor, do time, da camisa e do estádio.

 

Mas nem sempre, amigo velho, a natureza das coisas se deixa dobrar a explicações tão simples. Existem mistérios que se escondem nos descompassos do tempo, existem lacunas no entendimento da sequencia dos fatos, borrões na linha que construímos para inventar nossa vida pelo qual o espantoso e o inusitado costumam a escorrer constantemente.

 

Sábado, primeiro de setembro, estava pronto para ir à Goianinha com meu filho Uriel assistir América e Vitória quando Sarah (05 anos), minha filha mais nova, agarrou-se na minha perna chorando. Ela queria ir ao estádio assistir o jogo do América.

 

O curioso é que eu soube que Ana Cláudia estava grávida de Sarah quinze dias depois da morte de minha avó materna, Adélia.

 

Não sei se Dona Adélia chegou alguma vez a ir ao estádio. Entre as idas e vindas do sítio, na zona rural de Patu (alto oeste potiguar), para morar com a gente em Natal, não lembro de tê-la visto alguma vez enrolada em uma bandeira ou trajando a camisa alvirrubra, pronta para ir junto com a massa de torcedores ao estádio. Lembro muito fortemente apenas que ela escutava todos os jogos do América com seu inseparável rádio de pilha sentada em uma cadeira de balanço na sala de estar.

 

Ela não se agitava. Quando o América ganhava sorria com a contenção que a seriedade de vó lhe obrigava a ter e quando o alvirrubro perdia, resmungava alguma praga sertaneja baixinho, para que eu não conseguisse escutar.

 

Seu estoicismo a fez percorrer muitas décadas junto com o América. Nas vitórias e nas derrotas, nas fases de exuberância e nas fases de arrocho ela permaneceu, reta e constante em sua fidelidade ao alvirubro.  A maior parte da vida acostumei a ver minha avó com o ouvido colado ao seu rádio, escutando de longe, aquilo que eu via no campo.

 

Sarah e Dona Adélia não se cruzaram nesta vida. Elas não tiveram oportunidade de partilhar um mesmo tempo. Quando uma chegou, a outra partiu, e entre elas eu fiquei como um elo que ata duas pontas afastadas uma da outra pelos caprichos da ordem natural das coisas.

 

Em meio essa ordem, em estádios, pelas ondas do rádio, junto da loucura doentia de uma patologia brasileira que alguém um dia chamou de futebol, existem esses clubes: símbolos, signos, marcas, imagens oníricas boiando em um fluído de eternidade que parece ser uma das poucas coisas que vence o fluxo demolidor do tempo nesta nossa vida de desencontros e passagens.

 

Sarah foi ao estádio e assistiu todo jogo enrolada na bandeira alvirrubra. Talvez não seja política, nem genealogia, ou mesmo religião que dê conta destes mistérios do futebol. Talvez não tenha psicanálise, neurociência ou alguma teoria sociológica que sirva para dar conta do caráter ontológico que o futebol ganhou neste país. É da natureza das coisas, amigo velho, essa irredutibilidade escandalosa do mundo. É da natureza das coisas essa injustiça temporal que com sua teimosia se acostumou a espalhar e juntar pessoas pelos planos amplos do espaço ou pela irrecuperável sequencia dos dias.

 

Para mim, naquele sábado à tarde, todos estavam lá. Em um surto de desrespeito quântico contra essa mesma natureza das coisas que nos separa, estavam meus mortos, meus vivos e os que ainda não nasceram. Aqueles que um dia, quem sabe, estejam aqui, enrolados nesta mesma bandeira alvirrubra, quando eu já tiver partido. Todos juntos na arquibancada da história como imagens borradas de eternidade no fundo distante do universo.


7 Comentários para “Sobre a Natureza das Coisas”


  1. Que linda menina!
    Abraços Pablo!!

  2. Berg Pessoa14/9/2012 às 16:56

    Não sou alvirrubro(e nunca serei)! Que fique absolutamente claro.
    Mas estou a limpar lágrimas no rosto pela ternura e sensibilidade que seu texto carrega, e isso me tocou fortemente… muito legal amigo… muito mesmo. (me bateu uma saudade doida de minha Bia Linda…) Abraço

  3. Carlos Bahiense15/9/2012 às 18:17

    Amigo Capistrano, sou um novo amigo seu de facebook, indicado por Gabriel Campos. Seus textos sao de alto nível, e com certeza retornarei, outras vezes para lê-los. Parabéns amigo por sua verve literaria. Um grande abraço!

  4. Pablo Capistrano16/9/2012 às 6:51

    Pois é Berg, sei que um homem troca de mulher, de cerveja, de partido político e de religião mas não troca de time de futebol… mesmo assim o futebol, nas rivalidades e convergência pode nos unir nessas memórias e saudades que temos de cada momento radicalmente único desta vida.
    valeu pela leitura amigo.

  5. Pablo Capistrano16/9/2012 às 6:52

    Fico feliz Carlos, que tenha gostado do site, publico sempre semanalmente geralmente terça ou quarta, fique sempre a vontade de frequentar esse espaço e deixar sua opinião.

    um abraço
    que a paz te acompanhe!

  6. Antonio Neto24/1/2015 às 14:31

    Tudo que você escreve, Pablo, é muito cheio de sentimento amoroso, profundidade filosófica e inteligencia! Parabéns!!!

  7. Helena Ramos Bogo27/5/2015 às 3:14

    Bom dia Pablo Moreno, sou prima de sua mãe, meu Pai,Juventino, era irmão de sua avó Adélia. Ontem (26/05/2015) procurei por seu nome para mostrar para meu irmão Heitor, o primo, que foi em busca de nossas origens. Acabou a bateria de meu computador. Hoje, comecei a separar material indígena para uma oficina de maracas que farei daqui a pouco e encontrei o “Santinho de Dona Adélia” (12/05/1921 a 30/11/2006). Abri o computador para ver emails, mas ele reabriu na pagina de ontem…. que linda coencidência. Abraço

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