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  • Pablo Capistrano
  • 17 de novembro de 2013, as 7h07

 

 

 

Meu coração disparou e eu senti uma pressão na têmpora. Pensei que ia ter uma síncope, ou mergulhar na inconsciência, motivado pelos estranhos espasmos que me faziam visitar neurologistas em busca de algum conforto científico que me fizesse ter certeza de que não era epilético.

 

Na verdade eu já havia sentido aquilo antes. Quando me apaixonava (e eu me apaixonava muito naquele tempo) costumava a sentir essa pressão na têmpora. Uma vertigem sempre que via a garota, objeto das minhas fantasias, atravessar meu campo de visão, como se o amor fosse, acima de tudo, uma experiência de quase morte e não esse fast food hormonal de hoje em dia.

 

Mas, naquela tarde, no inverno de 1992, era um vinil que produziu minha vertigem. Alguém havia espalhado a notícia de que haviam chegado centenas de vinis no sebo do DCE, na UFRN. Essa foi a grande novidade daquele inverno em Natal. A coleção completa do The Smiths, Jane´s Adiction, New Order, Eco and The Bunnyman, Joy Division, Bauhaus, Pixies. Tudo lá. Espalhado pelas prateleiras do sebo com a embalagem quase intacta, cheirando ao forno. Eram tantos vinis, que correram pela cidade especulações sobre o motivo deles estarem dando sopa naquele sebo.

 

Um cocainômano deveria ter cheirado seus discos e eles foram parar no sebo, diziam uns. Alguma FM havia fechado as portas e sua coleção teria ido parar nas prateleiras do DCE para apurar alguma grana e quitar as dívidas da falência, juravam outros. Um colecionador endinheirado, obcecado por novidades eletrônicas, teria finalmente se rendido ao CD (a grande novidade da indústria musical da época) e esvaziado sua estante de vinis, defendiam os mais integrados.

 

Muitas eram as especulações, mas o fato é que eu estava lá, de pé, com o álbum duplo Still do Joy Division, finalmente em minhas mãos. Eu já tinha ouvido esse álbum em uma fita K7, mas ainda não o havia encontrado nas lojas, pra explorar sua materialidade. O disco era um extrato de gravações ao vivo que o Joy fez pouco tempo antes de Ian Curtis (o vocalista da banda pra quem não sabe) se enforcar. Eu percorri a lista com as músicas (na fita K7, gravada por alguém descuidado, não havia a referências às músicas) e me deparei com Sister Ray, que fechava o lado B do álbum duplo e era de longe, a maior faixa do disco.

 

A música original é assinada por Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Mo Trucker e está no segundo disco do Velvet Underground (White Light/White Heat). Se você é razoavelmente instruído na história do rock deve saber que o famoso “disco da banana”; em que o Velvet Underground contou com a produção de Andy Warhol e com os vocais de Nico, vendeu pouco. Mesmo porque hoje (depois que o finado Lou partiu em sua viagem para o Outro Lado, com seu corpo ainda quente no caixão), até Caetano Veloso anda fazendo referências ao primeiro disco do Velvet.

 

 

 

 

O que talvez você não saiba é que White Light/White Heat, Já sem Andy na produção, vendeu menos ainda, chegando ao vexatório 119º lugar na parada da Billboard. Talvez por isso, soasse para mim, tão absolutamente significativo, naquele inverno de 92, que Ian Curtis tenha apontado para Sister Ray nos seus shows de despedida. A banda que havia inventado os anos 80 estava mostrando uma de suas fontes, deixando para a meninada o recado de que o futuro seria noise, distorcido e soturno.

 

Mas não foi só Ian Curtis que apontou para White Light/White Heat. Outro famoso suicida da história do rock fez o mesmo.

 

Lembro de ter ouvido a primeira vez o cover que o Nirvana fez de Here She Comes Now (outra música do disco) no quarto de Alexandre Carvalho, no bairro de Candelária, na Zona sul de Natal, ainda naquele ano de 1992. Estamos reunidos para fazer um fanzine ou coisa que o valha, e Alexandre, que me foi apresentado por Renata Silveira, me mostrou uma fita gravada do programa Novas Tendências. Foi um programa só com covers. Tinha Sugar Cubes cantando Carpenters, E.M.F. tocando The Stooges, R.E.M cantando Suzane Vega  e o Nirvana tocando uma do Velvet Underground. Imediatamente arrumei um jeito de copiar a fita e passei uns bons anos ouvindo aquelas raridades, em um tempo em que a meninada que vivia isolada nesse balneário pós-sertanejo chamado Natal, nem sonhava com as facilidades obscenas do youtube.

