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  • Pablo Capistrano
  • 31 de agosto de 2013, as 12h12

 

 

 

 

Nos últimos anos tenho ouvido muita música boa em Pipa, sempre na companhia do jornalista Casciano Vidal e de sua amada Graça Matias, que por um capricho generoso dos deuses é tia de minha esposa. Lá de cima do chapadão a gente transita costumeiramente pelas veredas da alta música nordestina, ao som de Mestre Ambrósio, Beto Brito, Carlos Zens e Tico da Costa. Mas sempre sobra um lugar, em nossas aventuras sonoras para as largas avenidas do Jazz; da Old School de Sidnet Bechet, aos estilos modernosos de Thelonius Monk ou Miles Davis.

 

Os pássaros do chapadão, que tanto encantam os ouvidos de Casciano e Graça naquelas manhãs em que o mar aparece lento de vento leste com seu cheiro de verão, devem ter ficado assombrados com o tipo de experiência sonora que Pipa vivenciou no último sábado, dia 24 de Agosto desse ano da graça de 2013.

 

Sabe, amigo velho, uma das coisas mais fascinantes sobre o Jazz é que ele não é simplesmente um ritmo, um estilo de música ou uma marca sonora, dessas que catapultavam a venda de discos no tempo da finada indústria fonográfica. Muito mais do que uma técnica, o Jazz é um sentimento.

 

Quando Freddie Keppard foi convidado, no começo do século passado, para fazer a primeira gravação de Jazz, recusou de pronto. O velho trompetista do delta do Mississipi teve medo de ter seu estilo copiado por músicos brancos. Dizem que Keppard tocava seu trompete com um lenço cobrindo a mão para que ninguém gravasse o movimento de seus dedos e pudesse reproduzir seus solos.

 

Mas não era a técnica o grande trunfo de Keppar. O que tornava os músicos de Jazz diferentes era um sentimento da música, uma abordagem absolutamente pessoal da experiência de improvisação. É por isso que tocar Jazz é tão arriscado. A maioria dos brasileiros, quando entra por essa vereda, acaba ou fazendo Bossa Nova ou se rendendo a uma forma clássica, erudita demais, séria demais para dar conta da fragrância anárquica que embalou as noites de Count Basie, Willian (The Lion) Smith ou Buddy Boolden (o pai perdido do Jazz).

 

Posso dizer, amigo velho, que quem estava em Pipa na penúltima noite festival de Bossa & Jazz 2013, teve a oportunidade ímpar de ouvir ao vivo uma intensa experiência jazzística.

 

Stanley Jordan não é só um desses caras que criou uma técnica de tocar  guitarra como se fosse piano. Ele é uma dessas presenças que, com sua leveza passarinha, transita entre o mundo dos vivos e as outras áreas sutis que só os ouvidos mais afeitos a magia sem forma da música conseguem sintonizar.

 

Diante de um público que se dividia entre os que se deixavam hipnotizar pelo som transcendente e aqueles que não tinham a mínima ideia do que estava acontecendo, Jordan flutuou por Pipa.

 

 

Stanley Jordan versão 2013

 

 

Ele foi gentil, como sempre é, apontando com sua melodia a música que tocava: Brasileirinho, Over the Rainbow, Stariway to Heaven, Eleanor Rigby. Oferecendo a melodia costumeira, que anestesia os ouvidos em sua aventura arriscada pela estrada da música, Jordan nos convidava pra viagem que se seguia. Uma viagem que decompunha a melodia conhecida e rearranjava a música, como se todas as arquiteturas harmônicas possíveis coubessem em seu voo que unia Bach à Led Zeppelin.

 

Conversando com alguns amigos após o show me pareceu muito certo que tínhamos tido a rara oportunidade de ver um músico da estatura de um Coleman Hawkins ou de um Coltrane. Um sujeito que sabe, como o velho Charlie (Bird) Parker soube um dia, no tempo do be bop, flutuar entre as notas como aqueles passarinhos do chapadão, que voam sobre uma Pipa que não se acostuma a dormir antes do sol nascer.

 

O mais interessante de tudo aquilo, era aquele microfone, enfiado em um pedestal na frente de um Stanley Jordan que parecia ter descido de um disco voador na baía dos golfinhos para nos ensinar algo sobre o legítimo sentimento do jazz, hipnotizar os sintonizados e desentupir os ouvidos dessa aldeia de Poty. Ouvi boatos de que alguns sofisticados habitantes do jet set potiguar, frequentadores mais recentes da rua principal de Pipa (curiosamente cada vez mais parecida com o terceiro piso do Shopping Midway Mal) não haviam gostado muito do show porque “só tinha música instrumental” (SIC).

 

É amigo velho, é assim mesmo. Teve gente que não entendeu que aquele microfone, símbolo máximo da canção popular (grande gênero da segunda metade do século passado) era dispensável. Logo ele, o microfone, responsável por ter levantado a carreira de tantas estrelas pop e tantos vocalistas de rock performáticos e selvagens. Logo o microfone que dá à música um formato de poesia e a transforma em canção. Logo ele que oferece à irredutível abstração do pensamento musical o concreto conteúdo semântico da palavra.

 

No voo passarinho de Stanley Jordan pela praia de Pipa, o microfone ficou calado, porque, naquela noite, quem cantava era a guitarra.

 


2 Comentários para “Um Pássaro Passou por Aqui”


  1. Olá grande Pablo. Terminei uma sessão do meu tratamento e corri para Pipa. Fiquei muito feliz por Jordan (sempre imaginei que um dia teria de ir a NY para vê-lo tocar), mas fiquei triste por Pipa. Insuportável! Concordo com o que disse sobre Stanley, nao teria muito a acrescentar, mas confesso que sai muito frustrado ao final da apresentação (nao com ele, claro): primeiro fiquei muito longe do palco, nao consegui apreciar o nervosismo dos dedos dele; segundo tive de ficar narrando e explicando literalmente o que estava acontecendo ali para dois conhecidos que, como boa parte dos que estavam lá, nao tinham a menor idéia do que estava acontecendo (fui obrigado a escutar coisas como: “esse cara nao jogava basquete?”). Tive de gastar muita saliva para que tivessem uma pequena noção do que Jordan representa para o jazz, para o mundo da guitarra blá blá blá. Terminei escutando pouco, apreciando pouco e falando demais. Tive de dar aula. Ao final, veio aquela pergunta que as vezes nossos alunos fazem para coroar as nossas aulas e que demonstram o quanto estão atentos a relevância do que falamos: ” cara, mas esse cabelo dele e alisado né?” Kkkkkk o pior e que eu tive de confessar que sim.

  2. Pablo Capistrano4/10/2013 às 1:41

    kkkkkk é verdade amigo. tive a mesma sensação em relação a muita gente que estava lá. Jazz em Natal hoje virou uma moda do Jet Set, mesmo que não saibam muita coisa sobre o assunto. E olha que o show foi bem fusion, com muita eletrificação. Imagine se a turma de Pipa tivesse ouvido Coltrane ou Charles Mingus….

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2007 ® Pablo Capistrano

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