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  • Pablo Capistrano
  • 26 de novembro de 2012, as 11h11

 

 

Semana passada o mundo do futebol ficou agitado com muitas notícias. Teve a disputa do Super-clássico das Américas entre Brasil e Argentina (apelidado nas redes sociais de “Trofeu Carlinhos Cachoeira” devido ao seu caráter caça niqueis). Teve a demissão do técnico Mano Menezes (que em outras épocas seria um fato comprável a queda do ministro da economia e do presidente do banco central de uma só vez). Teve o clássico rei aqui nas praias de Poty, com um quebra pau antológico entre os jogadores do América e do ABC para tornar mais civilizado o futebol potiguar. Teve a disputa para escapar da última “vaga” no rebaixamento para a série B no campeonato brasileiro da primeira divisão.

 

Foram muitas emoções, mas quer saber mesmo? Tudo isso aconteceu e eu não dei a mínima.

 

O Brasileirão deste ano, ao menos para mim, com o Flamengo patinando, passou em branco. Depois que o América começou a usar o que restava de série B para treinar os jogadores para a próxima temporada também me entediei com a segunda divisão do campeonato nacional e deixei de acompanhar os jogos do alvirrubro para não ter raiva.

 

Em relação à Seleção…. Bem, desde 1982 que não sou torcedor da Seleção, dou, no máximo, em tempo de copa do mundo, um apoio moral.

 

Não se trata de nada ideológico, nem de algum ranço que herdei do esquerdismo de meus pais durante os anos setenta (um tempo em que torcer pela Seleção era sinônimo de apoiar o regime fascista da ditadura militar). A razão é mais profunda, psicológica. Um motivo de natureza oculta e traumática que tem a ver com aspectos muito particulares de minha alma perturbada. Reminiscências que unem a derrota de 82 a certo sentimento fúnebre que avançou sobre mim no final da infância e que me acompanha sempre, anunciando que até a beleza, mesmo em seu mais profundo esplendor, deve morrer, deve passar.

 

O fato é que o que me chamou atenção mesmo na semana passada foi a penúltima rodada da primeira fase da Liga dos Campeões da Europa.

 

Não é militância anti-nacionalista, ou mesmo algum ranço contra a CBF que me faz gostar mais de ver o futebol europeu e que, na semana passada me fez ficar ligado nos jogos do Barcelona e do Real Madrid.

 

Foi um princípio de motim entre os alunos de uma turma do IFRN Zona Norte que me fizeram olhar de modo mais atento o confronto do Real contra o Manchester City e do Barcelona contra o Spartak Moscou.

 

Bastou a professora Marjorie Ramos dizer nos corredores que Messi era melhor do que Cristiano Ronaldo para um grupo de alunos se atiçarem em meio a uma revolta sem fim contra o futebol do nosso “hermano” argentino.

 

Vá lá que é de se compreender o apelo que Cristiano Ronaldo entre as moçoilas em flor, ou mesmo entre os jovens pouco vividos que não assistiram Zidane, Zico, Maradona, Garrincha ou Pelé jogar. Nesses tempos de aridez estética no futebol, é perdoável não reconhecer a genialidade de Messi. Afinal não estamos acostumados a ver todo dia o que o argentino faz com a bola e, quando a gente não tem um contato mais habitual com a arte, temos dificuldade em entender a obra dos grandes gênios.

 

Cristiano Ronaldo é um velocista boa pinta que chuta bem e de vez em quando lança bolas para servir os companheiros com certa habilidade. Isso significa que ele corre muito e que retira a bola do chão e a faz vencer o espaço do campo com seus poderosos petardos e lançamentos transcontinentais.

 

Se o campo fosse uma página em branco, como essas que os escritores costumam a enfrentar sempre que as exigências profissionais ou a inquietação da alma os empurram na direção de um texto, Cristiano Ronaldo seria um desses prosadores rápidos que fazem histórias curtas e obsessivas. Ele não teria fôlego para textos longos, intrincadas narrativas, longas elucubrações descritivas. Seu texto seria conciso e veloz, rápido como os toques de um desses blogueiros que vieram para substituir a literatura de crônicas que nos séculos anteriores enchiam as páginas dos jornais impressos.

 

Toda a poética da bola, em um jogo de futebol, passa pelo modo como o espaço é vencido. O espaço, no futebol, é como o tempo no romance. O cenário onde a narrativa vai se construir. O campo por onde os atacantes avançam e aonde são bloqueados pelos zagueiros que tentam marcar para reduzir o espaço e evitar a construção da narrativa, é como o tempo no romance, a matéria por meio da qual o autor tanto pode fazer fluir a narrativa, quanto trava-la.

 

Messi sabe lançar, sabe correr, sabe driblar, sabe chutar e sabe, como poucos, manter a bola no chão e construir o espaço com sua dança hipnótica.

 

Se Cristiano Ronaldo impacientemente avança sobre o espaço do campo, como um prosador acelerado que precisa construir sua narrativa em toques limitados, Messi não tem pudor em manipular o espaço em um zigue zague que arrasta a zaga adversária, construindo, criando, formando o vazio do jogo como nosso velho Deus artesão que cria o mundo a partir da impossibilidade do nada.

 

É uma covardia comparar Messi com Cristiano Ronaldo. Por mais que os apetites hormonais das meninas e a inexperiência futebolística dos garotos criem seus fanatismos futebolísticos, o craque português, jogador essencial e decisivo nas partidas do Real Madrid, será sempre um grande craque na prosa do futebol. Messi é gênio, na prosa do jogo e  na poética da bola.

 


Um Comentário para “A poética da bola”


  1. Esqueceste de mencionar o narcisismo declarado de Cristiano Ronaldo, que ao fazer um gol, alisa o cabelo e posa para a câmera.O Messi é o Zangado da Branca de Neve, o duplo do Cristiano, o oposto.

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2007 ® Pablo Capistrano

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