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  • Pablo Capistrano
  • 04 de julho de 2013, as 8h08

Eu não tinha a intenção de emitir nenhuma opinião sobre as manifestações dos médicos que ocorreram por todo Brasil no dia 03 de Julho deste ano da graça de 2013.

 

Primeiro porque não tenho nenhuma opinião consistente para passar sobre as questões de saúde pública brasileira que não seja a constatação empírica de que ela é ruim. Como sigo o pensamento do grande filósofo Raul Seixas, prefiro ficar calado a expor aquela “velha opinião formada sobre tudo”.

 

Depois porque sou filho, genro, sobrinho, cunhado e irmão de médicos (minha irmã caçula está terminando o curso de medicina no Rio) e qualquer opinião que emitisse poderia ser lida pelos geniais hermeneutas do twitter como sinal de algum tipo de corporativismo nepotista obscuro. Na fauna das redes sociais sobra o tal argumentun ad hominem, pronto para ser usado pela turma do onanismo retórico sub-16 para desqualificar pessoas ao invés de ideias. Com quase 40 anos de idade minha tolerância a esse tipo de expediente está cada vez mais estreita, por isso havia decidido apenas observar as pelejas virtuais entre os “pro” e os “contra” qualquer coisa e só comentar o assunto em mesa de bar.

 

A questão é que, antes de dormir, resolvi dar uma passada no resumo dos twitters do dia e acabei vendo as reações aos comentários que meu amigo Carlos Fialho havia postado na rede. Confesso que fiquei espantado com alguns conteúdos, especialmente aqueles que continham ameaças graves ao escritor, coisas do tipo: “médico bom anda com anel de formatura, faz o juramento de Hipócrates e tem o santinho de @cfialho para a triagem no posto” ou “mas @cfialho um dia vai precisar da gente e eu vou lembrar da sua linda fisionomia”, como mostrou em um resumo bem detalhado o jornalista Daniel Dantas Lemos em seu blog

http://www.blogdodanieldantas.com.br/2013/07/um-dia-vai-precisar-da-gente-e-vou.html

 

Faz tempo que o twitter exala um estranho odor fascista de intolerância, expressão da incapacidade da sociedade brasileira de permitir a divergência, e de um mau humor politicamente correto que toma conta do mundo nesses tempos de psicose liberal.

 

O que a turma fialhofóbica do twitter precisa compreender é que piada se combate com piada, e que uma sociedade que rejeita o humor cria campo fértil para a violência frutificar.

 

Mesmo que você ache o humor de Carlos Fialho cínico, sarcástico, de mau gosto, é necessário que você saiba que quando você perde a compostura e sai do sério Fialho triunfou sobre você. Lembre-se que ele agora é o senhor da sua alma e que provavelmente você será transformado em zumbi no próximo livro da série “Uns contos de Natal”.

 

Esse mau humor em rede, essa incapacidade de permitir a divergência essa tendência de combater a ironia e a piada com ameaça é um sintoma preocupante de nossos tempos, nessa imensa fazenda chamada Natal. Quando a piada ameaça é sinal de que o humor atravessou uma fronteira perigosa, e que ele tornou explícito aquilo que se busca manter oculto.

 

É por isso que eu admiro o trabalho de Fialho, mesmo quando discordo das ideias que ele defende. Não é fácil se expor ao risco de desempacotar os conteúdos ocultos, guardados sobre o verniz de civilidade do discurso da classe média potiguar. Em último caso, se Natal não aguentar o tranco do humor de Fialho, já me ponho à disposição para encampar uma campanha virtual pela integridade física e psicológica de nosso camarada de labuta literária (pode me chamar de corporativista agora, vou gostar).

 

Já que Fialho perdeu a oportunidade de se refugiar no avião de Evo Morales que aterrissou ontem em Fortaleza, estou a disposição para ajudar meu amigo a conseguir asilo político na embaixada do Equador.

 

Ps.: não se esqueça, todo apoio virtual é importante nessa luta pelo direito fundamental de expressar uma opinião e contar a uma piada  #RunFialhoRun

 


4 Comentários para “Quando a Piada Ameaça”

  1. Jair Farias4/7/2013 às 8:21

    Acompanhei o caso. Não me manifesto também por ter pais médicos.

    Mas acho que já aos quinze anos de idade sabia de prevenção de intriga de internet. Tanto de trolls, quanto do “feed de trolls”.

    Não é o twitter o lugar da intolerância, a internet toda é permeada estes que a semeiam.

    Regra máxima do comportamento na internet: Do not feed the troll. Nesses tempos, é bom saber ou se lembrar disso.

  2. lulaaugusto4/7/2013 às 10:12

    claro e perfeito texto: Primeiro porque não tenho nenhuma opinião consistente para passar sobre as questões de saúde pública brasileira que não seja a constatação empírica de que ela é ruim. Como sigo o pensamento do grande filósofo Raul Seixas, prefiro ficar calado a expor aquela “velha opinião formada sobre tudo”. Faz tempo que o twitter exala um estranho odor fascista de intolerância, expressão da incapacidade da sociedade brasileira de permitir a divergência, e de um mau humor politicamente correto que toma conta do mundo nesses tempos de psicose liberal.

  3. Eduardo Marinho4/7/2013 às 17:37

    Agora pronto, não se pode mais achar ruim uma coisa só porque o sujeito diz que “é piada”. Dizer que “é piada” virou o mesmo que se trepar, numa brincadeira de tica-trepa. O negócio é ser pusilânime e sempre engolir tudo que é ofensivo com um sorriso amarelo.


  4. A que ponto chegamos né?

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2007 ® Pablo Capistrano

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