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  • Pablo Capistrano
  • 08 de maio de 2013, as 7h07

 

 

Em uma entrevista publicada na revista CULT no ano passado, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman apontava para as distinções entre dois tipos de sociedades. De um lado, havia as sociedades de caçadores, de outro, as de jardineiros. Os caçadores mantinham viva uma confiança intensa na ordem natural das coisas. Para eles a natureza era fundamentalmente ordenada e boa, e isso se manifestava na medida em que entravam na mata para caçar o alimento que sustentaria sua tribo.

 

 

O alimento estaria sempre lá, porque a natureza, em seu ritmo cíclico, se renovaria e os seus frutos estariam sempre à disposição dos homens. Bastava algum esforço para colhê-los, nada mais.

 

 

Para os jardineiros, a coisa era mais complicada. Desconfiados da ordem natural e da harmonia do mundo, esses abnegados trabalhadores entendiam que, sem uma intervenção criativa, sem um trabalho árduo, sem uma ação pensada, a terra não poderia oferecer seus frutos. Era preciso tornar a natureza fértil, para que os frutos do jardim pudessem brotar. Seria preciso engenho e arte para manter a sobrevivência da tribo. Ao contrário dos caçadores, os jardineiros sabiam que as coisas nem sempre serão como sempre foram.

 

 

Para quem não acompanhou os jogos da Champions League esse ano, essa história pode parecer sem propósito. Mas, quem assiste o futebol europeu e o compara com os campeonatos nacionais e regionais no Brasil da copa, sabe que ela faz muito sentido.

 

 

 

 

Não é apenas pelo fato de que os alemães desbancaram os dois maiores times de Espanha (país que dita às regras do futebol nos últimos anos). O milionário Real Madrid, caiu de pé no Santiago Bernabeu, diante de um Borussia Dortmund montado a baixíssimo custo (para os padrões europeus). O Barcelona, time que redimensionou o modo como o futebol é jogado nos últimos anos, foi arrasado por um Bayern de Munique, que atravessou como uma jamanta pintada de vermelho, o futebol catalão nas semifinais. A pergunta que a gente se faz é: como os alemães aprenderam a jogar assim?

 

 

A resposta foi dada mês passado por Paul Breitner, em uma entrevista concedida a ESPN. Nessa fala Breitner contou como os jardineiros alemães reconstruíram seu futebol após o fiasco germânico na Eurocopa de 2004.

 

 

Breitner, expoente da geração campeã mundial de 1974, e uma espécie de “embaixador do futebol do Bayern”, apontou para o principal erro dos alemães: se acharem os melhores do mundo após o tricampeonato mundial de 1990. Esse erro levou o futebol alemão a uma década de ostracismo.

 

 

Cientes de que precisavam mudar começaram a tomar medidas para transformar a estrutura do futebol teutônico. Fortaleceram a Bundesliga e implementaram um sistema de treinamento para jovens de 12 e 13 anos. O objetivo era claro, aliar a força e a velocidade tradicionais do futebol alemão, com a técnica e a habilidade demostrada pelos jogadores espanhóis e sul-americanos. Se antes os alemães achavam que podiam ganhar tudo jogando com 70% de força e 30% de habilidade, hoje eles sabem que mesmo no veloz futebol europeu, preparo físico não é tudo. A busca pelo equilíbrio entre as características do velho estilo alemão (na minha infância se dizia que os alemães jogavam alguma coisa que parecia com futebol, mas que funcionava) com a técnica e a habilidade dos jogadores sul-americanos está no cerne da transformação futebolística que levou a geração do Bayern e do Borussia Dortmund de 2013.

 

 

É esse trabalho de jardineiro que o povo de Paul Breinter empreendeu. Os alemães se convenceram que arte também se aprende, e que ninguém pode imaginar que um país é uma eterna selva na qual os talentos naturais são colhidos como frutas no pé. O resultado é uma geração de grande jogadores como Schweinsteiger, Tomas Müller, Lahm, Ozil, Mario Götze, Marco Reus. Uma geração de jogadores prontos para fazer a Alemanha voltar ao topo do futebol mundial.

 

 

E nós? O que Breinter tem a dizer sobre o futebol brasileiro? Perguntado na ESPN sobre nosso destino ele sentenciou: “vocês não tem que mudar sua seleção, vocês tem que mudar seu futebol” e completou com uma dura verdade: “Hoje ninguém tenta jogar como os brasileiros jogam”.


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2007 ® Pablo Capistrano

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