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  • Pablo Capistrano
  • 13 de outubro de 2013, as 16h16

 

 

 

Gilles Deleuze, em uma de suas últimas entrevistas para a TV falou sobre sua vida como professor. Em um tom meio nostálgico ele lembrou que começou a lecionar num tempo em que o professor de filosofia era visto como “o louco da aldeia”. Um sujeito estranho, com ideias um pouco suspeitas, mas que deveria ser “tolerado” e deixado “meio a vontade” para exercitar suas excentricidades em sala de aula.

 

Me senti assim quando comecei a dar aula, quinze anos atrás. Como Filosofia “não caía no vestibular” e tinha a carga horária semanal reduzida ao mínimo necessário para não se diluir no obsequioso silêncio do nada, me sentia livre para ludibriar o livro didático e a pressão dos “conteúdos programáticos” e tentar, na medida do possível, exercer minha autonomia criativa.

 

Sabe, já disse isso outras vezes e continuarei a dizer, não troco minha profissão por nenhuma outra ocupação (talvez com a honrosa exceção da de escritor ou de balconista de loja de CDs – se isso ainda fosse viável). Não gosto de reproduzir o discurso de vitimização que às vezes toma conta da minha categoria, como uma longa lamuria de sofrimento e auto piedade.

 

Também não quero ser herói. Não entro em uma sala de aula para salvar a humanidade. Se pra mim, ser professor é uma das mais significativas alegrias, não consigo mais ter (se é que tive alguma vez com sinceridade) a ilusão de que sou imprescindível e de que a civilização ruirá, caso meu ofício desapareça.

 

 

 

Na minha opinião nem toda educação é necessária. Existem modelos, formatos, perspectivas do que significa educar e muitas vezes essas perspectivas, esses formatos, esses modelos servem mais para manter o status quo de um sistema que já deu o que tinha de dar, do que para ajudar a promover uma emancipação real e radical dos sujeitos.

 

 

Agora, uma coisa que eu aprendi, nesses quinze anos de sala de aula, é que existe um campo aberto, no ofício do professor, para a inovação criativa. Às vezes é um campo estreito, limitado pelas demandas de um mercado que cada vez mais transforma a sala de aula em um cenário de reality show, com professores tentando alegrar a plateia agindo sobre a pressão de um paredão pedagógico que os ameaça sempre de eliminação. Às vezes, esse campo é limitado pelas exigências de uma tecnocracia que acostumou a pensar a educação a partir de metodologias estatísticas que nascem da economia política, com seus gráficos, suas tabelas, suas planilhas do Excel sempre cheias de números e quantificações. Tanto na escola pública, quanto na privada (com sua suposta “pedagogia de excelência”, vendida como banana no mercado) o ofício de professor é sempre cercado por circunstâncias que limitam sua autonomia didática e que esgotam sua força vital e sua energia criativa.

 

 

Mesmo assim, há um espaço possível, na fresta desses sistemas de controle operacionalizados por mecanismos burocráticos e fundamentados em teorias pedagógicas diversas, para a sabotagem criativa do sujeito.

 

 

É justamente aonde o contato entre professor e aluno se firma, na dobra em que se cruzam as vidas de quem um dia foi chamado de “mestre” e dos seus alunos, com seu contexto, seus anseios, seus sonhos, suas esperanças pessoais e suas misérias particulares, que a possibilidade de uma educação que transforme e emancipe se manifesta.

 

 

Nos anos cinquenta do século passado, quando pensava sobre o colapso do espaço público nas sociedades industriais, Hannah Arendt nos ofereceu uma intuição muito importante para que pudéssemos compreender o papel do professor e entender a natureza da desconstrução de sua imagem na pedagogia moderna.

 

 

O professor era aquele que apresentava o mundo aos alunos. Aquele que funcionava como um elo entre a tradição da tribo e o futuro das gerações que viriam. Não se tratava de uma mera questão de conhecimento (os arautos da autoeducação que me perdoem, mas nenhum google substituirá a relação entre um professor e um aluno). Essa apresentação era uma vivência que se situava no plano do mundo da vida, do Lebenswelt da filosofia alemã, da qual Hannah Arendt foi uma das mais intensas expressões.