 

É significativo que duas das mais importantes figuras do rock, personagens que praticamente definiriam os rumos sonoros das décadas de 80 e 90, tenham feito referência ao segundo disco do Velvet.

 

Bem mais sujo e barulhento do que o disco com Wahrol e Nico, a experiência de se ouvir White Light/White Heat é bastante arriscada; a ponto de ainda hoje, quando me encontro afastado das estripulias bioquímicas de minha adolescência, me flagrar quase em transe, enquanto guio meu carro pelo caos urbano de uma Natal noturna ao som de Sister Ray.

 

O fato é que, marcado pelas perversidades poéticas e pelo experimentalismo sonoro da dupla Reed e Cale; White Ligth/White Heat, definitivamente, não é um disco para ouvidos sensíveis, nem para corações puritanos.

 

 

 

Mesmo hoje, quando violência, drogas e transexualismo são temas do cotidiano de qualquer menino buchudo de quinze anos, esse álbum mantem sua marca de radicalidade. Uma radicalidade que não se resume aos temas marginais ou às narrativas bizarras. Uma radicalidade que também mora no modo como as notas dissonantes de suas faixas navegam por aquelas longas ondas de feedback em meio a baterias secas, obsessivas, cruzadas por veios intrusivos de microfonia e distorção. Nem sonhe, amigo velho, que você ouviria My Bloody Valentine, Jesus and The Mary Chain ou Sonic Youth se a coragem estética do Velvet Underground não tivesse apostado suas fichas para lançar esse álbum comercialmente inviável.

 

Sabe… quando Walter Benjamin identificou que a aura da obra de arte havia sido definitivamente deslocada do horizonte da modernidade, mantinha ainda um certo otimismo de acreditar que a indústria cultural pudesse democratizar o acesso das massas às obras que antes estavam sobe a guarda da aristocracia europeia ou apenas acessíveis aos bolsos da burguesia industrial. Foi Theodor Adorno que, na contramão dessa intuição condescendente, percebeu a transformação do objeto estético em mercadoria, e a produção de uma arte mediana, vendida no varejo à preços populares para um publico igualmente mediano, forçado a assumir uma  condição de menoridade estética. A transformação da arte em produto de consumo é a marca definitiva do século XX. Comprávamos discos, livros e fitas VHS como comprávamos shampoos, latas de cerveja e supositórios. Os produtos vinham embalados em modelos pré-moldados, prontos para atender os critérios de marketing necessários à manutenção da vida em condições de mercado.

 

O espantoso não é que isso tenha acontecido com a arte no século que morreu a quase duas décadas. O espantoso é que em meio a essas condições tão desfavoráveis, a arte, em sua radicalidade, em sua absoluta insubordinação, em sua ousadia sensorial e em seus desconcertantes níveis de ruptura e dissolução revolucionaria tenha sobrevivido. Como uma resistente fronteira a teimar em nos fornecer seus devaneios, que libertam e purificam na mesma medida em que enlouquecem.

 

 

Ps. : Esse texto é dedicado à Lou Reed (1942 – 2013) e todas as garotas e garotos perdidos das festas de anteontem.


2 Comentários para “Luz Branca / Calor Branco”

  1. Alexandre Carvalho17/11/2013 às 8:31

    Texto excelente,viajei no tempo agora, na verdade fazia compilações com o setlist do programa e eventualmente as minha próprias só com covers, que aqui e alí apareciam dispersos entre um set e o outro, chamava-as “Cover Up Vol qualquer-coisa” , infelizmente o tempo carregou todas, mas trouxe os torrents e youtubes da vida, onde se pode ouvir, inclusive,gravações do Novas Tenfencias, um paradoxo bastante curioso!

  2. Pablo Capistrano17/11/2013 às 16:41

    Pois é rapaz, encontrei quase tudo daquela fita pelo youtube, fantástico, não é? tudo ao mesmo tempo agora.

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2007 ® Pablo Capistrano

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