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  • Pablo Capistrano
  • 03 de março de 2013, as 13h13

 

Não sei se aprendi a gostar de futebol porque assisti Zico jogar ou se virei fã de Zico porque gostava de futebol. Não há como diferenciar, nas mitologias de minha memória, uma coisa da outra.

 

Nasci, amigo velho, muito longe das capitais. Vim ao mundo num tempo em que a camisa dos clubes ostentava apenas seus brasões, suas cores sagradas e o número de seus heróis. Um tempo em que o uniforme de um clube de futebol era tudo, menos um folheto promocional de rede de supermercados.

 

E era a camisa dez da Gávea, nos anos 80, que monopolizava a atenção de uma geração de garotos que se acostumou a sonhar com as glórias do futebol e a reproduzir, no teatro dos campos de pelada, a épica dos grandes confrontos da bola.

 

Lembro que em 1982 meu pai me comprou um álbum de figurinhas da copa da Espanha que trazia também uma tabela para anotar os resultados dos jogos. Eu tinha oito anos e acompanhei todos os jogos que pude daquela que foi, para mim, a tomada de consciência do que o futebol significava para minha gente. Marcava o placar dos jogos e depois os encenava, na garagem da casa dos meus pais em Mirassol, em um teatro solitário, apenas com uma bola e toda a minha fantasia de criança.

 

Naquele tempo, eu já sabia quem era Zico por causa do mundial de 1981, mas ainda não compreendia bem o que ele fazia com a bola. Com a atenção que a infância permitia, podia apenas contemplar, na sala de TV, a aflição dos adultos que acompanhavam, entre um copo e outro de cerveja, um prato ou outro de tira gosto, no vai e vem de uma euforia dançarina, cada um dos jogos da Seleção (que faço questão de grafar, em homenagem àquele time, com “S” maiúsculo).

 

 

 

 

No dia da tragédia de Sarriá, Natal amanheceu nublada e a chuva que caiu sobre a cidade anunciava a tristeza do país. Naquele dia, meu pai chorou o lamento alcoólico dos derrotados, abraçado à seu amigo Maurilton Morais enquanto eu chorava minha primeira grande amargura com Klaus, filho de Maurilton.

 

Quatro anos depois, eu já compreendia a beleza do jogo de Zico, apesar de não conseguir interpretá-la. Como anunciou Martin Heidegger, no livro Ser e Tempo, de 1927, toda compreensão vem antes da interpretação. Toda compreensão é atávica, inerente, existencial, total, inteira, completa. As interpretações, amigo velho, fragmentos do atrevido pensamento, são ínfimas elaborações racionais, muito miúdas diante daquilo que a vida nos oferece cruamente, desde sempre.

 

No futebol, o espanto com a beleza do jogo de Zico e de sua geração de craques, me levou cada vez mais fundo no meu amor pelo Flamengo (meu único e verdadeiro ismo ideológico, minha única e insuperável loucura religiosa).

 

Até hoje, tenho imensa dificuldade em interpretar a figura de Zico, porque para mim, ela sempre estará unida, em sua humanidade radical, ao espanto mitológico do meu mundo de sombras infantis.  Confesso que Zico me prejudicou, porque até hoje, não consigo mais assistir uma partida de futebol sem procurá-lo pelo campo.

 

Tive prejudicada a agudez dos interpretes analíticos do jogo de bola, comprometido o olhar técnico dos que classificam a tática e a técnica dos times com o rigor cirúrgico dos clínicos do esporte. Fui contaminado pela poesia de Zico e acabei preso na nostalgia de um espanto estético primitivo que o futebol do Galinho e dos seus companheiros, me ofereceu no alvorecer da minha vida, naqueles anos 80 de fábulas e utopias.

 

Hoje, Zico faz 60 anos. E eu, um sujeito dobrando a esquina dos quarenta, me sento diante da tela desse computador para pensar, enquanto escrevo essa crônica, que, se as nações tem espírito, se os povos tem caráter, é no futebol que o brasileiro se reconhece. Se isso for mesmo verdade, talvez seja tempo não apenas de agradecermos à Zico aquilo que ele nos proporcionou, mas de voltar aos fundamentos de seu futebol, e ao exemplo de sua vida, para reaprendermos, seguindo seus passos, acompanhando seus dribles e seus chutes, o caminho que nos leva de volta ao centro irredutível de nosso próprio ser.


2 Comentários para “Uma vida chamada Zico”


  1. Foi uma delícia ler esse texto porque me fez recordar D+ a década de 80, minha infância e tudo de bom que nela teve, incluindo o ZICO.

    Apesar de nessa época a reestruturação do capitalismo já ter sido deflagrada desde a década de 1970 nos países centrais, por aqui e em muitos outros lugares, graças ao tempo lento, a vida era simplesmente vida.

    É muito triste evidenciar a mercantilização dela [a vida] e o espraiamento de toda lógica do capitalismo para todas as esferas da vida social, incluindo nosso futebol.


  2. Zico foi um excelente cobrador de faltas. Só. foi três copas do mundo como jogador, o Brasil perdeu em todas. Em 98 foi de novo, na comissão técnica, o Brasil perdeu de novo;
    Foi um perdedor com a camisa da seleção, Belo texto, porém zico é bem menos belo que seu texto. Só elogia zico, os flamenguistas.

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2007 ® Pablo Capistrano

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