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  • Pablo Capistrano
  • 27 de dezembro de 2012, as 5h05

 

 

 

Antes de mergulhar definitivamente na inconsciência eu ouvi a voz de uma mulher. Ela emergiu da vitrola que abastecia com música o pequeno apartamento nas margens da Avenida Engenheiro Roberto Freire, na última noite do ano de 1990.

 

Lembro da poeira narcótica que se espalhava pelos corredores do lugar, com seus quartos quentes, apinhados de gente exalando seus suspiros secretos entre risos, barulho de talheres, copos e pratos. Éramos como pequenas estrelas derretendo no verão de Natal, entorpecidas com álcool e fumo, ansiosos para ver o ano ir embora sem a dolorosa consciência da miséria temporal que devasta todo ano a vida dos humanos.

 

Eu fazia parte da última geração de adolescentes do milênio. Uma responsabilidade assustadora para um sujeito de apenas 16 anos. Talvez por isso, por mais que eu tentasse, não consegui me levantar do sofá e ir até a vitrola fuçar os discos para saber de onde estava saindo aquele som. De que planeta estranho e distante vinha a voz daquela mulher? Que lembrança atávica era aquela, que o som daquele vinil fazia explodir numa alma úmida como a minha? Estava anestesiado pela força dos excessos de fim de ano e acabei adormecendo no sofá, arriando por cima de alguém.

 

Quando o dia retornou iluminando a sala de estar por entre os restos de fumo, comida, copos e corpos adormecidos jogados pelo tapete; tentei recuperar a voz daquela mulher. Mas só tinha um registro vago, guardado em uma memória recente quimicamente já comprometida.

 

 

 

Logo descobri que os discos estranhos que haviam rolado na festa pertenciam à “alumão” (codinome de Alexandre Gurgel que na época era um dos proprietários do bar El Chaco, que ficava na praça das flores, na zona leste de Natal).

 

Quase seis meses depois é que consegui ouvir novamente aquela canção.

 

Era I´ll be your Mirror, na voz de Nico.

 

Uma canção de amor composta por Lou Reed, para aquela que seria, por muitos e muitos anos, também a minha musa. Nico era alemã. Perdeu o pai na guerra, havia trabalhado como modelo e feito vários filmes na Europa (entre eles uma ponta em La Doce Vita, de Fellini). Fazia parte do círculo de figurinhas do submundo cultural que orbitavam a factory de Andy Warhol no final dos anos sessenta. Sua voz era suave, mas tinha uma gravidade imponente, uma austeridade sexual que me arrastava para um mundo paralelo como se fosse o chamado uma velha deidade feminina.

 

Produzido por Andy Warhol, gravado em uma única sessão de oito horas, o vinil The Velvet Underground & Nico produced by Andy Warhol, chegou as lojas em 1967 e foi sumariamente ignorado pelas rádios norte americanas.

 

Remando contra a maré da utopia lisérgica dos hippies da costa oeste, as músicas do VU tratavam de transexualismo, sadomasoquismo, viagens com heroína, solidão e anfetaminas. Tudo isso com uma verdade obscena e uma crueldade poética desconcertantes.

 

Eram as sombras, amigo velho, estendendo sua presença nos subterrâneos da utopia pós-moderna.

 

Os ambientes sonoros tangenciados pela viola elétrica de John Cage e pela guitarra picotada de Lou Reed, não obedeciam às formas canônicas do rock daqueles anos. Estavam, na verdade, antecipando atmosferas emocionais que diziam muito mais respeito a minha geração do que ao mundo dos meus pais.

 

Alguns dias depois de ter ouvido o disco inteiro umas quatro vezes, lá no balcão do El Chaco; perguntei à minha mãe (que havia me apresentado na infância a Hendrix, aos Beatles e aos Stones) se ela conhecia o Velvet Underground.

 

Ela me disse meio sem convicção que tinha ouvido falar.

 

A verdade é que músicas como Venus in furs, All tomorrow´s parties, Heroin, Sunday Mornig nunca fizeram parte da trilha Sonora do sonho hippie. Elas apontavam muito mais para os pesadelos dos anos de ressaca que se seguiram à Woodstock, do que para as esperanças revolucionárias da geração de 68.

 

No final dos loucos anos sessenta muito pouca gente, fora de um círculo restrito de aficionados por experiências exóticas, prestou atenção no disco. Aquela voz, aqueles ambientes sonoros narcotizados, aquelas atmosferas lentas e distorcidas, aquela microfonia desenhada sobre a base de ritmos hipnóticos, era chocante demais para ser deglutido pela indústria cultural do flower power.

 

A massa sonora do VU fornecia o contexto, não só para o surgimento da voz de Nico, mas também para que as histórias bizarras que davam conta do que acontecia no mundo marginal dos junkies e dos freaks pós-modernos, pudessem ser narradas por Lou Reed.

 

Reed roubava o fraseado folk de Bob Dylan, para deixar passar a poética punk que cantava o lado selvagem das ruas de Nova York. Como um bardo do lado negro da força, soltava sua crônica de um mundo ainda marginalizado de travestis, junkies, traficantes, artistas de vanguarda, adolescentes sadomasoquistas, celebridades microscópicas que circundavam o zoológico particular de Andy Warhol.

 

 

O fato é que pouca gente ouviu o disco, mas quem ouviu (como disse Brian Eno) formou uma banda. Do Velvet nasceram o Television, o Talking Heads, o Joy Division, Jesus and The Mary Chain, Sonic Youth, My Blood Valentine. Todas bandas que fizeram a cabeça da parte mais descolada da minha geração de adolescentes de fim de século.

 

Ainda hoje, mesmo distante dos ambientes que formaram meus delírios juvenis não consigo deixar de lembrar o impacto que a descoberta do VU me proporcionou.  Se ainda existir, no futuro, um lugar canônico para a grande arte do século passado, o Velvet Underground & Nico terá seu espaço, mesmo que seja estranho, mesmo que seja bizarro… bizarro.


2 Comentários para “Nico e o Veludo Subterrâneo”

  1. Alexandre Honorio30/12/2012 às 14:33

    De longe é meu disco favorito e, pasme, descobri em uma festa igualmente “estranha” com as pessoas certas.
    É um disco para poucos: cru, mas indispensável…


  2. Ah…. o El chaco. fez parte da minha formação pessoal e musical tbm. Até hoje o baterista do general lee (na época) me deve um album de vinil do The clash e do siouxies and banshees desse mesmo bar. Herança da noite de garçonete.Vc e esses dias bons.

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2007 ® Pablo Capistrano

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