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  • Pablo Capistrano
  • 07 de junho de 2013, as 7h07

 

 

Dizem que existem três grandes maneiras de se obrigar alguém a fazer algo que não quer.

 

Uma delas é força-lo a fazer algo em função de um bem maior. Uma causa, um objetivo nobre que pode ser a liberdade, a democracia, justiça social, a emancipação dos povos, amor a pátria, ou qualquer outra desculpa que justifique um regime totalitário.

 

 

Outra é fazer com que o sujeito acredite que quer fazer aquilo. Esse é um modelo extremamente sofisticado e bastante usado em democracias liberais. Você cria a necessidade e vende a ideia da opção. Obriga o sujeito a fazer algo que não é do seu próprio interesse e constrói o discurso que ele está fazendo aquilo porque quer; que aquilo é fruto do seu desejo mais íntimo, realizado pela sua sagrada liberdade de escolha.

 

 

Uma última e mais rudimentar forma, é a de simplesmente emitir um comando.

 

O que fundamenta o comando é o poder hierárquico prévio que foi posto por uma ordem instituída, que não precisa se justificar. Esse tipo de mecanismo é muito comum em ordens fechadas como igrejas, sociedades secretas, empresas privadas (que às vezes usam também as outras duas ferramentas na complexa arte de “gerir pessoas”) ou instituições militares.

 

 

O estranho é imaginar que nas escolas públicas brasileiras que, em tese, após a constituição de 1988 deveriam usar a estratégia liberal-democrata de dominação, usem mecanismos autoritários como esses do terceiro tipo.

 

 

Mas eles aparecem, amigo velho, quase sempre como atos falhos dos gestores, que, em um momento de descuido, permitem que o verniz democrático de seu discurso se descortine e faça emergir o substrato que ainda está latente no Estado nacional; expressão do autoritarismo que sobrevive na sociedade brasileira.

 

 

Voltamos às aulas no IFRN com a notícia que o CODIR (Colégio de Dirigentes da Nossa Instituição – mistura de nomenclatura com colégio de ministros) decidiu, sem nenhuma discussão anterior com a comunidade escolar, durante as férias docentes, mudar o regime de permanência dos professores nos campus de três para quatro dias.

 

 

Não é o caso de entrar no mérito da questão acerca do tempo em que um professor deve permanecer dentro de um campus. Essa é outra discussão que tem a ver com uma compreensão bem mais profunda das dimensões pedagógicas do trabalho do professor. O problema é outro.

 

 

A gente sabe, amigo velho, que os IFs não são criações Ex-nihilo. Eles tem uma história, uma tradição, que os vincula às antigas escolas militares de engenharia do século XIX que, fincadas na égide do positivismo político, construíram as bases do ensino técnico no país. Sabemos também que, enquanto as Universidades Federais se estruturaram como uma zona de exclusão acadêmica que permite uma maior liberdade e autonomia docente após o fim do regime militar, as Escolas Técnicas (e eu fui aluno de uma delas) e depois CEFETs, nunca conseguiram se libertar do modelo autoritário e centralizador que definiu a estrutura do Estado brasileiro.

 

Somos ainda, uma escolinha.

 

 

Mais é lógico que hoje, no Brasil pós 88, nenhum representante do Estado, em seu juízo perfeito, pode se dar ao luxo de dizer, como o General Dalle Coutinho (Ex-ministro do Exercito na época da ditadura): “o negócio melhorou muito quando começamos a matar”.

 

 

O Estado mata, mas não pode dizer que mata. A escola ainda é autoritária e centralizadora, mas precisa sustentar o discurso que é democrática. Essa é a natureza ideológica do regime que construímos.

 

 

É preciso pensar que decisões como essa do CODIR, são atos falhos do sistema. Momentos em que surge uma fissura no discurso padrão de liberdade democrática e uma natureza substancialmente autoritária se mostra em sua crueldade obscena. Precisamos agradecer aos gestores do IFRN pela chance que nos ofereceram de entender a natureza do modelo que estamos construindo para os IFs Brasil a fora.

 

 

Mas não é momento para desânimo. Se a ordem estatal é corrompida pelo autoritarismo da sociedade que diz servir, é momento de permanecermos dentro dela, para dar aquela “torção complementar” que falta, fazendo, como diz Zizek “o Estado funcionar de modo não estatal, a semelhança do modo como a poesia ocorre na linguagem”.

 

 

A poesia torce a linguagem e a obriga a dizer a verdade sobre ela mesma. Do mesmo modo, que a ação política no interior do Estado, deve fazer com que a moral da máscara se dissolva, para que possamos ver a desconcertante obscenidade do real.

Mesmo que ela seja de um autoritarismo assim, tão simplório.


12 Comentários para “A Moral da Máscara”


  1. Mais um texto sensacional, Pablo. Gostaria de vê-lo circulando pela lista de e-mails, daria um caldo bom nas discussões.


  2. Prof. Pablo, Meus parabéns por tão belo texto e também por seu caráter esclarecedor para aqueles que desconhecem ou minimizam a importância da História para nossas vidas.


  3. Parabéns pelo texto, professor.


  4. E obrigado pela oportunidade de lê-lo.

  5. Valeska Silva9/6/2013 às 7:33

    Minha admiração pela sua lucidez e precisão de expressão não cansa de ser renovada. Parabéns!!


  6. Caro Pablo, mais uma vez, só temos que parabenizá-lo pela excelente análise do nosso cotidiano. O texto, além de esclarecedor, ficou muito belo. Parabéns!

  7. Anibal de Macedo9/6/2013 às 11:56

    Excelente texto!
    Não podemos aceitar nem deixar que afirmações como a que foi feita na reunião do consup onde a luta dos docentes foi dita menos digna, batendo-se na mesa e bradando: “vão trabalhar, vão trabalhar”, seja tida como normal!

    Precisamos identificar e confrontar essas pessoas. O poder que elas tem é frágil frente ao poder da maioria.

    Não se calem frente à afirmações medíocres, exponham suas afirmações para o público!


  8. Saudades das conversas, meu amigo. Indicaram o texto e eu vim conferir. Ótimo e com a acidez no ponto. Precisa-se assumir as posturas. Democracia, demagogia ou autoritarismo?

  9. Pablo Capistrano11/6/2013 às 6:35

    Pois é Guilherme, temos que entender que os tempos são outros, hoje o IF não é mais a ETFRN – não dá pra resolver as coisas a portas fechadas, especialmente aquilo que afeta a vida de tanta gente. Esperamos você na zona norte amigo, todos torcendo pelo seu restabelecimento. Abraço grande!

  10. Kalina Paiva12/6/2013 às 10:27

    Gosto dessa forma com que você constrói seus textos, aproximando o leitor da palavra como semente que é lançada em terra fértil.

  11. Kalina Paiva12/6/2013 às 10:29

    Outra coisa: fiquei feliz porque, no espaço destinado à Literatura Potiguar, na Nobel da Salgado Filho, existe uma epígrafe estampando a linguagem literária. Adivinha por quem foi escrito o fragmento. Deixarei você ir lá para ver…

  12. Arlindo Ricarte25/6/2013 às 1:44

    Que alimentes sempre as nossas reflexões amigo Pablo. Um grande abraço.

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2007 ® Pablo Capistrano

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