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O poder que não pode
- 02 de janeiro de 2013, as 13h13
Oito anos atrás fui ao Teatro Alberto Maranhão na Ribeira, para ver a posse do então prefeito reeleito de Natal, Carlos Eduardo Alves. Apesar do filho de Agnelo ter sido o astro principal daquela festa, quem roubou mesmo a cena foi sua vice, Micarla de Sousa.
A jovem promessa da política potiguar, herdeira da retórica sentimentalista do pai (finado senador Carlos Alberto de Sousa); falou com voz mansa e levou, ao fim do seu discurso, mais da metade do teatro às lágrimas. Surpreso, virei para minha esposa (Ana Cláudia) e disse: “essa menina ainda vai ser prefeita de Natal”.
Não era um vaticínio político, nem mesmo um sortilégio maligno para a cidade em que nasci e que tanto amo. Era uma constatação empírica, concreta, do potencial de sentimento que aquela voz mansa poderia despertar nas massas potiguares. Com sua retórica de sereia e seu jeito ingênuo de órfã desprotegida, Micarla de Sousa seduziu a cidade e catalisou a revolta que o natalense sentia diante de um acordão espúrio (parafraseando o mestre Vicente Serejo) que juntou PT, PSB e PMDB em um mesmo palanque no ano de 2008. Um teatro de fantoches que serviu de ante sala para a grande queda do vilmismo, como havia previsto, em seu leito de morte, o ex-ministro Aluísio Alves.
Oito anos depois, Carlos Eduardo volta a tomar posse como prefeito de Natal, e a figura de Micarla parece ter desaparecido (quem sabe definitivamente) do mapa político da cidade. Varrida por uma onda que liquidificou em uma mesma vitamina explosiva: caos administrativo; denuncias de corrupção e uma incompetência política gritante; Micarla sumiu do palco do TAM com a mesma velocidade com que entrou no cenário do poder potiguar. Ela desapareceu sem nunca ter conhecido, nas urnas, o gosto de uma derrota.
Em seu testamento (uma entrevista de mais de sete horas à Clarie Parnet), o filósofo Gilles Deleuze fazendo referencia à Nietzsche, nos alertava para uma verdade: “Todo poder é triste”.
Pois é, amigo velho… pense numa verdade! O poder é triste porque é, antes de tudo, uma negação.
O poder só se realiza quando bloqueia a força biológica vital que se manifesta do desejo do outro. Mesmo quando permite, mesmo quando consente, mesmo quando diz “sim” o poder assume que antes já havia negado.
Se eu preciso pedir permissão a alguém para fazer alguma coisa, obter alguma coisa, querer alguma coisa, sonhar alguma coisa, é porque antes da permissão eu não podia fazer, obter, querer ou sonhar por mim mesmo. O poder rouba minha vida quando bloqueia minha força, quando restringe meu desejo, quando limita minha vontade e quando impede meus sonhos.
O que fascina no poder é esse prazer sadomasoquista de negar a negação. De permitir o que antes era proibido. De consentir, o que antes já estava negado. Por isso, todo poder caminha junto com esse prazer triste que une o senhor ao escravo.
O que mais me espanta no caso Micarla, é como esse sadomasoquismo do poder conseguiu, durante quatro anos, paralisar quase um milhão de natalenses.
Que tipo de magia negra é essa que bloqueia a força vital de uma cidade e impede que seus cidadãos, escravos do poder, súditos de uma rainha perdida em um mundo paralelo, se revoltem e destituam um simples prefeito de província? Que tipo de conivência une os praticantes do poder oficial, em uma cegueira institucional que busca manter circunstâncias que não se sustentam? Que tipo de cálculo mesquinho faz o poder sacrificar em um comodismo eleitoral medíocre, a economia, a autoestima e o bem estar de uma cidade?
Seria a confiança na democracia? Seria a paciência resolvida de um povo que tem fé nas eleições e que aguardava diuturnamente o momento de “dar a resposta nas urnas”? Ou seria algum tipo obscuro e pouco consciente de deleite masoquista que domina as massas diante de seu próprio flagelo?
O caso Micarla será estudado no futuro e quem sabe, algum sábio, mais instruído do que eu na arte de sondar os bastidores do poder, possa nos decifrar o mistério que se esconde nos anos sombrios da gestão que se dissolveu em 2012.
A impressão que tenho, oito anos depois, no mesmo teatro, assistindo a posse do mesmo prefeito que assumiu em 2004; é que a história é mesmo feita por indivíduos, mas não é feita, de modo algum, da maneira como eles pensam que estão fazendo.
O desaparecimento de Micarla de Sousa mostra que, como pensava Nitezsche, tanto para os senhores quanto para os escravos, todo poder é triste. Mas o colapso da cidade durante a gestão que acabou este ano, também nos aponta outra verdade, mais terrível e mais afeita à sabedoria dos velhos coronéis do sertão: “mais triste, é o poder que não pode”.
5 Comentários para “O poder que não pode”
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Meu nobre e velho sobrinho dentro de sua inteligência fantástica,descreveu todo trajeto de um(a) líder que caiu em colapso,motivado por uma gigantesca estrutura de incompetência,aliada a um grupo de maus feitores, do qual em tempos atrás teria sido atropelada por um rolo compressor,que repúdiou aquele acordão para beneficiar a mais ilustre do PT em nossa terra potiguar… A vigança sobre Natal não veio a cavalo,depois de 04 anos surgiu o salvador.
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Sem politicas públicas detalhadas, mostrando deste a fonte dos recursos até o público alvo, demonstrando que as ações do governo são factiveis, são possiveis, pode levar ao sucesso de um governo, do contrário é demagogia ou o poder pelo poder, o aparato pelo aparato, sem funçãomhistótrica nenhuma.
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Como dizia o grande poeta brasiliense TT Catalão: “Quem pode, pode. Quem não pode, poda!” A política não perdoa os ingênuos! “De boa intenções o caminho do inferno está cheio” Quem tem o poder, tem de exercê-lo, do contrário vai para o lixo da História!
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caro pablo, realmente a apatia do povo natalense deverá ser algo de estudo.. até parece pairar um “Tô-me-lixando-pra-isso-não-resolvo-mesmo-deixa-pro-outro.”
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Vicente Serejo mestre? Meu caro, fico imaginando o caráter e a dimensão intelectual dos outros mestres natalenses!!!