 

 

 

 

 

Esse elo, que a civilização da técnica e as ideologias do capital tentam a todo custo romper, ainda se mantém, mesmo em ambientes precarizados e em circunstâncias desfavoráveis.

 

 

Nesse mês em que o povo do Rio de Janeiro se levantou para marchar ao lado dos professores e dos movimentos sociais; para mais uma vez fazer coro ao grito contra a violência policial, em favor de uma educação pública, social e de qualidade; eu lembro de Gilles Deleuze e de seu serrote.

 

 

Lembro do jovem professor de filosofia em sua sala de aula; o “louco da aldeia”, ensinando os alunos a extrair notas musicais de um serrote para que eles pudessem se aperceber das dobras, das curvas e das infinitas possibilidades que nascem de um movimento.

 

 

Eu penso em meu Bisavô, Professor Antônio Pedro Farias de Castro, lutando com seus livros e seu velho quadro negro nos sertões do Cariri paraibano no final do século XIX. Penso na minha mãe que abandonou a militância da OAB em troca da luta pela educação em um Brasil que não tem fim. Penso na minha sogra e seu sonho de formar uma escola em Felipe Camarão (um dos bairros mais carentes de Natal) para que as crianças daquele lugar pudessem ter uma educação em tempo integral. Penso em meus professores e meus colegas de profissão que, todos os dias contemplam a possibilidade de fazer a diferença na vida de alguém.

 

 

Penso em meus alunos e nesse tecer silencioso do espírito, que enseja multidões e que leva o povo às ruas, em seus sonhos loucos de mudança e seu delírio santo de emancipação.

 

 

Penso nisso e não consigo, por mais que tente; deixar de ter esperança.


6 Comentários para “P de professor”

  1. Aparecida Fernandes13/10/2013 às 16:52

    Também, não, querido amigo. Caminhando também com Paulo Freire, “ensinar exige alegria e esperança”…

  2. Ivoneide Bezerra de Araújo Santos13/10/2013 às 19:46

    Caro Pablo,
    Parabéns pelo artigo mas também por assumir-se esperançoso. Eu também continuo esperançosa. Ainda alimento o sonho de que as escolas se tornem efetivamente esferas públicas democráticas onde alunos e professores desenvolvam sua agência cívica, vislumbrando a justiça social. Continuo sonhando com as instituições de ensino como espaços geradores de possibilidades onde os indivíduos possam produzir um discurso pautado na convicção da finalidade política da educação. Ainda alimento a esperança de que, nessas instituições, os professores tornem o conhecimento e a experiência elementos emancipadores, “possibilitando que os alunos desenvolvam uma imaginação social e coragem cívica capaz de ajudá-los a intervir em sua própria autoformação, na formação dos outros e no ciclo socialmente reprodutivo da vida em geral” como propõe Henry Giroux em sua obra “Os professores como intelectuais”.

  3. Janaina Capistrano14/10/2013 às 11:39

    Pois é, meu primo, e por pertencer a uma família de professores, que parece ter impresso no nosso DNA o amor pela sala de aula, também não podemos deixar de ter esperanças.

  4. Paulo Caldas Neto14/10/2013 às 16:28

    Caro Pablo,

    Não devemos mesmo perder a esperança. Apesar de todas as adversidades que encontramos em nossa profissão, sejam de governo, colegas de trabalho, alguns alunos e alguns pais, devemos nos lembrar de que nossa profissão é a base de tudo. E sempre é possível ser criativo, mesmo com ementas conteudistas, que, às vezes, pouco ensinam o aluno a pensar e limitações administrativas que nos deixam impotentes. Abraço.

  5. Rosane Felix15/10/2013 às 14:00

    pablo, nome de gente que agora sei a fronte. elaborei todo um discurso para o dia de hoje. silenciei. agraciada por suas palavras/ações.


  6. Diga a sua sogra que ela terá meu apoio e minha participação se o quiser. Trabalhar com comunidades populares é o que tenho feito desde que voltei aos campos do conhecer. Atuo na comunidade da redinha desde 2009 e também no Ileaô em Parnamirim, lecionando História e Espanhol e é uma experiência ímpar.

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2007 ® Pablo Capistrano

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